Jeremias Carlos Vechina
Já se começa a falar da misericórdia barata. Fala-se da misericórdia por activa e por passiva, sem tom nem som. Temo que este ano da misericórdia seja mais um de tantos que temos celebrado nestes últimos anos. Isto não acontecerá se nós descobrirmos o Deus que está subjacente à experiência da misericórdia e o assumirmos na pastoral e na catequese. Digo isto porque a imagem de Deus que ainda se encontra no subconsciente colectivo das pessoas não é o Deus misericordioso, mas o Deus justiceiro e castigador. E aquilo que é estruturante da religiosidade da pessoa humana não se cura num ano nem em dois nem em três.
Um dos frutos da renovação do estudo das fontes da revelação foi o facto de nos convencermos que o cristianismo é uma história. E a Sagrada Escritura, memorial dessa história, não se apresenta como um conjunto de doutrinas, mas sim como a narração daquilo que Deus fez com as suas criaturas vivas, com toda a humanidade, em ordem a realizar nela um certo desígnio de graça e de amor. Toda esta história tem um centro que é o acontecimento que se chama Jesus Cristo.
A partir do momento em que a teologia deixa os mosteiros e passa para as universidades, começa-se a esquecer a teologia do coração e nasce a teologia especulativa, a teologia escolástica. Esta dedica-se a contemplar e definir, a partir da revelação, o em-Si de Deus e de Cristo, isto é, aquilo que Eles são em si mesmos. Isto fez com que os manuais de teologia se fixassem simplesmente nos atributos divinos que resultavam da essência de Deus, como a imutabilidade, simplicidade, infinitude, eternidade, omnipresença, omnisciência, omnipotência, etc. Este modo de ver a Deus tem os seus limites. Como a misericórdia não fazia parte dos atributos metafísicos de Deus a teologia esqueceu-a. Embora não faça parte dos atributos metafísicos de Deus, sim, que pertence à sua auto-revelação histórica. Esquecer a misericórdia não é um problema de somenos importância, mas algo que determina a essência divina e os atributos divinos em geral. Isto obriga-nos a reformular a teologia.
Segundo a filosofia grega que herdaram os teólogos escolásticos, a perfeição consiste na posse total e simultânea de todos os valores. Por conseguinte, o Deus infinitamente perfeito possui simultaneamente todas as perfeições. Não pode receber nada novo. Portanto, a criação não comunica nada à sua essência, ou ao seu “em si”, fica completamente à margem, como acidente. Até mesmo o homem, destinado a participar da vida íntima de Deus, do deu mistério trinitário não entra no seu “em si”, fica à margem.
O conceito de perfeição mudou. Já não se pensa numas essências “estáticas”, mas vitais e evolutivas. Tudo tem carácter “histórico”, ou seja, está submerso num processo evolutivo. Mais que pensar nas essências metafísicas, estáticas e no ser, pensa-se no devir. Estar submetido a este processo evolutivo já não se considera imperfeição. Cada coisa é perfeita se corresponde ao momento exigido pelo processo evolutivo.
Há teólogos que, considerando a Deus através das suas manifestações na história da salvação, começaram a pensar se a assunção da natureza humana por parte de Deus e a participação do homem na vida trinitária, não supõe um desenvolvimento no “em si” de Deus.
Deus sem deixar de ser quem é, como que saiu do em-Si, entrou no nosso mundo e na nossa história para nos tornar participantes da sua vida, da sua alegria, da sua imortalidade, da sua glória.
Hoje os biblistas estão de acordo em reconhecer que a Revelação se fez essencialmente “funcional”, ou seja, em função dos homens: não há revelação de Deus e de Cristo senão a partir do testemunho que nos foi transmitido sobre aquilo que realizaram e realizam para-nós, para nossa salvação. Deus fez-se conhecer nos actos e nas palavras pelas quais declara e realiza os seus propósitos de aliança. Conhece-se alguma coisa daquilo que Ele é em Si mesmo a partir daquilo que Ele faz para nós e por nós. O seu desígnio não é outro senão a salvação ou a felicidade do homem (não separado do universo), pela comunhão com Ele em Jesus Cristo.
Uma das maiores desgraças que atingiu o catolicismo moderno está no facto de se ter tornado teoria e catequese sobre o em-Si de Deus e da religião sem lhe acrescentar o momento de tudo isso para o homem. O homem e o mundo sem Deus, com os quais hoje em dia nos defrontamos, nasceram, em parte, de uma reacção contra um tal Deus sem homem e sem mundo.
Porque Deus em-Si mesmo é com o homem, Deus não descansa enquanto o homem não se aperceba desta realidade e acolha este Deus que se lhe apresenta, lhe bate à porta e faz um pedido: pede intimidade, amizade, amor correspondido. Enquanto o homem não seja com Deus algo Lhe falta, porque Deus é connosco. E antes de sair ao nosso encontro por fora, Deus ilumina-nos por dentro para que o possamos reconhecer.
A Bíblia é o livro que relata a história de um Deus que sai ao encontro de um homem que não o procurava, de um Deus que respondia quando não perguntavam por Ele. A Bíblia já não é o livro do desejo humano de Deus, mas é, antes de mais nada, o livro do desejo divino do homem. Ou seja: a Sagrada Escritura já não é o livro do desejo que o homem tem de Deus, mas o livro do desejo que Deus tem do homem.










