Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro

Meu irmão
O nosso orgulho far-nos-á dizer como Pedro: “Senhor, tu, lavar-me os pés?! (…) Jamais me lavarás os pés!”. (Jo 13,6-9) Mas ao vê-lo com os olhos da alma, pela fé, ajoelhado diante de nós, com o seu olhar repleto de ternura, com aquela luz que penetra até ao fundo da nossa alma e faz com que Ele nos comungue na totalidade do nosso ser, não podemos senão deixar que Ele exerça o Seu ministério Sacerdotal sobre o nosso ser.
Esta é a atitude de alma que lhe peço que tenha ao escutar o que o Espírito lhe disser através desta partilha fraterna. Nada do que aqui está importa, apenas que se recolha e O veja diante de si com a toalha presa à cintura e a bacia da água. Deixe-se estar assim até que Ele Lhe diga algo, ou até que no seu coração surja algo para Lhe dizer.
Ele que é “Ministro do Amor” sabe que o Seu ministério Lhe foi confiado pelo Pai Eterno, e, que tendo vindo do Pai ao Pai volta, mas não sem antes comer a Sua Páscoa connosco, não sem antes nos levar consigo, não sem antes nos fazer participar na Sua glória, não sem antes nos fazer comungar da Sua vida. É de uma beleza “indescritível” porque Ele comunga o nosso ser fazendo-nos comungar de Si próprio. A beleza da plena unidade que O caracteriza em tudo porque reflexo da Trindade, do Verbo Encarnado. Um mesmo amor, um mesmo acto consacratório e a plenitude da humanidade assume a plenitude da Divindade porque a plenitude da Divindade assume a plenitude da humanidade.
É a força do Espírito, que do “Faça-se” da Virgem Sacerdotal se converteu num novo aniquilamento: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”; ou numa nova comunhão divina: “Assim como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que come a minha carne viverá por mim.” (Jo 6,57) Na força do Seu Espírito, Ele é em nós mais do que nós mesmos, Ele é em nós a nossa verdade, a nossa vida, o nosso caminho. Não como algo que se nos apresenta desde fora, justaposto ao nosso ser e que temos que imitar, de percorrer e seguir, mas como seiva que nos percorre interiormente. Como vida sobrenatural que se desvela à natural, como graça produzida pelo próprio acto de Jesus nos “con-sagrar” no Seu Ser Sagrado ao lavar-nos os pés.
Ao lavar-nos os pés – “Deus transferiu-nos para o Reino de Seu Amado Filho” (Col 1,13) – e deu actualidade, em nós, à plenitude da manifestação de amor que fez aos seus discípulos. Sim a força do memorial apodera-se das nossas almas e faz-nos ouvir no mais profundo do nosso ser aquela Verdade que se faz nossa: “Eu sou a videira e vós os Ramos. Aquele que permanece em mim e Eu nele produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,5)
Esta verdade faz-se nossa não pela força da meditação, mas pela vontade de Deus que a revela em nós como realidade que nos desvela o nosso próprio ser, que nos faz encontrar connosco e que exerce em nós um efeito pacificador, ao aproximar-nos da plenitude da relação com o Deus Amor e introduzir-nos na relação de Jesus com o Pai, através relação que Jesus estabelece connosco.

“Assim como o Pai me amou também eu vos amei. Permanecei no meu amor.”
(Jo 15,9)

Sentimo-nos corpo de Cristo, experimentamo-nos corpo de Cristo, pelo amor que nos invade e que em nós circula como força vital, que nos impele para permanecermos em Deus, ao mesmo tempo, que nos revela que a nossa permanência é a de filhos no Filho, porque o amor com que somos amados é o do Pai pelo Filho. Somos corpo de Cristo porque Ele fez-se nosso corpo: “Não fostes vós que me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos destinei para dardes muito fruto (…)” (Jo 15,16)
Ele escolheu-nos e entrega-nos o Seu mesmo “ser”, não como algo fora d’Ele, não como algo fora de nós, mas como algo que é “intimidade”, como algo que é o “entrar dentro”, o entrar dentro de nós, o “entrar dentro d’Ele”, o “interpenetrar-mo-nos” mutuamente. O comungarmos do elemento íntimo do Deus Trindade, a “inhabitação”, que em nós se expressa como “interpenetração” que gera unidade.
A loucura do amor d’Ele por nós vai até ao abaixamento supremo do próprio Deus em Cristo Jesus ao revelar-nos e ao fazer-nos “participar”/”comungar” da própria intimidade divina das Três Pessoas.
Comungando de Deus comungamos dos irmãos – da mesma forma que as Pessoas divinas se “inhabitam”, se comungam mutuamente como expressão da sua perfeita unidade, “penetramos” dentro dos outros, conhecemo-los em Deus e “possuímo-los (como membros dum mesmo corpo)/comungamo-los” na luz de Deus, numa nova realidade que manifesta o Acto Criador do Pai, em suprema Bondade, porque a comunhão com os membros do corpo de Cristo estabelece-se na bondade de cada um como marca do acto Criador de Deus. “E Deus viu que era bom.” (Gen 1,25) Esta Bondade do Eterno Pai, manifesta-se em Cristo “Alfa e Omega” que faz novas todas as coisas, o “Unigénito e o Primogénito” de muitos irmãos. E o “Unigénito e Primogénito” do Pai expressa-se no acto “con-sacratório” que é comunhão pelo Espírito no espírito, que faz de nós verdadeiramente corpo de Cristo.
Sim, somos corpo de Cristo porque Ele é a videira e nós os ramos e o Pai é o agricultor. (Jo 15,1) Sim, somos corpo de Cristo na “comum união de almas”, na comunhão espiritual do irmão, na comunhão em Deus dos membros deste corpo. Não numa realidade desencarnada mas na plenitude da Encarnação. Ele é o Emanuel, e porque é um Deus connosco, é um Deus por nós e através de nós, o que significa que a “todos os que O receberam Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus” e de nos irmanarmos em Deus mesmo e de possuirmos em nós, na Força do Espírito, um só coração e uma só alma, à semelhança do próprio Deus: um único amor, uma única vontade, um único poder.
Se em Deus a “inhabitação” mutua das Pessoas Divinas manifesta a igualdade radical que existe entre elas, a comunhão perfeita que manifesta a distinção mais do que a diferença, em nós a “interpenetração” do irmão, “no Verbo”, é manifestação da nossa igualdade n’Ele e simultaneamente da nossa distinção uns dos outros. Distinção que manifesta a unicidade e irrepetibilidade da própria acção de Deus, a própria glória de Deus ao ciar-nos únicos e irrepetíveis mas semelhantes a Ele.
O sermos corpo de Cristo exige de nós a mesma unidade e distinção de Deus, no sentido da afirmação de Cristo Jesus: “Que todos sejam um. Como Tu, Pai, em mim e eu em ti, que eles sejam um em nós…” (Jo 17, 21). Tal como a inhabitação recíproca expressa e realiza plenamente a unidade das pessoas, na sua distinção, a presença do Verbo em nós, condição indispensável para a “interpenetração”, para a comunhão no espírito dos irmãos, manifesta a plenitude da união na distinção. A plenitude da nossa “comum unidade” manifesta-se em sermos corpo de Cristo, em Cristo, por Cristo e com Cristo.
A própria glorificação de Cristo está em sermos corpo de Cristo. Porque O reconhecemos e acolhemos como enviado do Pai e deixamos-nos reconhecer e acolher por Ele, pois fomos-Lhe dados pelo Pai e somos do Pai. (Jo 17, 9-10) Como todas as coisas de Jesus são do Pai e as do Pai de Jesus é no seu corpo que a Sua glória se manifesta.

“Que todos sejam um. Como Tu Pai, em mim e eu em ti, que eles sejam um em nós, para que o mundo creia que Tu, me enviaste. Eu dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um como nós somos um.”
(Jo 17, 21-22)

A Glória é o Espírito da verdade na realização do “acto consacratório”, pela comunicação ao nosso espírito do que escuta de Jesus e pela força com que nos impele à comunhão divina, à participação na vida do próprio Deus. O sentido pleno do nosso ser é sermos “corpo de Cristo”.
Quanto mais nos aproximamos de Deus mais contemplamos a sua “unidade amorosa” em abaixamento à nossa frágil e débil humanidade. Mais nos convertemos em testemunhas vivas de que o Crucificado-Ressuscitado toca a nossa humanidade com a sua Humanidade Gloriosa e comunga-a com a Divindade do seu ser.
Ser corpo de Cristo é primeiramente trazer em “nós as marcas de Jesus” (Gal 6,17), não apenas como sinal de que entregamos o nosso corpo por Ele, mas como oferta do nosso corpo para “memorial da Encarnação do Verbo”, para O tornar presente como “novas criaturas” (Gal 6,15), como antecipação da eternidade.
“Quanto a mim, não aconteça senão gloriar-me na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo. De resto, nem a circuncisão é alguma coisa, nem a incircuncisão, mas a nova criatura. (…) Eu trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.” Gal 6
São estas marcas que fazem de nós participantes da nova criação.

“Oferecei os vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus.”
(Rm 12,1)

A nova criação é uma “Criação Eucarística” em que se celebra a Encarnação, a Paixão, a Ressurreição e o Pentecostes num “único Acto” – o Ser de Deus, Deus mesmo. E simultaneamente é a plenitude da realização das palavras de Jesus: “Eis que faço novas todas as coisas”. E fá-las seguindo o movimento doxológico no qual a nova criação é Páscoa, Páscoa de Cristo ao Pai, páscoa de nós a Cristo. Páscoa – “Con – sagração” do nosso corpo como hóstia viva, santa e agradável a Deus, “por Cristo, com Cristo e em Cristo, ao Pai no Espírito” que nos converte em corpo de Cristo.
«Na nova criação a realidade não é outra que o “Corpo de Cristo”. Por Ele realiza-se o crescimento em Deus.» (Col 2,17. 19).
O crescimento em Deus é a seiva da videira, da qual o Pai é o Agricultor e nós os ramos, a vivificar a nossa vida, é a água viva do Espírito a animar o corpo de Cristo que somos, é a nossa “vida escondida com Cristo em Deus” a “encarnar” em nós, consagrando-nos em corpo de Cristo.
Mas na realidade nunca saberemos ser corpo de Cristo senão por desígnio Daquele que enviou o Seu Filho ao mundo para que vivamos n’Ele. Ser corpo de Cristo conduz-nos à mesma experiência de alegria interior de Jesus: “Eu te bendigo, ó Pai, porque escondestes estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi dado por meu Pai. E ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem Ele O quiser revelar.” (Lc11)
Se ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, ninguém conhece o corpo do Filho senão o Pai. O crescimento em Deus é, assim, movimento de amorosa criação que o Pai Eterno ao criar tudo no Verbo infundiu em todas as coisas, na força do Espírito que as anima e impele para o fim que é Cristo, para o fim que é a Vida Eterna.

“Não quisestes oblações nem holocaustos, mas deste-me um corpo. Então eu disse: Eis que venho, ó Pai, para fazer a tua vontade.” (Heb 10,5-9)

Na sua humanidade, Ele tocou a humanidade de cada um de nós com as suas feridas, ao assumir um corpo semelhante ao nosso. E só com o toque d’Ele fez-nos participar da sua vida divina curando as nossas feridas, tornando-as manifestação da misericórdia de Deus. Tal como Ele ressuscitou com as chagas, como sinal da plenitude do Seu amor por nós, também nós possuímos no nosso corpo as marcas das feridas como sinal da abundância da misericórdia que Deus derrama sobre nós e da radicalidade da Sua entrega por nós. Estas marcas deixam de ser apenas marcas das nossas feridas para passarem a ser marcas da presença e da acção do Ressuscitado nas nossas vidas,

“Digo-Vos isto para que a minha alegria esteja em Vós…”

O sacerdote está chamado a viver em plenitude esta relação trinitária para possuir a graça e o dom de penetrar na alma daqueles que lhe são confiados, de conhecer dentro, e isto é sempre abaixamento. E pode fazê-lo desde a íntima comunhão com Cristo, sentindo-se ele mesmo corpo de Cristo e manifestando a Bondade do Pai, que na Força do Espírito é recriação do Filho em cada Pessoa.
Quando na luz do Verbo, o sacerdote, lê a vida dos que lhe são confiados dá-se a comunhão duma mesma LUZ, duma mesma Palavra Criadora – o Verbo. Assiste-se ao encontro duma mesma Alegria – alegria de possuir em si o Verbo Eterno, que não é senão a alegria de ser filho no Filho, alegria de ser corpo de Cristo. Alegria do próprio Jesus que é expressão da comunhão de vida divina dos Três. “Que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria esteja completa.” (Jo 15, 11).
A força, a luz, e a eficácia que o Espírito imprime à Palavra de Deus e a abertura vivencial do sacerdote à comunhão com o Verbo Eterno, pela fé, no diálogo íntimo com Deus que é a oração, fazem-no “penetrar/comungar no/do” interior de cada pessoa e fazer crescer o Verbo do Pai Eterno que se encontra em potência. Aqui o sacerdote é outra Maria. Maria, a Virgem sacerdotal, cuidou do Filho de Deus para que Ele crescesse em estatura, em sabedoria e em graça e esta é a missão suprema do sacerdote fazer com que cada filho de Deus cresça nestas três relações amorosas com o Deus Pai Criador, com Espírito de Verdade e de Sabedoria que procede da comum união do Pai e do Filho e com o Verbo a Palavra Eterna que produz na alma a Graça do “mais belo dos filhos dos homens”. (Sal 44).
Deixe que Ele lhe lave os pés e lhe revele a beleza do ministério sacerdotal que lhe confia. Dou graças a Deus pelo grande amor com que o nosso Eterno Sacerdote o ama.