Armindo Vaz, OCD

O encanto do Natal, representado nos presépios ao longo de séculos, exerceu particular influência na poesia, culta e popular, como a dos vilancicos. Os aturdidos com o delírio de comunicação têm na poesia da festa do Natal uma oferta para a contemplação, que introduz no Mistério da Vida que nasce e renasce. A partir do Natal, os que têm sede de encontrar Deus procuram-no em Jesus, ainda que – sempre – de noite, como cantava Luis Rosales na sua poesia «Retablo de Navidad»:
«De noche iremos, de noche,
sin luna iremos, sin luna,
que, para encontrar la fuente,
solo la sed nos alumbra».

Bem o sabia o padroeiro dos poetas espanhóis, S. João da Cruz (Poesia 4):
«Que bien sé yo la fonte que mana y corre:
aunque es de noche…
El corriente que nace de esta fuente
bien sé que es tan capaz y omnipotente,
aunque es de noche».

Na masmorra de Toledo, que lhe tirava a liberdade de anunciar a Palavra em terras de Castela por querer fundar com Teresa de Jesus a nova Ordem do Carmelo, escreveu a romança da libertação da Humanidade no corpo e no espírito. Poetizando a história bíblica da salvação libertadora desde «o princípio» até ao Natal de Jesus, termina a romança numa salva de louvores ao Deus-Esposo que enviou o Filho salvar a Esposa-Humanidade:

«Já sendo chegado o tempo
Em que de nascer havia,
Assim como desposado,
Do seu tálamo descia,
Abraçado à sua esposa,
Que em seus braços a trazia;
O qual a Mãe graciosa
Em um presépio estendia,
No meio de uns animais
Que na altura ali havia.
Diziam cantos os homens
E os anjos melodia,
Festejando os esponsórios
Que entre aqueles dois havia:
Deus, porém, nesse presépio
Ali chorava e gemia,
Que eram joias que a esposa
Aos esponsórios trazia.
E estava a Mãe assombrada
Da troca que ali se via:
Em Deus o pranto do homem
E no homem a alegria».

No Natal cintila o espírito de contemplação. O místico carmelita, que contempla o Filho de Deus a entrar no tempo e na história humana, canta o admirável intercâmbio que ilumina a noite escura da fé: o Amor divino dá-se no amor humano do menino nascido. E sublinha o paradoxal intercâmbio de presentes, que causa o assombro da Mãe: a pobreza e o pranto do menino-Deus eram causa de gozo e alegria dos humanos.