Armindo Vaz, OCD
Nos nossos dias, de forma aguda, vamos assistindo ao exílio da palavra, que nos aproxima do abismo sem fundo da falta de comunicação, não só com o Inefável e com o Ausente que se deveria tornar Presente através da palavra mas também com os semelhantes. Os membros de toda uma família a ‘comunicar’ cada um com a sua máquina em vez de se olharem à procura dos sentimentos e emoções do que está em frente, a banalização ou barbarização da palavra transformada em insolência ou em imprecação, a dificuldade de compadecer-se… são alguns resultados do eclipse da palavra nos tempos que correm.
Por análoga situação de desterro passou também a palavra de Deus conservada na Sagrada Escritura. Depois de ter sido o nutrimento do povo de Deus nos gloriosos tempos dos Padres da Igreja e dos monges da Idade Média até ao séc. XIII, fez a travessia do deserto. Desde o séc. XVI, devido à controvérsia com os protestantes, os católicos deixaram de a ler quase até ao concílio Vaticano II. É honra do seu documento Dei Verbum ter devolvido a Bíblia ao povo de Deus, a quem pertencia, exortando a todos à sua leitura assídua. O nº 21 afirma “o grande poder e a força” salvadora do Livro dos livros, proclamando a palavra de Deus escrita “pão da vida”, “suprema regra de fé da Igreja”, “alimento e regra da pregação da Igreja”:
Nos livros sagrados o Pai que está nos céus sai amorosamente ao encontro dos seus filhos para conversar com eles. E é tão grande o poder e a força da palavra de Deus que constitui sustento e dinamismo da Igreja, firmeza da fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida espiritual. Por isso, se devem aplicar por excelência à Sagrada Escritura as palavras: «a palavra de Deus é viva e enérgica» (Hebr 4,12).
Segundo o concílio, a Escritura não só contém a verdade salvífica, não só é santa, mas também “é útil” para caminhar para a santidade. Não só ensina a agir. Dá energia para agir. Verdade e força salvífica estão unidas na sua inspiração divina (2Tim 3,15-17).
Como se viu no número anterior deste Boletim, já a palavra humana, com a sua energia plural, move os afectos e sentimentos, produzindo mudanças no leitor: consola, anima, alegra, entristece, infunde simpatia, confiança, serenidade, contagia e multiplica a intensidade da convicção; e quantos mais convence, mais força de convicção adquire, ela que, sendo totalmente divina, é também totalmente humana. Ora, todas estas propriedades da palavra são também da Escritura Sagrada:
“A alma adoece e cura-se com as palavras: elas incitam-na à ira e amansam-na; um discurso perverso incendeia-a em concupiscência e uma palavra honesta condu-la à temperança. Ora, se a simples palavra tem tal poder, diz-me por que desprezas as Escrituras. Se a exortação pode tanto, quanto mais as exortações que têm o impacto do Espírito? A palavra que ressoa nas Escrituras amolece a alma endurecida, mais do que o fogo, e dispõe para toda a boa obra” (S. JOÃO CRISÓSTOMO, In Mt 1, homilia 2,6: PG 57, col. 31).
Na palavra de Deus a energia da palavra humana não diminui; intensifica-se pela sublimidade da origem e pela salvação que promete; não só revela a sua graça mas também a transporta. Não é som oco, nem força mágica. Acreditada pela fé como proveniente de Deus e como comunicação activa e eficaz, tem poder salvífico, com diferentes graus de intensidade (também segundo a disposição e abertura do leitor). E também ela, como a palavra humana, gera acontecimentos históricos. Transformou vidas. De pescadores fez apóstolos, de pecadores fez santos. Induziu muitos leitores a fazerem o bem ao semelhante. Nessa medida, influenciou o rumo da história, fez história, como fez cultura. No seu célebre livro O grande código, Northrop Frye fala do grande “ascendente da Bíblia na nossa cultura” (p. 343), do “impacto da Bíblia na imaginação criativa” e da “influência imaginativa exercida pela Bíblia” no Ocidente. Realmente, também nesse imenso campo a Sagrada Escritura deu e dá provas do seu poder de influência. Até a nível literário e artístico aparece a força da sua palavra. É também a opinião do Professor Frederico Lourenço, na Introdução à sua tradução da Odisseia de Homero, indicando a própria Odisseia como a mais influente a seguir à Bíblia (p. 11). Continuando esta reflexão, no livro Palavras com poder [Words with Power] o estudioso canadiano Frye diz na p. 155 da versão espanhola: “Na Bíblia, a ênfase posta em «palavra» implica que a vontade de comunicar-se com os humanos faz parte da essência de Deus”. Já o tinha dito o Vaticano II: “aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade” (Dei Verbum 2). Ou seja, Deus só pode ser mistério, sim, mas é «mistério» comunicável. Para comunicar-se “falou na Sagrada Escritura por meio de homens e à maneira humana” (Dei Verbum 12). Reaparecem em todo o esplendor a importância e a força da palavra, humana e divina. Continuaremos a pensá-la.










