Armindo Vaz, OCD
No contexto do Advento cristão, que tem como personagem central a Virgem do silêncio que espera o natal do Filho Jesus, assumem relevo luminoso a palavra virginal e a Palavra de Deus. Realmente, o evangelho narra: “no princípio já existia a Palavra e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus…; e a Palavra fez-se carne e acampou [armou a tenda] entre nós; e nós contemplámos a sua glória [o seu ser, a sua riqueza, o seu resplendor], glória de Filho único do Pai, cheio de amor e de lealdade” (Jo 1,1.14). Ora, esta incarnação da Palavra deu-se no seio “de uma virgem: e o nome da virgem era Maria”.
Neste quadro da anunciação feita a Maria pintado por Lucas (1,26-38) assumem protagonismo avassalador a Palavra, provinda do próprio Deus, e a palavra com que Maria acolhe a Palavra. A Palavra de Deus aparece representada no mensageiro que anuncia a Maria a concepção e o nascimento de Jesus. O anjo, a mesma figura que já aparecia nas Escrituras judaicas, é uma imagem do próprio Deus, re-presenta-o, torna presente e ‘visível’ a pessoa e o agir de Deus, salvaguardando a Sua invisibilidade e transcendência mas projectando-O para o exterior em forma de comunicação do seu amor constante aos humanos; é o próprio Deus enquanto manifestado e comunicado. O anjo da palavra é um ícone da Palavra de Deus a Maria. De facto, o “enviado por Deus” fala a Maria usando um rosário de palavras da própria Escritura, que lhe eram familiares. Pôr a palavra angélica a anunciar o nascimento de Jesus queria dizer que estava em questão uma verdade vinda não só da razão, da história e da inteligência humanas, mas também de Deus: tinha a função de apontar para Deus como sentido último da história real; apelava para a fé no Mistério oferecendo a interpretação Espiritual do acontecimento histórico anunciado: via o nascimento de Jesus na perspectiva do Espírito de Deus, como nascimento do que “será chamado Filho de Deus”.
O emocionante diálogo do anjo com a Virgem exprime a intensa meditação dela com a Palavra de Deus: porque continuamente “guardava todas estas palavras, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19), concebia os acontecimentos à luz do Transcendente e do poder do Altíssimo. E, ao querer compreender a possibilidade da incarnação do Filho de Deus no seu seio, o anjo responde: “não será impossível da parte de Deus a realização de nenhuma palavra”.
Nesse momento determinante da história humana, S. Bernardo, em jeito de comentário, como que pressiona dramaticamente Maria:
“O anjo espera a resposta… Todo o mundo está à espera… Da tua boca depende… a salvação de todo o género humano. Ó Virgem, dá depressa a resposta… Responde a tua palavra e acolhe a Palavra divina, pronuncia a palavra que passa e recebe a Palavra eterna. Porquê demoras?… Se no silêncio é aceite a modéstia, agora é mais necessária a piedade na palavra. Abre, ó Virgem bendita, o coração à fé, os lábios à palavra, o seio ao Criador” (Das homilias sobre a Virgem Maria, 4,8-9).
“A anunciação pedia o consentimento da Virgem em representação de toda a natureza humana” (S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae III q. 30,1). E teve-o. A Virgem deixou-se entranhar e impregnar da Palavra de Deus, que se condensou na sua pureza virginal e transparente até aparecer como Menino. Ou, de outra perspectiva, a contemplação de Maria à luz da Palavra de Deus compreendeu que o filho que ela ia conceber era a Palavra de Deus feita carne nela: era o Filho de Deus. A contínua iluminação dos acontecimentos pela Palavra de Deus levou Maria a concluir: “faça-se em mim segundo a tua Palavra”, aconteça segundo o teu plano de salvação para os humanos. De facto, a cena da anunciação a Maria revela que Deus desde sempre tinha um projecto de vida a oferecer-lhes, revelado plenamente na incarnação de Deus no homem Jesus. A caixa-de-ressonância da meditação amplificou o som do fiat de Maria ao anjo e deixa pensar que não o fez só em nome pessoal mas também em nome de todos os que estavam, estariam e estão abertos a incluir-se nesse plano salvador, cuja fase decisiva teve aí o início e chegou até mim. O seu sim, ámen seguro e vinculante, coincide com a máxima dignificação do ser humano e com a elevação da personalidade crente. Sem nenhum determinismo, é resposta à eterna vontade de salvação, totalmente coincidente com o ser de Deus, e permitiu a sua realização total na pessoa de Jesus, a vinda do divino ao humano. É o «termo fixado de um plano eterno» – diria Dante. O botão de rosa abriu-se e deu à luz a Palavra feita carne. A feliz conjunção da Palavra de Deus com a palavra de Maria mudou a vida dela e, por ela, aurora do dia novo e geradora do Homem Novo, deu rumo novo à história da humanidade. Maria corporiza o perfeito acolhimento da graça divina por parte dos humanos: tudo o que Deus queria comunicar-lhes encontrou nela total abertura e passou para eles. A “serva do Senhor” é a serva da Palavra.
Só a palavra inocente de uma alma virgem pode dizer algo que se pareça ao acolhimento com que a Mulher Nova deu corpo no tempo à Palavra eterna: “Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-vos, quero tornar-me inteiramente dócil ao vosso ensino, a fim de tudo aprender de vós” (S. Isabel da Trindade, Notas íntimas, NI 15).










