Armindo Vaz, OCD
Hoje em dia, com a mentalidade historicista e com a tendência ocidentais para ler os textos bíblicos à letra, o exercício de lê-los segundo critérios de interpretação pode suscitar suspeitas, especialmente em vários episódios dos evangelhos, onde uma análise literária conclui que temos factos, não relatados objectivamente mas interpretados religiosamente, com linguagem figurada, imagens e representações que visam dar sentido superior a feitos do próprio Jesus ou que giram à volta dele (nascimento, paternidade, baptismo, tentações, transfiguração, milagres…). Então não sucederam mesmo? O relatado nos evangelhos não é histórico?
Para evitar estas perguntas equívocas e indevidas, arme-se de uma boa ideia de narrativa não totalmente histórica, que cruza os factos históricos com imagens literárias que lhes dão mais força.
Em geral, narrar um acontecimento é querer compreender com profundidade a sua significação e as suas potencialidades implicativas e labirínticas. Narrar a vida é uma forma poderosa de a compreender, em si própria e na sua relação com a dos outros. A narrativa transforma para melhor os factos narrados: filtra-os, interpreta-os. Desperta a interiorização e a memória deles, no presente e no futuro. Afecta com lucidez o estado de espírito, apela à contemplação, coloca questões sobre o acontecimento ou sobre o tecido do narrado. E essa eficácia, a narrativa exerce-a mesmo não sendo factual. Neste caso, não recusa o factual: medita nele para entrar no seu sentido interior invisível. O embelezamento poético da aparição do “enviado do Senhor” a José para assumir a paternidade legal de Jesus (Mt 1) não é simples arte literária ou mero efeito decorativo, nem desfigura o que terá acontecido: é energia comunicativa de uma espiritualidade viva que emana das imagens, dos símbolos, das representações usadas na narração, figurativa. Um exame literário dos relatos à volta do nascimento de Jesus constata que não o quiseram contar tal qual sucedeu: quiseram transfigurá-lo, para o dignificar ao máximo, para o contemplar mostrando o seu valor sublime. Contam a história que os historiadores não saberiam nem poderiam contar: contam a história de Deus com os homens, o seu compromisso de fidelidade e salvação oferecida em Jesus… A ornamentação literária da sua infância com motivos religiosos não tinha em vista reproduzir com exactidão os seus passos. Procurava antes completar ou melhorar a visão do mistério que poucos tinham descoberto naquele menino, para enriquecer o pouco que sabiam dele. Procurava suscitar o desejo e a fé, que induzem a ultrapassar os limites e a descobrir em Jesus o que os olhos da carne não vêem. Como sabemos, a palavra historiográfica fixa o sucedido num momento do passado; a história sagrada narrada em forma de evangelho ou de meditação espiritual dá-lhe sentido perpétuo, estendendo a sua eficácia ao presente do leitor.
Então, a narração não totalmente histórica diz verdade e ‘mente’, ao mesmo tempo. A história de “uns magos vindos do Oriente” até Belém (Mt 2,1-12) ‘mente’ (se assim quiserem dizer!), no sentido de que o contado não sucedeu ao pormenor. A forma como se conta não é a de história sucedida ou a da historiografia moderna. Mas essa é só uma parte daquilo que está em questão. A outra parte é que essa narração apresenta com grande verdade Jesus como o verdadeiro Messias salvador, esperado pelos judeus e agora não reconhecido por eles. Cruzando personagens, factos reais e lugares geográficos objectivos (Jerusalém, Belém, a atmosfera da corte “nos dias do rei Herodes” o Grande, velho ditador cruel, os sumos-sacerdotes e os escribas do povo, Maria mãe, o menino Jesus) com a iluminação fundamental proporcionada pelas Escrituras judaicas citadas, apresenta-O como aquele que vinha para dar sentido à vida, não só dos judeus mas de todos os povos; e mostra que estes acolheram a mensagem de Jesus com imensa alegria. Mateus imaginou uma pitoresca história para fazer compreender à sua comunidade o mistério do menino Jesus-Messias, salvador universal. Essa grande verdade só podia exprimir-se encoberta, escondida debaixo da linguagem simbólica, porque é invisível. Exprime-se numa meditação narrativa, que funde a vida de Jesus com a fé das Escrituras, para dar à história humana o toque do divino (no tempo de Jesus chamava-se midráš, em hebraico).
Então devemos dizer que, em definitivo, este género de narrativa figurada diz a verdade e não mente, até porque «história verdadeira» não se identifica com historiografia, nem a verdade e a realidade se restringem ao físico factual: o espiritual também é real e verdadeiro, para a fé. A narrativa figurada – na qual se inclui o midráš – só mente para os ingénuos que pensam que a narração bíblica deveria relatar as coisas tal como sucederam. Em geral, ela é interpretativa e tem uma boa carga de subjectividade: não é neutral. Assim, mantendo os textos bíblicos em movimento dinâmico, desvelava o plano salvador de Deus para o leitor nessa etapa definitiva da história que era a do nascimento de Jesus.










