Armindo Vaz, OCD

Há cinco dias concluía-se o oitavário de oração pela união dos cristãos, que os irmanava na plataforma comum do humano religioso. A experiência de Deus em qualquer religião respira suprema na oração, alta atitude da alma. É o melhor sinal da vitalidade de uma religião. É a linguagem universal do religioso: transcende a diversidade das religiões do mundo e as diferentes expressões das igrejas cristãs.

Sussurro multiforme que eleva os orantes sinceros das diversas religiões para o mesmo Mistério, caracteriza-se por uni-los a todos n’Aquele a quem se dirigem: o único Deus. Arranca em todos de sentimentos comuns: o sentimento de carência que leva todos a pedirem graça, plenitude, e o sentimento de que o sentido da existência se encontra para além dela, na Transcendência, para a qual se orienta a oração. Este sentido de limitação radical traduz-se em sede de se superar no divino e em busca infinita que se exprime no ritmo plural de alegria cantada, louvor silencioso, agradecimento sussurrado, sofrimento lamentado, angústia bradada, esperança ardente, confiança serena.

Nos cristãos, todos dirigem a sua prece ao mesmo “Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 1,3), falando ao nosso Deus, ao “Deus dos nossos pais”, em vez de falarem de «meu Deus» e «teu Deus». Todos se revêem como filhos de Deus e irmãos de Jesus. Tal oração convoca a uma visão ecuménica alargada, autêntica, magnânima, animada por intensa espiritualidade. Para além de diversas teologias, de diversas leituras da narrativa fundadora comum, a oração irmana-os na invocação do mesmo Pai-nosso. Tristemente, foram diversas interpretações teológicas da palavra de Deus a dividir os seguidores de Jesus, quando elas só os deveriam unir na partilha da multiforme captação da inesgotável riqueza do seu inefável mistério, que não se deixa abarcar só numa visão humana, nem em muitas.

A união dos vários grupos cristãos reforça-se no facto de a sua oração ter a mesma origem no único Espírito Santo. “Oram em todas as ocasiões no Espírito, velando juntos com perseverança e intercedendo por todos os santos” (Ef 6,18). Se divergem na visão humana de Deus, podem convergir no “Espírito de filhos adoptivos, que nos faz clamar: Abbá, Pai. O mesmo Espírito une-se ao nosso espírito para dar testemunho de que somos filhos de Deus… O Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza, pois não sabemos pedir como convém” (Rm 8,15-16). É o Espírito de Jesus ressuscitado, o próprio Jesus em Espírito. Presente nos cristãos/ungidos desde o mesmo baptismo, podem orar com disposições de filhos. Se o mesmo “Jesus ressuscitado intercede por nós à direita de Deus” (Rm 8,34), o Pai de todos derrama sobre todos favor superabundante.

Portanto, o diálogo ecuménico começa pelo diálogo de todos os cristãos com o Pai comum, deixando que o Espírito d’Ele reze a partir deles. A oração em comum toca o nível mais alto do diálogo ecuménico, pois promove os ideais humanos mais elevados. Rezando uns pelos outros ao “Deus rico em misericórdia”, os cristãos enriquecem-se mutuamente, esbatem as diferenças que os separam e unem-se no essencial, também em relação a Deus.

Oração eficaz pela unidade dos cristãos é a do próprio Jesus, perfeito orante e mestre de oração, ao “Pai santo” (Jo 17). A mais longa oração do NT é pela união de todos “os que Tu me deste, porque são teus…, aqueles a quem dei a conhecer o teu nome…, para que todos sejam um como nós”. Baseia-se na autocomunicação de Deus como amor e por amor, que teve a sua coroação em Jesus, dado a todos os que haveriam de aderir ao seu projecto de amor.

Porquê a sua oração não tem sido eficaz quanto deveria? Entre outras razões, porque aqueles a favor de quem foi dirigida ao “Pai justo” não entram no espírito dela e não se dispõem a fazer o que Jesus pediu para eles. Manter rasgada a túnica inconsútil de Jesus é o grande drama e grande desafio para o cristianismo do séc. XXI. Mas a união dos cristãos dificilmente acontecerá fora do exercício da oração por essa causa. Ela enternece os corações, amolece as opiniões endurecidas, derruba os muros, lança pontes de união e bases para a transformação da sociedade. Torna-se fundamento consistente para a paz entre as nações, grupos e comunidades. E é o melhor sinal da verdade do cristianismo para o mundo: “que eles também sejam um em nós, para que o mundo acredite que Tu me enviaste…; eu neles e Tu em mim, para que sejam perfeitamente um e assim o mundo saiba que Tu me enviaste e os amaste a eles como me amaste a mim” (Jo 17). A união dos cristãos entre si aparece aqui como o grande argumento que leva o mundo a acreditar em Deus, para conhecer a corrente amorosa que dimana d’Ele para o Filho e deste para os discípulos e para o mundo.

O conhecimento de Deus por parte do mundo fará o percurso inverso: vendo o vínculo de amor que une os discípulos, chega a conhecer Deus e o seu Enviado ao mundo. Esta é a responsabilidade das comunidades de cristãos, que com a sua divisão contribuem para o agnosticismo, o ateísmo e a incredulidade. Por isso, Jesus rezou pela unidade dos cristãos e “daqueles que por meio da sua palavra acreditarão em mim”: “para que o amor com que Tu me amaste esteja neles”.