Armindo Vaz, OCD

A palavra humana exerce poder no campo social, político, económico, militar, através da retórica persuasiva, das movimentações dos mercados atrás dos bastidores, da geoestratégia com sede de conquista… Mao Tsé-tung dizia: poder é o que sai do cano de uma arma. E os poderosos das nações ameaçam os vizinhos com palavras de destruição para manterem a hegemonia. Mas, tais ideias de «poder» desumanizam a humanidade, fazendo-a descer ao baixo nível do poder material. Muito maior poder é o da palavra: está no saber usá-la com acribia e maestria para gerar o bem comum na sociedade. Ela tem mais poder que um canhão, porque edifica o inexistente, «derruba os poderosos de seus tronos», levanta do chão o oprimido, dá alegria à alma esgaçada da vida e constrói a felicidade: o mais que um canhão consegue é destruir.

Uma «palavra com poder» cristalizou especialmente na Sagrada Escritura, que a fé judeo-cristã vê impregnada do Espírito divino. Ela “penetra até à divisão da alma e do corpo…; discerne os sentimentos e as intenções do coração” (Heb 4,12). Por isso, os judeus dão à sua leitura importância salvífica. Falam de leitura (mikrá) e não só de Escritura: a sua leitura é ao mesmo tempo fonte de salvação e desejo de superação, porque – como para o cristão – na espiritualidade judaica o caminho está aberto. É preciso percorrê-lo, reinventando-o a cada passo, pelos desafios, novidades e surpresas que vão surgindo no percurso.

Mas a palavra mais humanizante que os humanos ouviram, a de Jesus, surge como palavra do próprio Pai, palavra nova e inovadora. Simone Weil, a judia com espírito cristão, disse que «só aquilo que é novo marca as consciências». Esse novo pode descobrir-se na palavra do evangelho, a boa nova, o cântico novo, a luz nova. “O evangelho é a força de Deus (dynamis theou) para salvação de todos os que crêem” (Rm 1,16). É o poder de Deus a salvar o crente, a arrancá-lo do sem-sentido; poder não mecânico nem coactivo, que pode ser rechaçado responsavelmente ou acolhido livremente: “a esperança que vos está reservada nos céus… pudestes escutá-la na palavra da verdade que é o evangelho chegado até vós” (Cl 1,5). “A pregação surge da palavra de Cristo» (Rm 10, 17). É palavra dotada de força libertadora inigualável: “a palavra de Deus não está acorrentada” (2Tim 2,9). “A palavra de Deus é viva e enérgica (energès) e mais penetrante que uma espada de dois gumes” (Heb 4,12). “A palavra de Deus exerce energia (energeitai) em vós os crentes” (1Tes 2,13). “O Pai dos luzeiros por própria iniciativa gerou-nos com a palavra que é verdade… Por tanto, aceitai docilmente a palavra plantada em vós, que é capaz de salvar-vos” (Tgo 1,18.21). O presente que Paulo legou aos fiéis ao despedir-se deles foi a palavra de Deus: “encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça, que pode edificar e dar a herança a todos os consagrados” (Act 20,32).

Os primeiros herdeiros da fé cristã, os Padres da Igreja, acolheram «a palavra da graça», tesouro precioso para a edificação e fundamentação do cristianismo. Eles foram assíduos leitores desta palavra. Tal era a intensidade com que viviam dela que “respiravam a Escritura”, pensavam e falavam por ela, à procura de alimento para a pastoral, pondo-a no centro da vida das comunidades.
A tradição com o registo do dinamismo da palavra bíblica continuou no magistério eclesial:
Esta é a força própria e singular da Sagrada Escritura, inspirada pelo Espírito Santo, que dá autoridade ao orador sagrado… Quem no seu discurso tem a força espiritual da palavra de Deus não fala só com palavras, mas também com força, com o Espírito Santo (Leão XIII, Providentissimus Deus).

A Página Sagrada, redigida por inspiração do Espírito de Deus…, dotada de poder divino, tem força em si; adornada de beleza sublime, por si resplandece e brilha. Basta que o intérprete a explique íntegra e exactamente, para virem a lume os tesouros de sabedoria que encerra (Pio XII, Divino afflante Spiritu).

Esta tradição tem fundamento consistente e chega até hoje:
A Palavra de Deus tem importância nuclear na vida da Igreja, no percurso de fé dos crentes e na construção da sua própria personalidade. Ela faz nascer a Igreja e desperta a fé em cada momento da vida. É urgente recolocar a Palavra de Deus no centro das comunidades cristãs…: seja conhecida, escutada, meditada, rezada, celebrada, cantada, vivida, testemunhada e bem proclamada (EG 174-175). Neste sentido, promova-se a leitura orante da Escritura (Constituição Sinodal de Lisboa, triénio 2017-2020, nº 38: propõe «fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé»).

A fé, pelo que tem de radical e por ser uma graça, nota a presença do Espírito, que por sua vez gera um contexto espiritual onde ressoa vivificante a palavra por Ele inspirada. Nesse contexto do Espírito e da fé, a leitura da palavra da Escritura pode ver-se como salvífica: a abertura do humano ao divino contribui para a comunhão de vida realizada pela acção do Espírito divino no espírito humano.

Pensaremos mais em que sentido a palavra da Escritura é salvadora.

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Artigo publicado no Boletim de Espiritualidade n.º 39.