Armindo Vaz, OCD
Junho é mês de ordenações sacerdotais. Tempo oportuno para pensar o sacerdócio católico. Como todos os dons do Espírito, é um carisma pessoal para bem da comunidade eclesial (1Cor 12):
1º. Enquanto dom de Jesus Cristo para o sacerdote, confere-lhe a bênção personalizada para o anúncio da palavra de Deus e da salvação revelada e oferecida em Jesus. O sacerdote faz da proclamação litúrgica e da interpretação orante da palavra bíblica uma intensa actividade do seu ministério. Está “ao serviço da Palavra” (Lc 1,2) e povoa a sua solidão com a paisagem contemplada na Palavra: realiza-se nela. Gozo indizível causa-lhe emprestar as mãos a Jesus Cristo para consagrar o pão e o vinho da Terra, fazendo-os descer do Céu para os seguidores do Bom Pastor. Pela imposição das mãos do sucessor dos apóstolos, o sacerdote perpetua o imperativo de Jesus «fazei isto em memória de mim». A missão de dizer com o eu de Jesus «Isto é o meu corpo… Isto é o meu sangue» dá ao seu ministério o toque de mistério divino. O gesto arrepiante de contribuir para a Transcendência divina irromper na imanência humana causa-lhe tanto assombro como emoção. Enquanto ministro dos sacramentos da Igreja, canais de comunicação do Espírito, proporciona, sobretudo na Eucaristia, um encontro de comunhão com o divino. Igualmente fascinante é o poder delegado de perdoar o pecado: “Tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18,18).
2º. O sacerdote é dom para o povo de Deus, um enviado, ser de mediações: em comunhão com Jesus Cristo, supremo mediador entre Deus e os humanos, indica a verdade das pessoas a si próprias, ligando-as pela Palavra entre si e com o divino. Abrindo-as ao Mistério, abre-as a Deus, Presença comunicada. Dá testemunho do Deus fisicamente invisível, tornando-o Presente ao contemplativo e orante. Ajuda-o a desejar o Infinito, sugerindo-lhe que só no Infinito o finito encontra a sua verdade. Enquanto mediador, dá a verdadeira dimensão às limitações e à sede de transcendência que o ser humano tem. Desperta-o para abrir janelas onde não há paredes: para se compreender em Deus. Aprende e ensina a olhar o mundo a partir do Alto, sugerindo que, mesmo as coisas custosas, estão grávidas de sentido. Com a iluminação da palavra da Escritura, ajuda a compreender os acontecimentos e a iluminar as situações humanas. Não é um funcionário filantrópico. Nem a sua missão é a de oferecer um receituário de comportamento moral. Favorece o encontro das pessoas com a alegria brindada pelo evangelho. Apela para a vocação do ser humano à comunhão com Deus, mostrando-lhe que é «capaz de Deus», na expressão de S. Agostinho. Construtor de altos ideais com a palavra de Deus, encoraja a viver bem a trama da vida, que às vezes é ‘tramada’. Seu drama é ter de ser mensagem em pessoa, mais eficaz do que ser papel onde a mensagem está escrita. Não se mede pela altura física. Como diria Fernando Pessoa, “é do tamanho do que vê”, com os óculos da fé. Sua missão é apontar o mistério que nos envolve, numa espiral que sobe e só pára quando toca o Transcendente. Crepitante missão, a do sacerdote! Falando à gente, sempre toca em flores.
Mas os sacerdotes “trazemos este tesouro em vasos de barro, para ficar claro que a excelência do poder é de Deus e não de nós mesmos” (2Cor 4,7). A divulgação dos escândalos de alguns sacerdotes abalou a credibilidade depositada neles e na Igreja. Realmente, o abuso de menores, transversal a toda a sociedade, é crime horrendo e pecado incomensurável no clero, por ferir e traumatizar o melhor do ser humano: a flor da idade, a sua inocência, beleza e pureza. Mesmo que os padres não sejam os bons, poderíamos dizer com Nietzsche, o crítico do cristianismo e dos padres: “Por maior que seja o mal que os maus e os detractores da vida possam fazer, o mal feito pelos bons é o pior dos males” (Assim falava Zaratustra [Presença; Oeiras 2010] p. 253). É verdade: “a corrupção do óptimo é péssima”. Contudo, não deveria levar pessoas a aproveitarem a situação para se apearem da Igreja ou para a criticarem, em jeito de justificação por não ou para não lhe pertencerem. Só desanima quem tem a fé cristã assente na areia e não na rocha firme. Os escândalos de poucos não assombram com a suspeita/acusação os 416.000 sacerdotes do mundo inteiro que exercem o ministério com honestidade, coerência e amor heróico. Um padre da Igreja não é a Igreja; nem as pessoas sentem com a Igreja por causa do padre. Ela está a montante do padre pecador. É de Jesus, animada pelo seu Espírito de Ressuscitado. Se superou exames e provas difíceis no passado longo sem soçobrar, é obra de Deus. E é indispensável na sociedade, para a pôr a olhar para o céu e para fugir à idolatria. De resto, realisticamente, onde há ser humano há possibilidade de pecado. Se Jesus foi traído pelos apóstolos Judas e Pedro…
O que importa é pensar: não vivemos no Vale dos Caídos mas no Monte dos Ressuscitados. Ideal é vivermos como salvos, respondendo à salvação. Tem razão Nietzsche: “Para me levarem a acreditar no seu Salvador, necessário seria que me cantassem melhores cânticos; necessário seria que os discípulos dele [do Salvador] tivessem um pouco mais o aspecto de terem sido salvos… Só a beleza deveria pregar penitência. Pois, quem se deixará convencer por esta tristeza embuçada?” (Assim falava Zaratustra, p. 107). Penso então com Paulo: “O bem supremo é conhecer Jesus Cristo, meu Senhor” (Fl 3,8), “o Filho de Deus [que] me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).










