Armindo Vaz, OCD
Ainda há «homens de palavra» e os que honram a «palavra dada»; e mais houvera, melhor seria a sociedade. De qualquer modo, o ser humano é um «ser de palavras», não só da palavra oral e escrita mas também de todas as formas de expressão. A imensa rede de palavras inclui tudo o que o ser humano utiliza para se apresentar e representar diante dos outros. Para nos relacionarmos e compreendermos, para compreendermos as coisas, precisamos de as verbalizar, por meio de alusões e ilusões, metáforas e comparações, dúvidas e interrogações, admiração e afirmação… feitas de palavras. A palavra é habitação do ser humano e projecta-o para fora de si próprio, para o tornar maior. Para o bem e para o mal, é ela que faz o ser humano concreto: gera amor e reaviva-o, suscita rancor e mata-o, dá corpo à esperança e torna presente o futuro distante. A palavra humana é o elemento que mais conflitos e confrontos desencadeou, mas também é a artífice das grandes façanhas humanas: ao lado da beleza da palavra poética, escondem-se os horrores e a retórica do ódio, bem como o discurso da demagogia que a palavra ética pode evitar. Como bem demonstra a história da humanidade (tanto das guerras aviltantes como dos feitos gloriosos), a palavra revela o grau de humanidade que possuímos. Foi sempre assim e continuará a ser, porque, na sua polifónica expressão, ela dá voz ao que somos e pretendemos ser, à generosidade enobrecedora e às ambições degradantes, à violência em nome de Deus.
Fica claro que vida e palavra andam unidas. A perversão do ser humano segue a par da corrupção da sua palavra: a sua linguagem é reflexo da sua qualidade moral, como a brejeirice nas palavras põe a nu o seu estado de decadência real. As consequências da ligação da palavra à vida têm abrangências inimagináveis. Quando palavras de determinadas áreas do humano, como espírito, alma das coisas, Deus da pessoa, transcendência, fidelidade, bondade, misericórdia e compaixão, oração, salvação…, vão caindo em desuso numa sociedade – sob a convicção de que não interessam ou pertencem ao âmbito do subjectivo e sentimental mas não do objectivo e científico – então morre nela um mundo real. Caindo em extinção, extinguem-se os conteúdos que elevam a vida para o Alto. Incontáveis palavras das línguas ocidentais – de cunho judeo-cristão – estão recheadas de remissões para o divino: por exemplo, adeus, adiós, adio, adieu, good-bye (contracção de God be with you)… Descristianizada a sociedade, elas foram perdendo a força evocadora do sublime, perdem a capacidade de transfigurar as realidades quotidianas, perdem as melodiosas ressonâncias e conotações que tinham até há pouco… A aprazível polifonia dessas e outras palavras vai-se convertendo em som da voz sem sentido, em palavreado dispensável: «senhor padre, porquê menciona Deus tantas vezes? deixe-o lá estar que Ele não é cá preciso» – queixava-se uma jovem. Dando morte a certas palavras, passa a faltar a epifania das grandes verdades da vida: várias dimensões do ser humano deixam de ter voz. Então procuram-se sucedâneos em fármacos, em estupefacientes, nas ilusões, nas sinuosidades dos calmantes, dos analgésicos, dos antidepressivos, dos devaneios, do espiritismo, da cartomante.
Nessa direcção (e não só) gritou o génio filosófico de F. Nietzsche através do louco a quem deu voz: “Deus morreu! Deus permanece morto! Fomos nós que o matámos!… Aquilo que o mundo possuía de mais sagrado e poderoso até hoje ficou sem sangue sob as lâminas das nossas facas” (A gaia ciência, aforisma 125). Nós poderíamos parafrasear: …«ficou sem sangue» pelo uso sem vida ou pelo não-uso de palavras nossas sobre o divino. E, como não podemos viver sem um deus, elevamos então um digno altar a deuses por nós criados: ao deus do dinheiro, ao deus do ter, ao deus do poder, ao deus do progresso, ao deus da técnica… Curiosamente, outro filósofo, como que respondendo a Nietzsche, dizia que Deus não morreu: tornou-se dinheiro!
Nietzsche não proclamava, em 1882, a (impossível) morte do Deus transcendente: declamava a morte de uma imagem de Deus contrafeita, que o foi desfigurando; declarava a morte de palavras que deveriam apontar para Deus e já não cumpriam apropriadamente a sua função, consequência directa do esvaziamento do seu valor supremo. O grito «Deus morreu!» é uma espécie de oração a implorar que dêmos vida à Palavra viva que herdámos na Escritura poderosa e que nos fala da incarnação do verdadeiro Deus na pessoa de Jesus: que não entendamos essa Palavra à letra (com o qual matamos Deus) mas sim «ao sentido»: “as palavras que eu proferi para vós são espírito e são vida” (disse Jesus: Jo 6,63), isto é, falam-vos de realidades que são a alma da vida e que só o Espírito faz compreender. Como com a corrupção da palavra começa a destruição do humano, a estima da Palavra transmitida na Escritura redunda na saúde do humano. Onde brota a palavra sincera a Deus, aí revela-se Ele através da sua palavra: “A tua palavra é lanterna para os meus passos /e luz para os meus caminhos” (Sl 119,105).










