Armindo Vaz, OCD
A imagem da Virgem Maria é multifacetada. Assume a forma das circunstâncias em que nós precisamos da sua ajuda: Senhora da Boa Viagem, Senhora da Saúde, Senhora dos Aflitos, Senhora do Perpétuo Socorro, Senhora das Graças, Senhora dos Remédios… A 16 de Julho invocamo-la como Nossa Senhora do Carmo. E, ao parar a nossa meditação na mais bela flor que orna o ramalhete dos privilégios da Virgem, Irmã, Senhora, Rainha do Monte Carmelo, deparamos com a que tem o nome de Mãe. O de Mãe é o atributo que sustenta todos os outros, como na nossa mãe da terra, que também é esposa, irmã, senhora. A mãe está no primeiro acto da narrativa de amor que é a nossa vida. Enquanto vive, podemos contar com ela para todos os problemas: se não, não seria verdadeira mãe. O seu amor é para sempre. E perdoa sempre ao filho, não fora ele o fruto das suas entranhas. O coração de mãe é o fundo mistério em que está sempre a compreensão para com o filho. Uma mãe nunca fica decepcionada com o filho. A sua grande debilidade é não ver os defeitos do filho. Para ela, a pessoa mais importante da vida é o filho. O amor de mãe para com ele não tem porquê: ama e basta; é como a rosa que emite o seu perfume: só quer que seja aspirado, de graça. A função de mãe é a mais bem paga: o estipêndio é o puro amor.
Na poesia oriental, a mãe que morreu volta todas as noites a embalar os filhos, mesmo os adultos. E todos os elementos da natureza – o vento, os ramos das árvores, as ondas, as sombras – transformam-se em braços maternos para acolher, acariciar e defender os seus queridos órfãos. Assim, a poesia sugere: a nossa mãe nunca morre; nem podemos tirar da cabeça aquilo que nasce no coração. A mãe traz o filho pela mão só num breve período de tempo; mas o seu coração acompanha-o toda a vida. E, dando-lhe a vida pelo parto, é como um Deus para o filho, ao menos por um dia.
Ora, ao lado da nossa mãe biológica, a Virgem Maria é a mãe universal, o eterno feminino da nossa vida. Nos evangelhos, ela prima pelo silêncio e pela acção em silêncio. A sua figura, como tudo o que é grande e definitivo, amadureceu no seio do silêncio. Foi também por isso que os chamados Evangelhos Apócrifos, com recta intenção e boa fé, procuraram preencher lacunas da sua biografia. O silêncio em torno de Maria nos evangelhos canónicos pode significar que na sua vida o importante foi Deus, o filho Jesus e os humanos. Ela é como esses vidros grandes, limpos, transparentes, que deixam contemplar as maravilhas de uma paisagem a partir de nossa casa, sem notarmos o vidro. O importante, neste caso, é o que se vê: quanto mais transparente for o vidro, melhor se vê. Maria foi isso: a mulher aberta e límpida, a transparência que nos revelou o essencial do mistério de Deus e a sua salvação no filho Jesus, ficando ela no silêncio, também para poder escutar a sua Palavra.
Mas é precisamente esse silêncio o seu grande discurso para nós hoje. E quando dizemos silêncio, no caso de Maria significamos disponibilidade e receptividade, profundidade, vida em cheio; evocamos conceitos como força de espírito, maturidade, magnanimidade, fidelidade a si própria e ao projecto de Deus para ela. Foi por isso que os primeiros Carmelitas, os eremitas que, terminadas as Cruzadas, se retiraram para o remanso do profético monte Carmelo, ao quererem viver uma vida de oração e louvor na presença de Deus, tiveram o gosto de orientá-la pela vida de Maria, imitando-a no que eles consideraram a maior lição dela: o seu silêncio eloquente, essa atitude nitidamente expressa no evangelho: “Maria guardava todas estas palavras, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19). Até quiseram ter a honra de se chamar «Irmãos Descalços da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo». É esse o título com que são reconhecidos na Regra, dada por S. Alberto, patriarca de Jerusalém, em 1209, ao fundar assim oficial e canonicamente a Ordem dos Carmelitas.
Os Carmelitas procuraram imitar o espírito do habitante do Carmelo, profeta Elias, que tinha vivido na fidelidade à aliança de Deus com o seu povo. Fizeram-no no seguimento dos chamados “filhos dos profetas”. Mas simultaneamente descobriram os valores da vida de Maria e oferecem-na às pessoas, como modelo de vida interior e de oração. Perceberam que a vida contemplativa, que vê o oculto aos olhos da carne, é o atalho que nos leva ao bom relacionamento mútuo, a sermos compreensivos, a estimarmo-nos, a termos a sabedoria de nos colocarmos na perspectiva do outro e de o amar.
Hoje faz-nos falta espiritualidade: a que se alimenta na leitura assídua da palavra de Deus. Assim somos reconduzidos ao exemplo de Maria, que, lendo frequentemente as sagradas Escrituras, soube responder à Palavra de Deus: “faça-se em mim segundo a tua Palavra”. Se esta forma de vida, no seguimento da Virgem do Carmelo, parece elevada para “nós, pecadores”, é bom que nos deixemos apanhar pelo sublime, para pensarmos na dignidade a que somos chamados e para darmos elevação ao que fazemos.










