Armindo Vaz, OCD
Na vida pessoal e comunitária, constantemente temos de tomar decisões e de fazer opções. Elas é que realizam a vida, que não está predeterminada desde toda a eternidade mas se vai fazendo em cada minuto que vivemos, em cada passo que damos, em cada preciosa palavra que pronunciamos. Não há fado-fatum-destino, no sentido de que eu não me poderia desviar do caminho pré-estabelecido por forças divinas que friamente o teriam traçado. Para o cristão, o que há é a vontade humana de secundar a graça do Espírito de Deus, dando com determinada determinação uma orientação evangélica à própria vida, fazendo as melhores escolhas nas palavras e nas acções e traduzindo as palavras em acções.
De facto, entre muitos tipos de pessoas na sociedade, um vê as coisas a acontecerem; o outro faz acontecer as coisas. É na direcção do segundo que nos conduz o evangelho de Jesus, por exemplo, na parábola dos dois filhos convidados pelo pai a irem trabalhar para a vinha. O primeiro disse que não ia, “mas depois arrependeu-se e foi”. O segundo disse que ia, mas não foi (Mt 21,28-32). Há aqui uma dissonância perturbadora entre palavra e acção, entre pensar e fazer, entre inteligência e coração. Jesus distinguia assim o judaísmo que não o seguia (simbolizado no filho que não foi trabalhar) dos pecadores que o seguiam entusiasticamente, aderindo, convertidos, ao reino de Deus (simbolizados no filho que foi trabalhar).
Característico das parábolas é serem provocantes modelos de acção, induzindo o ouvinte a optar pela imitação de uma das personagens. Atingem a nossa vida no essencial. São uma forma de narrar que desarma os nossos mecanismos de defesa. Interpretam-nos, como um espelho onde nos revemos com as nossas rugas e os nossos pontos sombrios, iluminando também a verdade da nossa vida. Nesta parábola, o que conta é a atitude final de cada filho: não o que disse mas o que fez. A fé bíblica traduz-se em compromisso. Só o amor escutou eficazmente o pai, só o amor encontrou razões para se dar, onde a razão não as encontrava. Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no reino em que Deus quer todos felizes, mas quem faz a vontade do Pai de todos dedicando-se a fazer frutificar a bondade do coração.
Jesus não teve intenção de granjear admiradores. Chamou seguidores. Os admiradores não estão à margem do evangelho. Todavia, seguem Jesus de longe, sem se comprometerem. Não percebem bem que a vida e a mensagem de Jesus são exigência e tarefa, ao mesmo tempo que dom e graça. No evangelho, exemplo típico do admirador de Jesus é o judeu Nicodemos: parece fascinado por ele, mas talvez ainda não está disposto a arriscar tudo por ele e a tornar-se discípulo seguidor. Os imponentes chefes do judaísmo do tempo de Jesus eram bons de palavra e desenhavam muitas leis e teorias, que, porém, escondiam muitos não à prática do bem a favor do próximo. Enquanto o admirador pode manter-se neutral ou desprendido, o seguidor procura ser como aquele a quem segue e admira. «Ser, não pertencer» não é o lema ideal de ligação ao evangelho e ao reino de Deus. Nem basta colar um distintivo à lapela, envergar um uniforme, ir de vez em quando a uma igreja e recitar fórmulas devotas, para nos vangloriarmos de ser filhos de Deus: não basta a pertença exterior. É preciso assumir a responsabilidade pela fé que professamos: trabalhar na vinha da sociedade para ela produzir o bom vinho da alegria e do amor. Essa é a proposta que Jesus selou, vivendo-a até à última gota de sangue. Afinal, um casamento não se reduz à breve festa de núpcias: realiza-se no quotidiano longo e monótono, num amor interior ao amado, que se manifesta em actos também nas asperezas da vida.
Ambos os filhos da parábola receberam o mesmo convite ao trabalho. Ambos, igualmente amados pelo pai, tiveram a mesma oportunidade de responder com toda a liberdade. A parábola deixa intuir que os considerados impuros e os ‘mal vistos’, os que tinham atrás de si uma história pouco abonatória, é que responderam concreta e positivamente ao convite. Traziam a alma ferida de erros mas faminta de verdade. E acreditaram: aderiram à graça, corresponderam com amor ao Amor!
Os dois filhos da parábola têm correspondentes nos dias de hoje. Tanto um como o outro sobrevive em muito daquilo que somos, dizemos e fazemos (ou não fazemos). Desenhamo-los em alguns sim epidérmicos que não produzem efeito e em alguns não impulsivos que depois convertemos em apostas entusiásticas a favor dos que precisam de nós. O “vou, senhor, mas não foi” soa a drama. O que importa é a atitude de conversão para melhor. Importa intensificar a consciência de que o Pai nos ama e de que somos amados, independentemente do nosso valor e mérito e do nosso pecado. Se interiorizássemos o seu amor por nós sem medida, não ousaríamos desiludi-Lo!
«As palavras que não são seguidas dos respectivos factos são palavras vãs» – dizia Demóstenes. De facto, até é fácil lutar por princípios éticos e humanizantes. Não é tão fácil cumpri-los na vida real. Mas a realização dos princípios e da palavra do homem é que é a prova real do «homem de palavra».










