Armindo Vaz, OCD

As tradições populares influenciadas pelo cristianismo deram importância aos «reis magos». Vários países celebram-nos com feriado pomposo na festa da Epifania. E se na literatura bíblica canónica só o evangelho de Mateus (2,1-12) faz deles personagens de uma história à procura de Jesus, a literatura apócrifa cristã gastou muitas palavras à volta deles. Transformou-os em reis por influência da palavra bíblica ou para justificar o reinado dos monarcas cristãos. Na tradição ocidental prevaleceu o número de três reis magos, fazendo-os corresponder aos presentes referidos por Mateus: ouro, incenso e mirra. Mas a tradição oriental imaginou até doze. Uma tradição devocional conta que terão morrido na Pérsia.

Estas manifestações culturais e religiosas intuíram a profunda significação do relato evangélico. Os magos – não mágicos que fazem truques de magia mas homens de ciência capazes de explicar os fenómenos naturais e dos astros – aparecem como estrangeiros, “vindos do Oriente”: personagens imaginadas, representam todos os povos pagãos, que os judeus distinguiam de si próprios. O relato faz compreender aos leitores, cristãos convertidos do judaísmo, que, enquanto os judeus do tempo não deram pelo nascimento do seu novo rei, o Messias esperado – porque não interpretavam as Escrituras em relação a Jesus –, os pagãos reconheceram Jesus como seu Deus: o Ungido Jesus, “rei dos judeus”, veio para salvar todos e não só os judeus.

Os magos representavam o movimento dos povos para Jesus. Eram homens a caminho, em busca da Palavra da Verdade. A vinda deles até Belém, terra do rei ungido David, era procura, não de algo perdido, nem para satisfazer uma curiosidade inata. Era pôr-se a caminho em demanda de um neonato que deve ser encontrado: o motor de busca não estava no início do caminho mas ao fim dele, no encontro. Procurando orientação para a sua existência, no aparente silêncio de Deus seguiram o caminho traçado no céu por uma estrela. A sua única palavra é de procura: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos surgir a sua estrela e viemos adorá-lo”. Neste caso, a palavra de Deus para eles era um símbolo no céu que apontava para a transcendência do Messias esperado e os conduziu a ele, Jesus.

A procura é atitude filosófica que pergunta pelo sentido último da existência e atitude espiritual que o encontra em Deus. O perguntar dos magos por Jesus foi recompensado com a aparição de Deus em Jesus: por isso “O adoraram”. Tendo procurado o melhor da história humana, encontraram o melhor de si próprios. E, quando O encontraram, já Ele estava à espera deles. Compreenderam que Ele era a resposta total ao imenso desejo deles, porque tinham encontrado Aquele que não se desvalorizava com o tempo. Se o melhor da procura é o encontro, os magos tiveram o melhor da vida: a busca do coração inquieto pôde descansar nos olhos do neonato.

Através da palavra sobre os magos, Mateus sugere ao leitor que a acção de Deus rompe os esquemas estreitos das expectativas judaicas. As formas de procurar Deus são plurais e ultrapassam as fronteiras do judaísmo. O «Deus dos nossos pais» não é propriedade nem monopólio dos judeus, nem dos «autoconvencidos da religião»: é também o «Deus dos outros», incluindo os que estão a caminho e os que não o conhecem – Ele conhece-os! Ele é o «Deus dos buscadores», como já era, desde sempre, o Deus das pessoas, «o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob».

Para os «buscadores de Deus», o caminho de interrogação na meditação do seu mistério é geralmente longo, como para os magos: é preciso ter paciência para o saber descobrir onde menos se espera, porque ele é Espírito, escondido, envolto no mistério, transcendente (não por estar distante mas por estar porventura demasiado próximo, no fundo do ser humano e na sua vida: Act 17,27-28). Mesmo o encontro dos magos com Jesus menino não era o fim da sua longa caminhada nem resolução de um enigma, mas entrada no coração do Mistério inesgotável. Na adesão pessoal a Jesus – “adoraram-no” – começava o seu (novo) caminho infindável de buscadores e seguidores, questionando certezas religiosas abraçadas até então.

Uma vez encontrado, não O possuíram: sentiram-se encontrados. Foi porventura essa a causa de “se alegrarem muito com grande alegria”. Alegres com o Encontrado, esvaziaram os cofres dos presentes mas levaram-nos cheios de felicidade. A sua alegria era o seu maior prémio.

Os magos “regressaram ao seu país por outro caminho”, porventura para aprenderem novos caminhos de encontro com Jesus, numa procura que não mais acaba, por ter como objectivo o Mistério absoluto. Para eles, o melhor estava por vir. Se “quem procura encontra”, então a procura de Jesus é princípio de salvação ao terminar no encontro com o Salvador. Tendo os magos encontrado o recém-nascido, talvez se sentiram eles renascidos. A sua vinda até Belém tinha decorrido sob o signo da procura à luz da estrela. O retorno ao seu país perspectivava-se como a viagem de uma vida, com o programa do evangelho.