Armindo Vaz, OCD

A recordação dos factos fundadores da cultura e da religião do Israel bíblico e do cristianismo primitivo não se diluiu nas areias do deserto do Sinai; desaguou na Palavra escrita, que transportava a fé e a fazia progredir, na carreira contributiva e meritória de todos os intervenientes: o melhor da religiosidade dos sumérios, acádicos, babilónios, assírios, hititas, hurritas e cananeus, sobreviveu filtrado pela fé da palavra bíblica, que se foi purificando até à era cristã. O que estes povos semearam, pelo menos desde o fim do 4º milénio a.C., floresceu três mil anos mais tarde na Palestina e frutificou sucessivamente, por meio de rigorosos crivos de selecção, na Galileia e na Judeia.

Por ironia do destino – ou talvez não – a influenciada religião bíblica viria ela própria, sob a forma de judaísmo e de cristianismo, a influenciar culturas e a gerar religiões ou movimentos religiosos. Essa influência estendeu-se, através dos Padres gregos e latinos, particularmente para Ocidente. Como astronomicamente, no aparente andamento do sol, a luz avança do Oriente para o Ocidente, também historicamente uma movimentação da cultura e da religiosidade foi de Oriente para Ocidente, fixando o aforisma Ex oriente lux. Ele sintetiza a ideia de que a luz, literal e metaforicamente, tem origem no Oriente, com implicações profundas a nível cultural, filosófico e religioso. A afirmação de que o Nascente é fonte de sabedoria e espiritualidade encontra uma concretização na primeira grande tradução de toda uma obra literária de uma língua oriental para a língua grega, que foi precisamente a Bíblia em fim de composição, a chamada tradução grega dos Setenta, feita nos séculos III-I a.C. Essa versão supunha a abertura da revelação bíblica, oriental, a uma cultura ocidental, fenómeno cultural sem precedentes na antiguidade, determinante para a história da civilização ocidental. Feita por judeus da diáspora de Alexandria, constituía uma notável migração da sabedoria do Oriente para o Ocidente. Era o encontro da Bíblia hebraica com a civilização grega e a influência de uma sobre a outra. Alexandria tinha contribuído para fundir duas prestigiadas civilizações: a egípcia e a grega. Agora unia Jerusalém com Atenas, o hebraico com o grego, num triângulo aberto ao Ocidente. Por meio da tradução grega da Bíblia, o judaísmo pôde oferecer as suas Escrituras canónicas, com a sua cultura, ao mundo ocidental. O Novo Testamento escrito em grego reforçou essa influência.

Se o objectivo essencial da palavra bíblica não era dar cultura, certamente contribuiu para fazer cultura, literatura e arte no Ocidente ao longo dos séculos, porque tinha ela própria qualidades literárias. Não obstante, se mexeu com o mundo e com a sua história, não foi só por ser um monumento literário e cultural. «Exerceu uma contínua, fecunda influência na literatura inglesa, dos escritores anglo-saxões aos poetas mais jovens; no entanto, nenhum deles diria que a palavra da Bíblia “é” literatura» – afirma N. Frye (The Great Code, p. 9 da versão italiana, Torino 1986). A razão principal da sua atracção e para a sua sempiterna actualidade está no facto de ela mexer na vida concreta das pessoas. Tem a ver com elas. É escola de humanidade. Essa velha história narrada com as palavras bíblicas não deixa ninguém indiferente: como se cada um quisesse dar dela a sua interpretação e até apropriar-se dela. Se a palavra de Jesus ainda hoje continua a exercer influência nas decisões humanas, é porque ela fala do ser humano e da sua felicidade, dos seus problemas, das suas contradições e ambiguidades e das suas relações enredadas, apresentando um projecto de vida que satisfaz os seus mais profundos anseios. Bem faz o filósofo ao tentar compreender intelectualmente o mundo. Mas o decisivo é mudá-lo existencialmente e dar-lhe sentido. Ora, a palavra bíblica, além de ajudar a compreender o mundo e a sua organização, visa precisamente transformá-lo e torná-lo mais humano e um pouco divino.

A leitura da palavra bíblica, que a fé via e vê como Palavra de Deus, tem o potencial de valorizar a memória colectiva, de elevar a pessoa na sua dignidade, de promover a rectidão e a solidariedade. Os apelos veementes e as acutilantes invectivas dos profetas, denunciando o mal moral e anunciando o bem, cortam no vivo da sociedade de todos os tempos. Precisamente a grande ruptura que a palavra bíblica provocou no processo histórico da sociedade ocidental aconteceu ao interpelar cada pessoa na sua consciência. Mesmo quando, no séc. XVI, a Reforma protestante divergiu da Tradição da Igreja ficando só com a Bíblia, esta adquiriu uma nova centralidade, que muito concorreu para alicerçar uma nova ética, até ali claramente individualista.

A leitura do texto bíblico teve impacto na cultura e na vida porque ele se dirigia imediatamente ao ser humano de hoje como palavra viva e como pronunciada para si. Em tal leitura, feita em boa fé, não era só o leitor a interrogar a Bíblia mas também a Bíblia a interrogá-lo a ele. É nessa função pro-vocante, apelativa, que está o grande valor da palavra na Bíblia. Lida assiduamente, oferece respostas para os problemas de sempre, questiona e sugere, adverte e salva, mantendo o leitor na escuta e na interrogação (2Tim 3,15-17). A Palavra inspirada não se apresenta como um catálogo de proibições ou como um código moral de leis a cumprir. Nem é um texto iniciático para fundamentar e apoiar as convicções do leitor. E é mais do que o nosso livro de bordo. É uma instância crítica para o ser humano se rever ao mais alto nível e se transcender: faz pensar, desafia, alerta e inspira a acção. É um viático para a via, para o caminho do homem em direcção a Deus.

A palavra bíblica tem vocação de actualidade e sobrevivência, porque se misturou com a vida e com a cultura das pessoas na história nobre das ideias. Aquele Jesus que sobreviveu ressuscitado entre os que acreditam nele como Salvador terá pressentido o destino de sobrevivência da palavra bíblica: “passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13,31). Continuam a influenciar a vida, a educação, o ensino, as mentalidades, a fé e a oração, gerando assim a cultura da amizade, do diálogo e da compreensão mútua, e afastando a intolerância e o ódio.