Armindo Vaz, OCD
Falámos aqui do poder salvador da Sagrada Escritura. Mas esse poder não é paralelo à leitura, como se, paralelamente à leitura com boa intenção e em ambiente de fé, Deus se servisse dela para agir com a sua graça. Nem basta pensar que a força espiritual da Bíblia é mediatizada pela doutrina, que instruiria e influiria o meu comportamento humano e cristão (como uma doutrina moral). Isso é insuficiente.
Na realidade, enquanto inspirada, a da Bíblia é palavra de Deus, manancial de graça que dá vida definitiva: “esta é a vida definitiva: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, que Tu enviaste” (Jo 17,3). A sua acção salvífica acontece na escuta dialogada. Assim como uma pessoa se enriquece pela abertura à outra, assim na leitura da Bíblia Deus se dirige hoje ao leitor, tanto quanto se abrir a Ele. Quando o leitor gera um espaço de fé, qual caixa-de-ressonância em que ecoa a Palavra, esta toca-o com a graça e salva: comunica ao espírito humano o Espírito que a inspirou e que está lá, na Escritura inspirada, mesmo numa tradução para as nossas línguas. Idealmente, a Bíblia é lida como testemunho de fé, promovido na história da revelação pelo Espírito que a inspirou: na leitura esse testemunho é actualizado pelo mesmo Espírito.
Pode-se, pois, dizer que a leitura da palavra bíblica com fé é sacramental. Na medida em que os sacramentos significam e são um encontro com Deus em Cristo, a leitura da Bíblia tem analogias com os sacramentos, pois oferece ao leitor um encontro com Deus, mexendo com toda a pessoa: inteligência, sentimentos, emoções, imaginação, espírito. Não é mais um sacramento, em que, além da palavra, há uma realidade (pão na eucaristia, água no baptismo…) que realiza o que simboliza. Mas goza de carácter sacramental, porque às próprias palavras da Escritura, lidas com fé, é inerente uma luz que supera a força das palavras meramente humanas e lhes dá força singular. A Escritura é sacramento da comunicação de Deus. Como a Incarnação, também a Escritura visa a comunhão dele com os homens (Dei Verbum, 2). Realmente,
na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus está precisamente o mistério da incarnação: «a Palavra fez-se carne» (Jo 1,14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na «carne» do Filho. A Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através do «sinal» que são as palavras e os gestos humanos. A fé reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e as palavras com que Ele mesmo se nos apresenta. Portanto, o horizonte sacramental da revelação indica o modo histórico-salvífico com que o Verbo de Deus entra no tempo e no espaço, tornando-se interlocutor do ser humano, chamado a acolher na fé o seu dom. Assim, é possível compreender a sacramentalidade da Palavra através da analogia com a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho consagrados (BENTO XVI, Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, 56).
Que a Bíblia não tenha soluções imediatas para os problemas candentes do III milénio – como as manipulações genéticas, a inseminação artificial, a ameaça nuclear, os detritos industriais, os conflitos laborais… – não significa que o seu testemunho seja desfasado. Ela fala para o homem de hoje, não abrindo-a ao calha, à procura daquilo que se quer encontrar ou para encontrar magicamente a solução a todos os desafios da actualidade: ela não é um livro de receitas imediatas em jeito de manual de sobrevivência, nem contém a palavra de Deus como um cofre encerra tesouros ou um ficheiro classifica temas. Essa forma de leitura, praticada até há pouco por grupos cristãos – que pretendiam fazer coincidir situações antigas com as actuais e desejavam confirmar no texto sagrado as convicções que já tinham na cabeça –, converte a Bíblia num ídolo (objecto representativo que tem a pretensão de substituir Deus), como se Deus estivesse nela à disposição dos humanos para dar respostas automáticas a cada problema. Não se encerra Deus nas páginas de um livro.
A Bíblia tem respostas para os problemas humanos, sim, quando, pela leitura assídua continuada, o Espírito que a inspirou gera uma espécie de segunda natureza no espírito humano. Então o leitor torna-se “o homem de Deus… perfeito e equipado para realizar toda a espécie de boas obras” (2Tim 3,14-17). O dinamismo da inteira Bíblia inspirada vai abrindo caminhos de realização humana. Não é uma realidade estática que repousa no escrito: dotou-o duma força que pela fé transforma a vida. Forja uma mentalidade cristã e comunica a sabedoria de viver de acordo com a dignidade que ela fomenta. Assim, o leitor sabe em cada circunstância como agir e reagir pela fé para ser fiel ao projecto de Deus para ele. Então a Bíblia dá respostas às interrogações humanas: tem a incontornável vocação para ser motor da vida e para lhe infundir frescura.
O crente lê a Bíblia como palavra que apela à sua consciência – «ao seu coração», diz-se em termos bíblicos. Palavra de Deus, consciência e sentido último do viver estão juntos ou caem juntos.










