Avelino Fernandes Lopes

Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos”, disse Victor Hugo, escritor francês do séc. XIX (1802-1885). São estes momentos que transformam a cama de um hospital num “templo” sempre que suporta um corpo em sofrimento.

Daniel, um jovem de 36 anos, forte e bem constituído, com um cancro nos pulmões e metástases ósseas, tenta ocultar o sofrimento e a tristeza que naturalmente lhe marcam o rosto. Católico, praticante, pede a minha presença.

– Embora tenha fé não quero morrer, tenho medo de morrer. Pode me chamar o sr. Padre do Hospital?, suplicou lacrimoso e com a voz debilitada à enfermeira de serviço.

Desde então não prescindiu da minha visita diária.

Tem um filho com 10 anos, de quem me fala muitas vezes, tantas quantas se lembra que a morte está próxima. Tem também uma esposa magnífica, corajosa. Corajosa e com um coração feito de generosidade, que o acompanha todo o tempo que lhe é possível. Tem ainda muitos amigos, que lhe trazem os presentes mais preciosos da vida. Amizade, memórias, fraternidade, alegria… São momentos de pausa, em tão tenebrosa doença que lhe vai consumindo e debilitando o corpo.

Apesar do medo de morrer, como dizia, a esperança de Daniel ultrapassava os limites das portas que via fecharem-se cada dia. Talvez cada hora. A caminho da morte, falava-me das maravilhas da vida. Das maravilhas com que Deus o brindara. Falava serenamente e com a naturalidade que o caraterizava, embora partilhasse a enfermaria com o vizinho “agnóstico”, o sr. Carlos, de 68 anos, que tinha dificuldade em compreender “um Deus que permite doenças, o sofrimento, a fome, a morte de crianças, o tráfico humano, agressões de toda a espécie…

– Amigo, Deus não tem nada a ver com isso. Não acredito nesse Deus, sr. Carlos, Deus é Amor e pede que o sejamos também. Somos nós que permitimos e cometemos esses horrores. – E então, as doenças? Pergunta Carlos, em tom de desafio. – As doenças… acha lógico que Deus no-las dê para depois nos enviar o seu Filho como Médico?

– Bem… então, para que serve Deus?, continua Carlos. – Para nos ensinar a Amar, sr. Carlos! O homem de hoje ama menos, porque está mais distante de Deus. O mundo seria muito, muito melhor, se entendesse a linguagem deste Deus que é Amor, que é misericórdia. A fome, a violência, os maus tratos das crianças e dos velhinhos, a droga, o álcool, o sofrimento e até as doenças, tudo isto tem mais a mão do homem que a de Deus!…

De dia para dia, o corpo e a voz de Daniel definhavam, enquanto que o seu vizinho “agnóstico” se tornava um homem mais doce nos sentimentos, no trato e na linguagem.

Daniel pressentia a sua morte, era-lhe já familiar: sufocava-lhe o pouco que tinha para dizer: – Está tudo bem. Acredite que sinto muita paz…, dizia-me.

Sim, e eu acreditava, porque tudo tinha mudado naquela enfermaria: uma verdadeira catarse! Daniel já não tinha medo de morrer, conforme exteriorizava quando entrou. Suas últimas palavras emergiam de uma espiritualidade que lhe vinha de dentro, das entranhas trespassadas pela doença tirânica que o consumia lentamente.

O “meu menino”, referindo-se ao filho, a esposa e os amigos, continuavam a ser o bálsamo que lhe suavizava o sofrimento, a fraternidade que o ligava ao Amor, a luz que lhe adiava as trevas, mas… mas chegara a hora, aquela hora de que Daniel já não tinha medo, e que eu não presenciei.

Carlos, não era o mesmo. Conhecia apenas o deus feito à feição de cada um, o deus à nossa imagem; conhecia o deus que diziam fazer milagres e que resolvia os conflitos e problemas de cada um…

Também para ele, a cama em que se deitara foi o templo que o levou a olhar para dentro: ali “ajoelhou sua alma” e compreendeu que existe o Deus Único, o Médico Misericordioso que cura com Amor. Compreendeu o Deus que pede insistentemente ao homem que seja solidário, amigo, fraterno para com os seus semelhantes. Compreendeu que todo o homem tem poder para o milagre, se é Amor. Compreendeu Aquele Deus que o Daniel trazia dentro de si e lhe mostrou desde o seu “altar” vizinho, naquela “catedral da esperança e da misericórdia”, onde ajoelhou.