Renato Pereira, OCD
A Sagrada Escritura é a fonte da vida espiritual, tanto no seu nascimento como em cada etapa do seu desenvolvimento. É verdadeiramente fonte pois, pelas suas virtualidades, gera a espiritualidade ao dar origem a uma experiência e a um conhecimento, uma experiência que é conhecimento e um conhecimento que é experiência.
É determinante para a espiritualidade o facto da Palavra de Deus ser um evento histórico: Deus falou; e isso é algo irrevogável. Igualmente importante é o aspecto dialógico da Palavra: a Palavra é dirigida a alguém, seja um individuo ou um colectivo. Ao revelar-se, Deus busca a amizade do homem. Fica então instituído um diálogo em que Deus fala com o Homem e o Homem fala com Deus, diálogo verdadeiro e permanente. Assim, o facto primeiro e mais importante da vida espiritual é a existência da Revelação: Deus revela-se num livre acto de amor. E esse amor acompanha sempre o Homem nos caminhos da sua existência e liberdade até se propor como aliança. Na Sagrada Escritura, temos por escrito esse diálogo histórico e encontramos os exemplos, os modelos, conselhos e mandamentos que permitem ao Homem crescer no diálogo-aliança com Deus.
O Homem de hoje tem ao seu alcance muitos meios para escutar a Palavra, entrando assim no diálogo pessoal iniciado por Deus. Nunca se apropriará de uma Palavra que é dirigida a outro. A Igreja, criatura da Palavra, serve-a a cada Homem em toda a sua acção pastoral. No entanto, é na Liturgia que essa Palavra é dirigida a todos e cada um de maneira mais intensa, pois, como diz a Sacrosanctum concilium no número 7, “Cristo está presente na sua palavra, porque é Ele que fala quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura”.
Também a meditação da Sagrada Escritura é um meio propício para escutar tal Palavra. A Lectio Divina é um dos métodos mais excelentes para abordar a Sagrada Escritura, pois, como diz a Dei verbum no número 25, “a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de oração”. No número 87 da Exortação Apostólica Verbum Domini, o papa Bento XVI deixou-nos uma descrição belíssima deste método tão recomendado pela Igreja: “Quero aqui lembrar, brevemente, os seus passos fundamentais: começa com a leitura (lectio) do texto, que suscita a interrogação sobre um autêntico conhecimento do seu conteúdo: o que diz o texto bíblico em si? Sem este momento, corre-se o risco que o texto se torne somente um pretexto para nunca ultrapassar os nossos pensamentos. Segue-se depois a meditação (meditatio), durante a qual nos perguntamos: que nos diz o texto bíblico? Aqui cada um, pessoalmente mas também como realidade comunitária, deve deixar-se sensibilizar e pôr em questão, porque não se trata de considerar palavras pronunciadas no passado, mas no presente. Sucessivamente chega-se ao momento da oração (oratio), que supõe a pergunta: que dizemos ao Senhor, em resposta à sua Palavra? A oração enquanto pedido, intercessão, acção de graças e louvor é o primeiro modo como a Palavra nos transforma. Finalmente, a lectio divina conclui-se com a contemplação (contemplatio), durante a qual assumimos como dom de Deus o seu próprio olhar, ao julgar a realidade, e interrogamo-nos: qual é a conversão da mente, do coração e da vida que o Senhor nos pede? São Paulo, na Carta aos Romanos, afirma: «Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito» (12, 2). De facto, a contemplação tende a criar em nós uma visão sapiencial da realidade segundo Deus e a formar em nós «o pensamento de Cristo» (1 Cor 2, 16). Aqui a Palavra de Deus aparece como critério de discernimento: ela é «viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração» (Hb 4, 12). Há que recordar ainda que a lectio divina não está concluída, na sua dinâmica, enquanto não chegar à acção (actio), que impele a existência do fiel a doar-se aos outros na caridade.”
A prática não é alheia à Palavra de Deus pois só nela se desvelam os aspectos do mistério que a exegese e a dedução intelectual, por si só, não alcançam. Se a eficácia da Palavra de Deus parece mais constatável quando esta se manifesta directamente sobre a criação material, não é menos eficaz a Palavra profética, aquela que é dirigida à liberdade humana. Quando esta Palavra é acolhida, então acção divina e obra humana entrelaçam-se sem se atropelarem, pois quanto maior é a ação de Deus, maior é a prestação do homem. As respostas mais importantes da História da Salvação ficaram consignadas na Sagrada Escritura e, assim, formam parte da revelação. Por serem instrutivas, estas respostas são estudadas atentamente pela espiritualidade, pois mostram a Palavra de Deus feita realidade e a frutificar. Ao longo dos séculos, é a resposta dos santos que, discernida pela Palavra de Deus, oferece à espiritualidade um desvelamento cada vez maior das múltiplas potencialidades dessa Palavra.










