Renato Pereira, OCD

No último Boletim de Espiritualidade, centramo-nos na Palavra de Deus, contida nas Sagradas Escrituras, como fonte de vida espiritual. Mas, como chega até hoje, a cada mulher e homem, essa Palavra?

É necessário que nos recuemos ao acontecimento fundante, o Mistério Pascal. Aí encontramos o mandato da pregação do Evangelho. A transmissão do Evangelho deu-se, então, oralmente e por escrito, como nos relata de maneira bela a Dei Verbum nos números 7 e 8: «Isto foi realizado com fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação. Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando-lhes o seu próprio ofício de magistério». Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é (cf. 1 Jo 3,2). E assim, a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão contínua, até à consumação dos tempos.» Desta forma, intimamente unida à Sagrada Escritura, aparece a Tradição, ou seja, a transmissão viva que o Espírito Santo realiza da pregação apostólica. Nela está contido o que contribui para que o povo de Deus viva uma vida de santidade e para que a fé cresça. 

Em primeiro lugar, é preciso distinguir a Tradição das tradições. Enquanto que a primeira é a transmissão do que os Apóstolos receberam de Jesus e aprenderam do Espírito Santo, as segundas são formas particulares (de tipo teológico, disciplinar, litúrgico ou devocional) nascidas nas Igrejas locais ao longo dos séculos mediante as quais a Tradição é expressa de modo adaptado ao lugar e à época. Em segundo lugar, é importante notar que Sagrada Escritura e Tradição não são duas fontes, mas “ambas derivam da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim” (DV 9); e, por isso, conclui a Dei Verbum (10): “ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência”. Por fim, é essencial assinalar também a progressão desta Tradição sob a ação do Espírito Santo, como esclarece o número 8 da Dei Verbum. O Concílio Vaticano II explica tal progressão em termos de perceção das coisas e das palavras transmitidas; e isso, através de vários modos: contemplação, estudo, íntima inteligência das coisas espirituais e pregação dos sucessores dos apóstolos. O Papa Bento XVI, no título da audiência geral de 26 de Maio de 2006, qualifica a Tradição como “comunhão no tempo”. Sendo a Igreja um mistério de comunhão, o Papa referia que esta comunhão tinha uma dimensão sincrónica (comunhão com os crentes de todas as partes do mundo) e uma dimensão diacrónica (comunhão com os crentes do passado e do futuro).

Partindo destas considerações, não é possível desvalorizar a importância da Tradição para a vida espiritual. Sendo o ser humano dotado de memória, é capaz de esquecer-se. Por isso, a Tradição, enquanto memória, é essencial. Como diz o Papa Francisco: “A memória é uma dimensão da nossa fé” (EG 13). No entanto, a fé não se faz de uma memória de recordações. A memória, na vida de fé, é memorial, é anamnésis, ou seja, é um fazer-se presente; e não somos nós que fazemos algo presente, mas sim Algo/Alguém que se nos faz presente. É mediante a Tradição que, pelo Espírito Santo, Cristo se faz presente na vida da Igreja; mediante a Tradição e a sucessão apostólica, podemos viver a mesma experiência da primeira comunidade apostólica, primordialmente na liturgia e nos sacramentos. A anamnésis por excelência é a Eucaristia: aí cumpre-se o universalismo da salvação, pois vai-se realizando em cada tempo da história a celebração do memorial da Páscoa.

A atenção à Tradição é um convite a que a experiência espiritual não fique prisioneira do subjetivismo ou do individualismo, mas avance para uma experiência de fé eclesial, ou seja, comunitária. Este êxodo de si não deverá ser encarado como uma obrigação, uma exigência, uma tristeza; é um dom, uma graça, uma garantia da verdade da experiência espiritual. A tal sentir ajudará sempre ter presente que a Tradição é um dom radicado no desejo de Cristo. E o que se diz a nível individual, pode aplicar-se ao nível comunitário: qualquer grupo/comunidade é chamado pelo próprio Cristo ao êxodo para a experiência de Igreja, sustentada pela Tradição.

Por fim, e não menos importante, a Tradição é uma estrada de equilíbrio e pluralidade. Equilíbrio quanto a fundamentalismos/tradicionalismos (que absolutizam uma forma histórica da «figura deste mundo que passa») e quanto a progressismos (que, fazendo tábua rasa de tudo o que seja anterior, acabam por autofundar-se à sua própria imagem e semelhança). A Trdaição garante a pluralidade quanto a carismas e ministérios, formas e tradições, sensibilidades e possibilidades nos caminhos espirituais.