Redação

«A razão mais sublime da dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer livremente esse amor e se entregar ao seu Criador.»

Com estas eloquentes palavras, o número 19 da Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II define o ser humano desde a perspetiva crente. O Homem aparece totalmente referido a Deus, definido pelo e para o diálogo com Ele, chamado a unir-se a Ele. O Homem não é alheio a esta vocação. Criado por Deus e para Deus, busca-O “naturalmente”, de maneira vital, como apontava Santo Agostinho ao exclamar: “Criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em Vós”.

Num primeiro momento, quem busca poderá não definir tematicamente essa busca como procura de Deus. No entanto, é impossível negar que o Homem se sinta sempre chamado a mais. O Homem vive em busca de algo ou alguém que seja capaz de saciar a sua abertura a mais. Frequentemente, a experiência de busca, quando encerrada em coordenadas simplesmente imanentes, é frustrante. Insaciado com as oportunidades gozosas que a criação lhe proporciona, experimenta o limite expressado na interrogação formulada por Jean-Yves Leloup: “Como podes pedir o Infinito ao finito?” Esta é a experiência da contingência, a experiência do Homem que se sente chamado a mais, capaz de mais, mas que não encontra esse mais na imanência, na finitude, naquilo que acaba. Chegado a este ponto, o Homem só tem duas possibilidades: dar por concluída a sua busca (com a afirmação do sem sentido do seu próprio ser ou simplesmente com a indiferença) ou, caso não aceite o sem sentido, elevar essa busca a níveis transcendentes, além do finito. Também a tradição carmelita experimentou esta contingência; o famoso Nada te turbe expressa isso mesmo: «Tudo passa, só Deus não muda. (…) Só Deus basta».

É importante sublinhar que o Deus encontrado pela tradição carmelita não chega pela frieza da dedução especulativa. Deus não é uma ideia que os místicos deduzem desde a contingência: Deus é a realidade que se experimenta em Jesus Cristo de maneira consciente, num encontro da iniciativa desse mesmo Deus que dá um rumo novo à vida. Bem o expressou o Papa Bento XVI: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.” (Deus caritas est 1).

Na tradição carmelita, o caminho para esse encontro é a interioridade. Apoiando-se num dado dogmático fundamental, São João da Cruz (Subida do Monte Carmelo 2, 5) fala de dois tipos de presença de Deus através da união com Ele: a união substancial/essencial e a união de semelhança pelo amor. A primeira, que é natural porque já está feita, é aquela mediante a qual Deus conserva o ser da criatura (como faz referência o texto da Gaudium et Spes). A segunda união é aquela que se vai verificando à medida da conformidade das vontades de Deus e da pessoa, de modo que esta fica transformada em Deus por amor. Santa Teresa experimentou esta presença de maneira muito qualificada numa graça extraordinária por ela relatada no Livro da Vida: “Estando uma vez a rezar a Liturgia das Horas com todas as outras Irmãs, a minha alma recolheu-se subitamente. Pareceu-me ficar toda cristalina como um espelho. Tudo nela era claridade: pela frente, por trás, pelos lados, por cima e por baixo; e, no centro, apareceu-me Cristo Nosso Senhor como O costumo ver. Tinha a impressão de O ver em todas as partes da minha alma com tanta nitidez como num espelho; e, ao mesmo tempo, este espelho – não sei como o explicar – esculpia-se inteiramente no mesmo Senhor através de uma comunicação extremamente amorosa, que também não sei explicar.”  (Vida 40,5). Desta experiência depende a inspiração para escrever, considerando a alma como um castelo interior habitado por Deus no livro das Moradas do Castelo Interior. É nesta interioridade que é feita a experiência do Infinito, do mais que o Homem sempre busca. E esta experiência é feita na própria contingência, na impossibilidade de dar-se ser a si mesmo, mas de ser e saber-se totalmente dado a si mesmo.

Portanto, o Homem é capax Dei, capaz de Deus, capaz de O experimentar. Criado à sua imagem e semelhança e por Ele sustentado no ser, o Homem tem como sua verdade a união de amor com Deus. À espiritualidade cabe conduzir o Homem a essa união de amor com Deus pela semelhança do querer. A configuração com Cristo, paradigma de toda espiritualidade, é alimentada pela Sagrada Escritura, está alicerçada na Tradição e comunhão eclesial, tem umas consequências éticas e morais, é celebrada na Liturgia, é discernida pelo Magistério e é encarnada num conjunto de formas específicas (espiritualidade laical, matrimonial, religiosa, sacerdotal, missionária, etc…). É da relação da espiritualidade com estas variáveis que falaremos nos próximos números do nosso Boletim de Espiritualidade.