Armindo Vaz, OCD
Quem não lê as histórias de longevidade dos anciãos bíblicos perde a incalculável riqueza que os potenciais anciãos de hoje podem herdar. De facto, a longevidade daqueles não é um concurso sobre quem viveu mais. É meditação sobre o tempo que passa inexorável, sobre a experiência humana indelével e sobre a ligação do humano ao divino. O tempo tinha passado fugazmente por eles. Mas a idade acumulada tinha ficado: eles ‘tinham-na’, formando parte de si, como a cauda do cometa. Eles eram precisamente a vida e a experiência que se tinha sedimentado, depositado, dentro deles, ano após ano, gerando um misterioso enriquecimento neles e no povo que formavam. As experiências recolhidas, a abertura da mente a novas perspectivas e a novos horizontes, a maior capacidade de avaliar situações e de acolher o ‘diferente’ não tinham ‘fugido’ deles. Tinham-nos feito, como nos fazem a nós. A idade madura destes antepassados vivos era, afinal, recapitulação da sua vida de ‘não passados’, a idade mais valiosa, depois da qual não havia outra. A recapitulação continha e sintetizava a vida inteira, memória agradecida das consolações vividas, quinta-essência dos desejos e projectos realizados, as dores superadas, as frustrações sublimadas, os amores dados e recebidos; era o remanso final do curso dos anos, ao longo dos quais tinham escolhido o que queriam ser para sempre no mar da eternidade que já se sentia perto: «Eis que eu estou para morrer. Mas Deus estará convosco» – diz Jacob a José (Gn 48,21). O ancião bíblico não esquecia a espessura dos acontecimentos, como se esquece hoje com uma tendência suicida a ‘actualizá-los’ no que é recente e, por isso, a reduzi-los a um só plano, talvez a uma notícia evanescente, mutilando-os do seu sentido humano e religioso e das suas consequências. Em boa verdade, o ‘actual’ mantém e guarda o conteúdo de fundo que vem do passado e merece atenção: «Recorda os dias de outrora, medita nos anos de tantas gerações. Pergunta ao teu pai e ele contar-te-á, aos teus anciãos e eles dir-te-ão» (Dt 32,7). A recordação bíblica, registo no coração, não era conservação passiva, fixada de uma vez para sempre, como nas paredes de um museu, na cadeia dos acontecimentos do passado. Recuperava, celebrava e salvava no presente aqueles factos grávidos de um sentido que não se tinha conseguido ver no passado.
O ancião, com a sua longevidade, afastando as fronteiras da morte o mais possível, vivia em mais de um mundo e em sucessivas gerações, impedindo assim que o passado se apagasse: dando tempo que mais contemporâneos jovens testemunhassem os mesmos factos que ele, consolidava-os na memória colectiva do povo, sempre ‘actual’, e contribuía mais para ela. A longevidade – a real e a aumentada pela intenção simbólica – permitia gerar uma razoável unidade, harmonia e coerência entre os acontecimentos desconexos dos mais idosos e dos jovens que iam fazendo cultura no povo de Israel: «Fui jovem, já sou velho; e nunca vi um justo abandonado, nem a sua descendência a mendigar pão» (Sl 37,25). A memória de cada ancião superava-o e continuava depois dele, no jovem. A história não era sucessão mas convivência de gerações, que cresciam e amadureciam simultaneamente. Era formação contínua intergeracional, educação inclusiva, reciclagem permanente dos idosos com o contributo dos jovens e vice-versa: «Escutai, filhos, a instrução do pai; estai atentos para adquirirdes a inteligência» (Pr 4,1-4). «Ouvi isto, anciãos!… Contai-o aos vossos filhos; e os vossos filhos aos seus filhos; e os seus filhos à seguinte geração» (Jl 1,1-3). «O que ouvimos e aprendemos e os nossos pais nos transmitiram não o ocultaremos aos seus filhos; tudo contaremos às gerações vindouras» (Sl 78,3-4). Os mais idosos sabiam que “a conversa converte”.
A memória, base para a aprendizagem, tecia as diversas visões do mundo e unia as formas de pensamento dos idosos com as dos jovens. Ao estarem na ponta final da vida, os anciãos bíblicos eram capazes de unir o que os jovens tendiam a ver em fragmentos (aptidões e realizações, ganhos e renúncias, desaires e alegrias, perdas e fantasias). Não encontravam no fim um montão de destroços, mas a harmonia feita com os muitos fragmentos de vida (cf. P. R. SCALABRINI, “L’età anziana secondo l’Antico Testamento”, Le età della vita [PSV 49; EDB Bolonha 2004] 11-29). Com a sua longa memória contavam diante de si e dos outros os acontecimentos de toda a vida, reconhecendo as luzes e as sombras, integrando os gozos e os sofrimentos, vivendo o presente com paz e harmonia interior. Redimiam o tempo, libertando-o de maus pensamentos sobre o passado e abrindo-o a um futuro de esperança, considerando cada instante como um presente valioso, oferecido para relançar a vida e para o desposar com a eternidade: «Instruíste-me, ó Deus, desde a minha juventude; e até ao presente tenho anunciado as tuas maravilhas… Também agora, na velhice e de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, até que eu anuncie a tua força a esta geração» (Sl 71,17-18; cf. J. CRISTO REY GARCÍA, “Longevidad y tiempo extra”, Vida Religiosa [Monográfico 1/2022/ vol. 132] 33-87). Quem assim ora desprende-se das contradições da vida e entra no limiar da imortalidade.










