1. Qual a razão do título do seu livro?
    Comecei a ler São João da Cruz quando fazia a minha aproximação ao Carmelo. Não sei muito bem o motivo, mas a um determinado momento do meu discernimento, uma carmelita descalça emprestou-me as Obras Completas do Santo. Talvez ela soubesse o que estava a fazer, mas eu não sabia como a minha vida seria diferente depois dessa leitura. Senti, imediatamente, uma sintonia enorme com esta figura que toda a gente dizia ser difícil e algo obscura mas que eu percebi como simples, como muito transparente e luminosa e que, acima de tudo, que me transmitia um fogo, uma paixão imensa por Jesus.

    Mais tarde, já religioso, foi-me pedido que, juntamente com um confrade, pudesse realizar no Porto uma atividade pastoral sobre algum santo carmelita. Nessa altura, já me “dava muito bem” com João da Cruz. Mas no âmbito dessa atividade mergulhei de cabeça no pensamento e na doutrina de João da Cruz. E quanto mais lia, quanto mais estudava, deparava-me sempre com uma mesma “intuição”: João da Cruz não fala outra coisa senão de Cristo, João não diz outra coisa senão Cristo. Por isso, a conclusão parece-me evidente: João é um homem totalmente enamorado por Cristo. Porque os enamorados são precisamente aqueles que não veem outra coisa senão a pessoa amada. Ora, foi essa a experiência que eu fiz de João: tudo nele clama Jesus, a seus olhos só há Jesus, toda a sua existência clama Jesus.
  2. O subtítulo começa assim: «Uma ajuda…». Porque precisa São João da Cruz que alguém nos ajude a compreendê-lo?
    A experiência que eu fiz de João da Cruz foi sempre uma experiência positiva. Mas reconheço que há muitos que, simplesmente, não a fazem. É verdade que João da Cruz diz coisas que não são, à partida, muito agradáveis ou fáceis. Tem alturas em que o que escreve chega mesmo a ser duro e difícil. Por esse motivo, muitos dos seus leitores detêm-se na dureza do caminho que ele preconiza e, com medo, dizem imediatamente: “isto não é para mim”. De acordo com a tradição, um desses leitores foi o futuro Papa São João XXIII que devolveu as Obras Completas do Santo uns dias depois de as ter comprado, afirmando que o que estava escrito naquele livro não era para ele.
    Estou em crer que se nos aproximarmos de João da Cruz com medo, se nos aproximarmos de João da Cruz com a “certeza” de que ele escreve umas coisas que “não são para mim” mas para alguns “iluminados”, então não vamos conseguir passar de segunda página. Por isso é que creio que faz falta uma ajuda para nos aproximarmos de João, porque existem muitos pré-conceitos relativamente a João da Cruz e, se não nos ajudarem a ler as suas obras com os “óculos” certos, diremos invariavelmente como João XXIII e tantos outros: “isto não é para mim”.
  3. O que há para compreender em São João da Cruz?
    Não tenho a pretensão de querer ensinar ninguém. Mas, se não estou a ler de forma errada, aquilo que é preciso compreender de João da Cruz, os “óculos” que são necessários colocar para o lermos convenientemente, é que João quer-nos livres para amar mais. Estas são as duas lentes dos tais “óculos”: a liberdade e o amor. Porque tudo aquilo que ele nos diz tem como objetivo conduzir-nos a Cristo. E não apenas isso, mas levar-nos rapidamente a Ele. Compreendendo assim a João da Cruz, descobrimos uma outra pessoa, descobrimos um homem apaixonado, melhor, um homem enamorado, que experimentou como Deus é bom e que deseja que nós façamos também essa experiência e que não nos percamos em coisas sem importância.
  4. E… 4. O que entende São João da Cruz por negação, e porque é ela tão necessária?
    Mais uma vez, partilho o que vou descobrindo a partir da leitura que faço de João. Antes de mais, parece-me importante dizer que quando João da Cruz fala de negação fala de uma atitude a desenvolver, de um processo. Ele é muito claro: o importante na vida é Deus. E como o importante na vida é Deus, só Deus lhe interessa. De tudo quanto não é Deus, há-de o Homem aprender a desligar-se. Isso não significa que as coisas – sejam elas matérias ou espirituais – sejam más. O que João diz é que as coisas, que são boas (nunca é demais frisar), não são Deus. Ora, se o mais importante de tudo é Deus, tudo o resto, diante de Deus, perde importância, perde beleza, perde sentido.
    A negação provém, então, deste desejo por mais, deste desejo de um amor maior. João recorda-nos, enfim, que as nossas escolhas nos comprometem. E se eu desejo um bem maior, tenho de dizer não a outros bens, que o são, mas que não são o bem maior, são bens mais pequenos. Assim a negação é esta atitude que me faz “treinar” a minha vontade para que esta possa escolher sempre o bem maior, que para João se chama claramente Jesus Cristo.