LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA †

Frei João Costa, OCD

1.           São João da Cruz é ainda hoje um homem fascinante. Porque fascinado, fascinante.

A sua vida é paradoxo vero e vivo. Era feliz, sempre foi feliz buscando e seguindo a Deus no seu interior mais profundo; era terno, amável, aprazível, de olhar puro e sorriso sereno, mesmo se procedia de uma família tão frágil e miserável cujas probabilidades eram de que todos os de sua casa perecessem de fome, mesmo se, afinal, só tenham morrido o pai e o menino do meio. Já adulto, perseguido ou não, apresentava-se humilde, recolhido e de estatura mediana, razões pelas quais Santa Teresa, não sem humor, o chamava de fradinho, «o meu meio fradinho», santico e Senequita.

Seria necessário possuirmos algo, uns póses que seja, do génio audaz da Madre Santa para como ela percebermos no olhar daquele menino frágil feito carmelita franzino e meão, um gigante de fogo ardente, bem capaz de iniciar uma nova família espiritual e assim abrir um sendeiro largo na história da Igreja. E se porventura dessa capacidade em nós dúvidas houvera, profeticamente tomou ele para seu apelido de religioso descalço o nome da Cruz; e tanto assim foi que a tomou para arrimo e báculo da sua subida até ao cume da alegria, e tanto ela se fez presente em seus passos, e tanta foi a tortura que sofreu em seus dias que, em perguntando-lhe alguém donde nos desafios e provações sacava tanta coragem, logo ele replicava: «Quando estive preso em Toledo aprendi a sofrer». Sim, preso esteve frei João tal como preso esteve Jesus – como que provando-nos não haver liberdade sem Egipto –, um e outro imerecendo o mais inumano dos cativeiros, e depois mais volvendo o seu negro negrume na mais fulgente fonte de luz.

Nas negras masmorras do cativeiro, Jesus e João encontraram-se; ou melhor, foi João encontrado. E nesse encontro tornou-se ele fonte e «grande mestre da verdade viva sobre Deus e o homem» (São João Paulo II, em Segóvia). Desse encontro validante forjou-se o seu futuro – é e será pai e mestre de oração, ocupado em convocar para a oração e a promover o sumo bem que ela é em nossas vidas porque, como o próprio diz: «quem foge da oração, de tudo o que é bom foge». E depois de andados muitos caminhos e bebido de muitas fontes, numa carta, recomendará: «entregue-se muito à oração, porque no fim de contas não temos outro bem».

2.           Sempre se ouviu dizer, eu pelo menos, que ninguém nasce santo, antes se faz santo. O verbo fazer não pode ser aqui assumido como um simples fazer-se a si, autónomo e por vontade própria, mas antes como passividade, como co-laboração activa entre Deus e nós, porque nada é possível contruir sem que as mãos de Deus oportunamente retomem o nosso barro – mesmo se ressequido – e nos construam (ou reconstruam) santos. E mais, para a nossa santificação de muito nos serve também o que os outros – por providência de Deus – fazem de e em nós. Ou, como a um jesuíta, e nem sequer era velho, ouvi certa vez dizer: O viver com santos faz mártires!

Lê tu, leitor, leitora, como quiseres este aforismo. Ou que até os santos nos amolam, até que atinjamos os mais altos cumes da santidade; ou que a paciência e a abnegação com que somos chamados a viver o quotidiano nos chamam também a dar testemunho cabal de vida conformada com Cristo; ou que sempre, tanto na heroicidade como na mediania do dia a dia, mais e mais somos chamados a renunciar ao egoísmo, por amor a Deus e ao próximo.

Seja como seja, ou como for, não nascemos para não sermos santos.

Ah, e como alguns bem-venturados aprendem tão rápido a lição!

No seu livro Cântico Espiritual São João da Cruz deixou escrito que «um amor acende outro amor», que é como quem diz: nada na vida da fé se faz ou constrói sem que se dê o encontro fundacional, tantas vezes, hoje, refundacional, com Cristo, seja ele nas tais masmorras húmidas e frias duma prisão, seja pelo caminho, à luz do sol, num jardim.

Que um amor se acende noutro amor logo me faz lembrar a Vigília Pascal, quando a Igreja, cristão a cristão, filho a filho, freguês a freguês, peregrino a peregrino, em noite escura, acende a sua vela no luminoso e glorioso Ressuscitado! É, enfim, o amor e a santidade Dele acendendo e sustentando a humildade e a pequenez da nossa chispa, e fazendo-nos rezar e exultar e louvar e testemunhar a luz e o amor maiores.

3.           De casa para o noviciado, do noviciado para a universidade de Salamanca, eis frei João correndo sereno e imparável como um riachuelo manso. Porém, reparado tenho que foi feliz em casa, foi feliz no seu noviciado, porque feito todo ele para uma vida de caridade silenciosa, de oração e contemplação; surpreendentemente, porém, o jovem universitário quase ali soçobrou quando, mesmo com licença para viver em verdade o rigor da Regra Primitiva do Carmo, quase não a encontrou, ou mesmo a não chegou a encontrar, no contexto da vida claustral de seus irmãos mais avançados.

Percebendo-o todo ele elevação e oração, salvá-lo-á a Madre Teresa de Jesus, providencial e veloz como um raio, fazendo-o pai dos descalços, seu conselheiro e pai da sua alma e da das suas filhas. De toda a Descalcez, incluindo leigos.

E entregue, desde jovem sacerdote, a corrigir e encaminhar as almas para o trato de oração, ver-se-á no limite do achamento de Cristo abatido, kenótico, ao padecer o abatimento máximo na masmorra toledana. E foi aí no limite mínimo que ele foi máximo! Sabemos, aliás que, tirando dos mínimos, escreveu grande parte do formoso diálogo entre a amada e o Amado do Cântico Espiritual; e será também esse álgido e máximo desnudamento pessoal e conjuntural que lhe possibilitará o encontro redentor em que sucederá a prova de que só o amor acende a oração confiada.

4.           Enfim, quem me dera ter sido mosca, ou nem tanto, que simples toco de vela acesa ou meio tição me bastaria; quem me dera ter vivido na pequenina casinha da viúva Catarina, aí por 1552, ou um pouco mais além, na ruidosa cidade das grandes feiras e mercados agitados! Quem me dera ter tocado aquele sereno, santo e confiado silêncio da casuchinha da rua de Santiago que embalou e adormeceu um menino santo; quem me dera tê-la visto a rezar o piedoso rosário com Francisco já casado com Ana, e com o seu Joanico! Ai, quem me dera ter visto como Catarina abençoava a mesa, como tomava o pão escuro em suas mãos de tecedeira, e como o partia e repartia pelas bocas da casa. Sim, quem me dera ter conhecido o casucho fiel da rua de Cantiveros, onde Gonçalo, esse moço direito e recto como um esteio, e Catarina, a bela mourisca pobre, trabalhavam, rezavam e jantavam juntos e piedosos uma malga de caldo de verduras amargas, naqueles tempos tão falhos de migas!

Ah, ainda se ingénuos e sem incenso, como em cada tempo tão solenes e belos são os altares familiares!

O amor é o amor, e eu não conheço casa mais próxima à de Nazaré, onde tão bem aprender se possa a viver de trabalho, de amor e de Providência! Sim, não há casa em lado algum tão biblicamente pobre, não; e para mais agudo desafio à esperança, tem ela, ou terá em breve, uma viúva e dois órfãos e… e depois, tantos, tantos afilhados… Por isso, quem me dera ter vivido naquela casa, sim, apenas naquela casa, e mais que ver a profundidade e o mistério da escura noite da fome, ter visto e aspirado o amor a ser tecido e repartido à mesa das migalhas. Sim, e como despontava ali a fonte da luz da fé naquela negra casa pobre em pleno século de ouro espanhol! É certo que de inteiro ninguém sabe, mas foi aí, nesse lar laborioso, caridoso e acolhedor, até mais que noutro lugar mais santo, até mesmo mais que no noviciado carmelitano do convento de Santa Ana, que se encontra a semente e a fonte da oração de frei João da Cruz.

Ai, quem me dera.

Quem me dera ter sorvido daquela atmosfera calorosa que nimbou um santo, sem que se levantasse nuvem de pó ou fumo de incenso.

Quem me dera ter percorrido lado a lado a Peregrinação da Fome, por Arévalo e outros lugares até Medina: incréu eu não seria e choraria vendo caminhar uma jovem viúva com um filhinho ao peito e outro carregando uma trouxica de pequenos tarros, agulhas e colheres. Uma peregrinação de fome faz-se com fome no estômago, os pé doridos e os olhos a pedir. E se a caridade nos dá um nico de pão duro, reza-se pelas Almas que bocê lá tem, mai’la sua família! Claro que os pobres sabem rezar, que ou confiam e tudo esperam da mão de Deus, ou soçobram e morrem sob o império da fome. O quanto não aprendeu Joanico encostado ao seco peito da mãe, ao longo e ao largo daquela imensa peregrinação de esperança!

E o que eu não daria para assistir a uma missa em que o chiquitito de Catarina acolitasse na igreja da Madalena, quase porta com a porta da sua casuchinha! Ele que falira em todos os ofícios em que o haviam procurado industriar – alfaiate, pintor, carpinteiro, entalhador – por fim acertara e não falhara no acolitado, pois se sentia encantado e feliz por servir ao altar e a acompanhar funerais; e quantos não seriam! Àquela hora e naquele serviço foi menino alegre, atento, cuidadoso. É certo que era um bocadinho travesso, mas acolitava tão bem que dava gosto e unção vê-lo! Era uma verdadeira bênção! Este elogio tomo-o eu da boca de quem com ele mais se enlevava – as exigentes monjas agostinhas de Medina. Um verdadeiro compêndio, esse miúdo! E se o serviço divino bem feito, isto é, se o acolitar bem não é já bem rezar, então eu vou ali e já venho!

Joanico foi feliz até aos dias de aprendiz de asceta em Salamanca, aqueles em que os colegas, em sentindo os seus passos, logo diziam: – «Calemo-nos, vem aí o diabilho!». Sim, foi; mas até esses dias que o acabaram inundando num mar de dúvidas e incertezas, foram de profunda e confiada oração. Diz-se que a sua cela, ou quarto, era paredes meias com a igreja conventual, e que tinha a particularidade de ter um janeluco virado para o sacrário. Dizem os testemunhos que frei João estudava a lição ali, de pé, por horas a fio, e que também por horas a fio, diurnas e nocturnas, ali se quedava em silêncio e oração a mirar o sacrário! E ainda assim entrou em crise!…

Refaço o que deixo escrito: eu contentar-me-ia o bastante em ser um janeluco para o sacrário do coração orante de frei João.

5.           Como digo e deixo dito, já desde menino frei João foi homem de oração – não apenas a espaços, e muito menos só nos tempos fortes, nem só em lugares apropriados e circunstanciados, antes sendo oração, simplesmente oração, porque todo o seu país era a oração.

Não encerrarei este texto sem redizer como era fiel à sua bandeira, à oração enquanto diálogo amoroso e encontro tu a Tu, com Cristo Senhor. Pois que, se nos evangelhos o Senhor se fazia encontradiço e atento, tanto nas tempestades como nos mansos caminhos, nas praças, em casa de Simão, na casa e junto à cama dos doentes, quer na casa dos chefes das sinagogas, quer no templo, tal como junto ao poço, na fonte ou na piscina, tanto na montanha, embrenhado na natureza, como nas margens dos rios e no mar, porque haveríamos nós de desprezar esses lugares de encontro com Ele como lugares de oração? Não, São João da Cruz não os ignorou jamais porque, se qualquer espaço em que se desenrole a existência humana é lugar de Jesus, então frei João assumia-o como espaço de oração. Afinal, onde se pudesse ele encontrar com Jesus, numa ermida, pelos caminhos, num recanto, numa cova, no meio da natureza, em qualquer lugar, na cama, doente, ou próximo de um doente, no cárcere, se preso; no coro, soletrando salmos, entoando hinos ou, no altar, dizendo missa, aí rezava frei João da Cruz. Mas, sobretudo, o meio fradico mais rezava onde mais O encontrava: no mais profundo centro do seu coração – «há-de notar-se, repetia ele, que o Verbo Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, está escondido essencial e presencialmente no íntimo da alma», portanto, para que «se encontre com Deus, a alma deve sair de todas as coisas onde traz a sua afeição e vontade, e entrar em sumo recolhimento, dentro de si mesma». O que aqui leio é que cada um de nós deve encontra-se (consigo) e com Deus, aprofundar-se e não dispersar-se jamais, nem esfarelar-se ao vento, donde saímos tudo perdendo e sem nada restando.

Ah, e uma vez aí, que não o chamassem, nem o distraíssem, nem de lá o quisessem arrancar: «– Deixe-me, por amor de Deus, que não estou para tratar com pessoas!» – suplicante replicava ele a quem nessas circunstâncias, com a sabor a desoras, o reclamasse.

6.           A maneira como tu oras, leitor, leitora, é certamente diferente da minha, da do Papa Leão XIV, da de São João da Cruz. E mormente hoje há que manter e creditar as diferenças, porque para o doutor da oração – a quem mais importava encaminhar para o trato íntimo com Deus, que ensinar técnicas ou truques ou orações de devocionário –, esta é um diálogo tu a Tu, um encontro pessoal, cara a cara com Deus que, mais do que obras, do orante exige, pelo menos, um pequenino acto de puro amor. Sim, porque tudo no cristianismo, também na oração, mais que lei ou doutrina é, sobretudo, encontro com o amor inabarcável de um Deus que nos criou por amor, nos redimiu por amor, e nos rodeia e abraça com gestos mil de amor (mesmo desde antes de nascermos), porque enfim, em tudo, também na oração, Deus «é sempre o amante principal».

É, pois, por essa singela razão, concluo eu, por a oração mais brotar do incêndio de amor, que em certo lugar diz ele existirem «pessoas que julgam ter oração e não têm, e outras que julgam não ter e têm». Dá que pensar, porque a oração não depende jamais dum inteiro acto de vontade ou disponibilidade, mas da reserva de amor que ainda disponhamos sobre a lareira, em total pobreza, confiança e abandono. É por isso que a oração sempre é pessoal e irrepetível – isto é, brota segundo o modo da amorosa responsorialidade de cada um ao sentir-se amado por Deus. Logo, portanto, também não é sorvete que se esfume ou apenas desmaie no palato, com o único propósito de dar sabor ou exprimir-se em fervores, que estes mais não são que meros «obstáculos a Deus», o principal agente da oração. Aliás, Deus, oculta e secretamente, mui desembaraçado se ocupa, sem mérito nosso, dos orantes, digo, «em semear-lhes na alma notícias de sabedoria e amor»; sim, mesmo se áridos, Deus assume-nos como terra fértil e semeia-nos de amores perfeitos, para que conheçamos e amemos os bens que Ele nos quer oferecer e que por nós na oração hão-de ser colhidos.

Por isso, para que rezemos, isto é, para que permaneçamos em diálogo amoroso, o que mais nos encarece frei João é que tomemos a Jesus como amado da nossa alma do único modo possível, isto é, permanecendo «inteiramente com ele» sem que o coração esteja dividido por se encontrar apegado a algo que não seja Deus!

Seguindo, pois, frei João da Cruz, para rezar nos basta ter coração, mas tê-lo uno e indiviso, não repartido, inteiro para Deus, por não ser possível rezar – isto é, dialogar com Deus – se não se «tiver o coração inteiro no Amado». Afinal, de Deus nada se alcança «senão com amor» inteiro, porque Ele é de tal maneira, que só O leva bem quem Dele se aproximar sem interesse e segundo o modo que Ele quer pelo que, louvando ou pedindo, só assim Dele faremos o que quisermos – mas «temos de o amar verdadeiramente» só a Ele!

7.           Existem nas obras de São João da Cruz muitas referências e textos de oração, cujo tom coloquial demonstra o eu do Santo referindo-se ao Tu de Deus, sublinhando o necessário timbre da amorosa relação entre a alma, o ser humano, e Deus; por exemplo: «Ó meu querido esposo – é o Santo quem fala! –, recolhe-te no mais interior da minha alma, comunicando-lhe escondidamente, manifestando-lhe as tuas escondidas maravilhas, alheias a todos os olhos mortais».

Para frei João da Cruz se este tu a Tu, este eu e Tu, amorosos ambos e em delicada atenção e dedicação, não se der jamais, não pode existir oração. Não, a oração de João da Cruz nunca é um eu dizendo palavras contra um muro, mesmo que seja de formosa luz, mas um eu diante de um Coração vertendo-se sobre mim em rios de amor e compaixão (mesmo que eu nada sinta, nada veja ou oiça!). Não, a oração de frei João da Cruz não são jamais palavras receituárias, disponíveis como um comprimido para esta ou aquela maleita, esta ou aquela necessidade, esta ou aquela enxaqueca; antes são silenciosa palavra precisa e ajustada, pessoalíssima no tom e no toque de amor, e por isso, própria dele, não minha, não tua, e que dá para sabermos como ele rezava, como ele co-respondia, porque «sem Ti, Senhor, nada se poderá fazer», nem mesmo rezar.

Mantenhamos, pois, o olhar fixo no fradinho-fogo-de-oração de Fontiveros, Duruelo e Úbeda – era ele pastor de almas e homem de mil compromissos, mas sobretudo, amoroso orante responsorial na solidão. Sim, que frei João rezasse era algo tão natural como respirar. E era tão denso e era tão íntimo que não rezava apenas por um punhado de horas, mas toda a vida, porque sem oração não respirava nem podia respirar, pois que a vida teologal e a interioridade jamais se vivem ou nelas se mergulha só a espaços e a bochechos.

Do que frei João sempre trata e gosta de nos advertir é que vivendo, rezemos, isto é, se vivendo, vivamos no amor a Deus, «sem querer sentir ou ver algo», porque é nesse estado desinteressado que Deus se nos dá. Em certo lugar escreveu  que «aqueles que são muito activos e pensam cingir o mundo com as suas pregações e obras exteriores, fariam muito mais proveito à Igreja, e muito mais agradariam a Deus – além do bom exemplo que dariam – se ao menos ocupassem metade desse tempo com Deus na oração» porque, lá está, para ele rezar é muito mais que trabalhar e suar, muito mais que correria e missão, muito mais que pregação e apostolado; é procurar corresponder com simplicidade e em profundo silêncio ao amor de Deus, sem mais querer sentir ou melhor ver – afinal «se não se perde o ofício de rezar, esperando em desnudez e vazio, jamais tardará o bem» que Deus deseja conceder-nos.

8.           O mundo está cheio de sábios e falho de vida penitente, confiada e orante, digo, amante, olhos nos olhos do Amante, porque na relação com Deus, que haverá de se Lhe pedir ou de se Lhe mostrar interesse, «se a maneira de O levar é por bem e segundo a Sua condição»? Aliás, a Deus ganha-se confiando, ganha-se em fé, que Ele «só repara na fé e pureza de coração de quem ora». Sim, o que faz com que encontremos a Deus, ou melhor, O que mais faz Ele remeter-se para nós, é a nossa «consciência pura, a vontade inteira em Deus e a mente deveras posta Nele». Postos nós, pois, nessas condições, aí Ele não resiste. Correndo para nós, aí Ele se deixa encontrar, aí nos acolhe, aí nos ouve em nossos pedidos que façamos em favor da Igreja e da humanidade, porque aí – gemendo em esperança de céu é que nós alcançamos quanto esperamos!

9.           Na vida tal como na oração,João da Cruz não tem outra máxima nem outra luz que o amor do Amado, que Dele sempre em nós se verte, para nós corre para, descendo Ele e fazendo-nos subir a nós, nos igualar na amizade com Ele; por isso nos ensina nosso Senequita que nada haja na oração sem amor, sem o coração cavo e em esperança. E insiste: tanto a vida como a oração, vivamo-las sempre e só «em pureza de coração», que é ao que Deus mais olha – porque Ele, enfim, sempre nos olha com amor!

E ao Amor não há dar sem dar.

Existe uma oração escrita por São João da Cruz que ele intitulou Oração da alma enamorada. É tão bela que não sei como não é mais conhecida! Até o título é perfeito. Conhecê-la dispensaria ler tudo o que foi escrito até aqui. E quem por ela não ficar a conhecer o coração orante e amigo do Santo, então não o conhecerá jamais, porque nas linhas dessa pérola ele não se escondeu nem nunca se quis esconder. É certo que existem outras orações suas, mas esta é viva, vibrante, única. Ali ele não dissimulou a consciência da sua pequenez e do seu pecado, nem a certeza de que Deus nos escuta e, de que em Jesus, cada um de nós tem um mediador, «meu e para mim». Nem ousou esconder a sua gratidão por se sentir plenificado e glorificado por Deus, porque para ele poder rezar a Deus é amar, é uma troca de amores, pelo que agora já nada mais há que esperar. Diz a oração:

10.        Senhor Deus, Amado meu!

Se ainda te recordas dos meus pecados

para não me fazeres o que te tenho andado a pedir,

faz neles, meu Deus, a tua vontade,

pois é o que eu mais quero;

faz sentir a tua bondade e misericórdia

e neles serás conhecido.

E se estás à espera das minhas obras

para atenderes o meu pedido,

dá-mas Tu e realiza-as por mim,

bem como as penas que Tu quiseres aceitar,

e faça-se.

Mas se pelas minhas obras não esperas,

então porque esperas, meu clementíssimo Senhor?

Porque tardas?

E já que, enfim, há-de ser graça e misericórdia

o que em teu Filho te peço,

recebe o meu nada, já que o queres,

e concede-me este bem,

que também é o que Tu queres.

Quem se poderá livrar destes modos e baixos termos

se não és Tu, meu Deus,

a erguê-lo para ti em pureza de amor?

Como se elevará até ti o homem gerado

e criado em baixezas, se não és Tu, Senhor,

a deitar-lhe a mão com que o fizeste?

Não me irás roubar, meu Deus,

o que um dia me deste

no teu único Filho, Jesus Cristo,

no qual me deste tudo quanto quero;

por isso, espero e confio em que não tardarás.

E porquê tanta demora,

se já podes amar a Deus no teu coração?

Meus são os céus e minha é a terra.

Minhas são as gentes;

os justos são meus e meus os pecadores.

Os anjos são meus, e a Mãe de Deus

e todas as coisas são minhas.

E o próprio Deus é meu e todo para mim,

porque Cristo é meu e todo para mim.

Então, que pedes e procuras alma minha?

Tudo isto é teu, tudo é para ti.

Não te rebaixes nem olhes para as migalhas

que caem da mesa do teu Pai.

Sai para fora e gloria-te na tua glória.

Esconde-te nela e goza,

e alcançarás as preces do teu coração.

11.        Deus está sempre ao alcance do suspiro da alma que geme. Daquela que O sabe e O sente como saborosa presença e doce enlace. Da que Dele sabe aproximar-se amorosa e silenciosamente, para Lhe cobrir os pés e a Ele se unir. Da que em Seus braços deseja enlaçar-se para nada perder na oração. Terá sido isso que se passou certa vez em Baeza, quando o Santo após a consagração, tomou o cálice e bebeu o Sangue, e ficou de tal modo absorto que se demonstrou incapaz de concluir a missa, a ponto de uma beata sua penitente, a Madre Peñuela, ter exclamado: – Chamem os anjos para que venham concluir a missa, porque esta frei João já não a termina?