Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro

Querida Glória

Com o passar do tempo acentua-se a fecundidade das vivências que fomos fazendo ao longo da vida. É isto que sinto sempre que tenho oportunidade de rever a minha história, o caminho que Deus escolheu para eu percorrer. Por isso, nada há de inútil, de vazio ou sem sentido…Em Deus tudo está repleto de sentido, ainda que humanamente seja incompreensível. Porque o verdadeiro sentido de todas as coisas provém do amor com que as recebemos de Deus e do amor com que as vivemos. Creio que aqui reside o segredo de qualquer vida que se faz doação a Deus e aos irmãos. E creio que aqui reside o segredo dos teus 50 anos de vida consagrada. É que a tua entrega está marcada com o selo mais autêntico do amor, que é a doação sem limites nem reservas…

Recordo-te como uma das mulheres fortes do Evangelho. Como uma daquelas que não cessa de interceder junto de Deus pelo seu povo. Uma mulher capaz de esquecer-se de si mesma para ir ao encontro daqueles que mais precisam e nem sequer têm força para pedir auxílio. Recordo-te como pioneira destemida a abrir caminho para que a caridade fale mais alto no coração de cada homem e mulher de Ocua. Recordo-te como mãe, com um coração cheio de solicitude maternal para congregar a comunidade num mesmo e único Amor. Recordo-te como mulher de oração, interessada apenas em conduzir-nos ao essencial, ao encontro com Deus na meditação e na oração silenciosa. Recordo-te como mulher da alegria capaz de animar mesmo quando a dor parecia superar as tuas forças. Recordo-te como mulher que não se dá por vencida perante as dificuldades da vida. Como mulher de paz. Quantas vezes não saíste tu ao encontro dos conflitos, para com o teu coração pacificador semear a paz nos corações endurecidos pelo ciúme, pela inveja e o orgulho… Recordo-te como amiga, que não cessa de apontar o caminho do mais alto e do mais perfeito, não poupando aos sacrifícios e ao esforço pessoal. Recordo-te como companheira de jornada, para quem as tristezas e as alegrias, as vitórias e os fracassos eram de todas, porque todas éramos comunidade. Recordo-te como mestra de vida, porque era o amor à vida que te fazia sair de ti mesmo e enfrentar todas as situações que chegavam à missão para as Irmãs resolverem. Recordo-te como mulher da esperança, para quem havia sempre alguma coisa a fazer, mesmo quando tudo parecia perdido… E tantas outras imagens poderiam ser usadas para continuar a descrever as maravilhas, que ao longo destes 50 anos, Deus fez em ti e através de ti.

Não tem conta as vezes que te ouvi chamar de “Mamã Glória”, os sorrisos cheios de carinho e os olhares repletos de ternura aquando da tua passagem. Não têm número as crianças que te seguiam sempre que passavas pela aldeia. Não faltavam as portas abertas e o convite para entrares em cada palhota, para sentares, ou simplesmente para afagares o bebé de cada mamã. Não sei como, mas descobrias as palhotas mais abandonadas e distantes, onde jaziam em velhas quitandas aqueles de quem a doença se tinha apoderado e já não lhes restava outra coisa senão esperar a morte… Para ti não havia tempo de descanso, tempo para a tua vida, porque tu encontravas a tua vida na vida daqueles que precisavam do teu sorriso, do teu carinho, da tua mão amiga, que precisavam de ti. Acima de ti mesmo estavam sempre os outros, fossem eles quem fossem. Contigo aprendi a ser missionária de alma e coração a dar-me sem reservas, sem medo, a fazer da missão a minha própria vida, porque afinal era isto o que a missão era para ti, a tua vida. 

Não sei, se ao longo destes 50 de missionária deste muito ou pouco. Sei apenas que deste tudo, porque te deste a ti mesma. Se foi bem, se poderia ser melhor, não importa. O que importa é que foi o tudo de cada momento presente e, por isso, foi tudo. Deste o teu coração o que fez com que esse povo te sentisse como sua. Destes as tuas mãos às suas necessidades o que faz com que te descobrissem como companheira de vida. Destes os teus pés ás longas visitas ás palhotas à procura dos abandonados e doentes o que fazia com que te vissem como esperança de vida a quem recorrer no momento de aflição. Deste o teu olhar para vê-los como homens e mulheres com a mesma dignidade que tu, por isso eles descobriram em ti uma defensora dos seus problemas. Deste a tua oração a Deus por eles e estou certa de que foi aí que eles descobriram que te tinhas feito igual a eles, porque os apresentavas ao Pai e os confiavas à Sua protecção. Como Jesus tu consagraste-te a ti mesma por eles para que também eles descobrissem a verdade que é o Evangelho. Para que eles se descobrissem iguais a ti, porque eram todos filhos do mesmo Pai, o Pai celeste.

Um dia Jesus foi ao templo com os seus discípulos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedas insignificantes e disse: «Em verdade vos digo esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro o que lhes sobejava, enquanto ela da sua pobreza, deitou tudo o que tinha para viver.»

Vejo-te como esta mulher que deu mais do que os outros porque da tua fragilidade não poupaste nada. Amaste sem medo de não ser amada. Deste a tua vida sem medo de a perder. Fizeste do amor a tua vida e não tiveste medo de dar tudo.

Querida Glória, obrigada porque ao olhar para a tua vida eu vejo que Deus não falha, que posso acreditar Nele. Que como tu posso amar sem medo nem medida e viver só para Ele.

Agora vou falar-te um pouco daquilo que é a misericórdia de Deus para com a minha pobre vida. Há uma frase que creio ser a chave de leitura da realidade que estou a viver e que frequentemente a repito a Deus, que é a seguinte: “Se o Teu coração toca a minha miséria me transformará em ti.” Para mim a misericórdia é deixar que o coração de Deus toque na nossa vida, ame a nossa pobreza e a converta em amor. Não tenho nada, mas com o nada que tenho sinto-me muito feliz. Porque sei que na minha pobreza tenho a riqueza que é Deus. Por isso, vivo tranquila à sombra da vontade de Deus que diariamente me vai seduzindo e enamorando mais e mais.

Não tenho mais nenhum desejo senão o de cumprir a vontade de Deus, de dar a minha vida para que todos os meus irmãos tenham vida e vida em abundância e manifestar ao mundo que vive o Senhor em cuja presença eu vivo. Às vezes parece que Deus me traz na palma da mão, parece que a minha vontade se transformou na Dele e que Ele me faz querer tudo o que me quer dar. Não sei como é. Sei apenas que sou Dele e que ninguém nos poderá separar, porque esta é a vontade Dele para mim. Ele mesmo faz-se garantia da minha entrega, da minha vocação, da minha missão, da minha pobre vida.

Este ano lectivo, que começou em Outubro e termina em Setembro do próximo ano, interrompi os estudos para preparar mais intensamente a Profissão Solene. Só agora comecei a estudar a espiritualidade e o carisma carmelitano com todo o meu ser e vou descobrindo que, no mais profundo segredo, Deus me vai instruindo e fazendo perceber tudo tão claramente como se o experimentasse vivencialmente. Às vezes chego a duvidar da graça que me envolve, porque é tão grande, tão grande que nunca pensei ser possível Deus debruçar-se tanto sobre uma pequena criatura como eu. Não sei o que Deus tem reservado para mim, mas às vezes parece que Ele me quer levar pelos caminhos do infinito. Diante disto só me atrevo a dizer como Maria: Faça-se em mim segundo a tua vontade. Não me resta senão dizer-lhe que sou a “Sua pobre” e pedir-lhe que me dê o que me pede e que me peça o que me dá, porque só Ele em mim e a força do Seu Espírito poderão realizar a Sua vontade plenamente. Confio-me inteiramente à Sua acção amorosa porque melhor do que ninguém Ele conhece os seus caminhos para mim e possui a força para realizá-los.

Santa Teresa numa das suas obras diz: “Sabeis o que é ser carmelitas de verdade? É fazer-se escravas de Deus, as quais, assinaladas com a sua marca que é a cruz, possam ser vendidas como escravas de todo o mundo, como Ele o foi.” Esta é a marca com que Deus assinalou a minha vida. Foi a medida do amor que Deus escolheu para me amar e agora não posso senão dizer-lhe: Pai, eis-me aqui. Configura-me com Jesus, para que vejas em mim a tua filha amada e me possas entregar como resgate de muitos. Atrás da cruz encontrei a maior declaração de amor de Deus à minha vida e à de cada homem, por isso quero perpetuar indefinidamente este mistério de amor, amando a Deus e em Deus os irmãos. Quero começar aqui na terra aquilo que quero fazer no céu, AMAR, só amar. Amar com o coração do próprio Deus, assim poderei já começar a viver o meu céu na terra. Confiada apenas em Deus e na sua infinita misericórdia.

Querida Glória obrigada por seres um sinal de Deus na minha vida. Por me teres falado Dele com a tua entrega sem limites. Por me teres mostrado que quando se ama, não se olha ao esforço e ao sacrifício, porque são eles que dão fecundidade à nossa vida. Fico muito unida a ti no exercício de Amar sem medo nem medida.

Ficamos unidas em Deus, rezando uma pela outra.