Armindo Vaz, OCD

Recentemente foi dito e confirmado com inquéritos que Deus no mundo ocidental é como «um estranho em nossa casa» (escreveu o monge antropólogo Ll. DUCH, Un extraño en nuestra casa [Herder 2007]). Os que assim sentem vivem bem sem Deus: não lhes faz falta. Se os incomoda, que razões estruturais há para a ausência do Deus transcendente na sociedade? Os filósofos e sociólogos da religião apontam como principal razão a do declínio da atenção. Que querem dizer? – «A atenção é alavanca da alma»: fá-la subir a uma esfera superior do nosso ser; «a atenção, no seu mais alto grau, é oração» – dizia Simone Weil, a filósofa que viveu judia no limiar da fé cristã (citada em Byung-Chul HAN, Conversas sobre Deus [Relógio D’Água; Lisboa 2025] 84 e 24 e 11). E concluem que a crise da religião cristã também é em boa medida uma crise da atenção e da contemplação, complementares.

Quando dizemos contemplação, mergulhamos na vida dos místicos cristãos e pensamos nos inumeráveis contemplativos que deram espessura à espiritualidade da Bíblia com a sua experiência de Deus. Pensamos em Maria, mãe de Jesus, que «guardava todos estas palavras [com Jesus e na sua vida], ponderando-as no seu coração», relacionando-as e meditando a presença de Deus na história do seu povo, ligando a terra com o céu (Lc 2,19.51). E pensamos em Maria, irmã de Marta, que, «sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra» com atenção (Lc 10,39). O contemplativo escuta e espera, dá-se tempo para compreender os acontecimentos.

É esse pendor contemplativo que – dizem – está hoje esmorecido. A crise religiosa não se deve simplesmente à falta de fé em Deus ou ao facto de certas expressões de fé (inferno, diabo, pecado original…) suscitarem desconfiança. Nem é Deus que está morto, como gritou o filósofo F. Nietzsche dando voz a um louco (aforismo 125 de A gaia ciência). Está amortecida a capacidade de contemplar o Deus vivo em Jesus.

Ora, são precisamente os filósofos, além dos teólogos, a recomendar que nos aproximemos da vida de forma contemplativa, adoptando a atitude que monges e eremitas cristãos cultivaram desde o séc. III. A atenção contemplativa pode restabelecer a aliança entre o espírito e o mundo, às vezes destruída. Com efeito, na opinião do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, convertido ao catolicismo, «os três monstros da civilização actual são o capital, a digitalização e a IA. Rebaixam o ser humano, reduzindo o espírito a escravo da eficiência… Obscenas são a hiperactividade, a hiperprodução, a hipercomunicação e a hiperaceleração, que são desprovidas de qualquer direcção, ou seja, de qualquer sentido» (Conversas sobre Deus, p. 82). Estas formas de viver, espicaçadas pela redundância da pressa (na qual tudo se tornou de curto prazo, de respiração curta e de vistas curtas), embotam a atenção que poderia tocar o mistério de Deus. Tornam-na superficial, tiram-lhe verticalidade, elevação, profundidade. A alma perde-se no fluxo acelerado de informação e comunicação e perde a relação contemplativa com o mundo. O que conta hoje é o sucesso e o lucro rápidos; todas as necessidades têm de ser satisfeitas imediatamente. «A aceleração monstruosa da vida habitua o espírito e o olhar a uma visão e a um julgamento parciais ou falsos» – dizia F. Nietzsche em 1878 (em Humano, demasiado humano: citado por Byung-Chul HAN, Vita contemplativa [Relógio D’Água; Lisboa 2023] 26). «É precisamente devido à falta de atenção que o mundo de hoje é tão pobre em pensadores e poetas» (B.-Ch. HAN, Conversas sobre Deus, p. 25). F. Nietzsche, que morreu em 1900, também pensava que o facto de o seu tempo ser pobre em cultores do espírito se devia à perda da vida contemplativa, atribuindo-lhe a crise da modernidade.

De facto, «não vivemos somente em crise económica… Em sentido estrito, o que experimentamos na Europa é uma crise do espírito… [em 2012] Desde há dez ou vinte anos, quase nada acontece em literatura. Deparamos com um dilúvio de publicações e, todavia, nota-se um estancamento do espírito. A causa é uma crise da comunicação. Os novos meios de comunicação são admiráveis, mas produzem um ruído aterrador» (Byung-Chul HAN, A agonia de Eros [Relógio D’Água; Lisboa 2014] p. 56, e B.-Ch. HAN, Vita contemplativa, p. 28). Aturdidos com o delírio de informação pululante e atordoados com a embriaguez da comunicação, descuramos a contemplação. No digital, o ser humano encontra-se a si mesmo e não encontra os outros. A digitalização é uma anestesia. As ferramentas digitais são um meio precioso para compreendermos o mundo e a nós próprios, mas exigem discernimento corajoso, que vários países já fazem proibindo às crianças a entrada de telemóveis nas escolas.

Todos os procuradores de Deus o sabem, não só os monges e frades ao recomendarem o silêncio interior e exterior. O ruído das máquinas, dos motores e das frenéticas redes sociais, com todos os benefícios que têm, é intrusivo e invasivo: ataca a alma, mata o silêncio propício à vida do espírito e priva de atenção contemplativa. Como dizia F. Nietzsche, «o ruído mata os pensamentos» (Assim falava Zaratustra [Presença; Oeiras 2010] 270). Com a massa de informações ficamos inteirados do que passa, mas desorientados, porque a ciência Google é aditiva, soma de dados: não é ainda conhecimento, verdade, saber. Os dados e as informações não têm força e alma; e, só por si, são desprovidas de consequências, porque são fragmentos. A vida curta da informação fragmenta o tempo e fragmenta a nossa atenção, que não consegue fixar-se e demorar-se no que muda constantemente. Necessário é fazer a interpretação dos dados, que liga as coisas e dá sentido à informação, dá conhecimento inovador e dá sentido, orientação e mais consciência à vida. Enquanto a informação perde rapidamente o seu encanto e desvanece na chegada da nova informação, a atenção contemplativa interpreta e centra-se no que perdura. Desperta o desejo do novo, tornando-se o limiar do invisível e do inaudito: «Não fixamos os olhos nas coisas visíveis, mas nas invisíveis, pois as coisas visíveis são passageiras, mas as invisíveis são eternas» (2Cor 4,18; 5,7). A atenção contemplativa não é fraqueza. É vida com esplendor, empresta intensidade à vida. É olhar profundo para o lado bom e bonito das coisas. Não é adorno da vida: é o seu melhor. Introduz-nos no mistério da vida, aproximando-nos do divino. Quem sabe se foi um pouco por isto que o crítico do cristianismo F. Nietzsche pedia que entre os melhoramentos a introduzir na vida da humanidade constasse «fortalecer em grande medida o elemento contemplativo» (em Humano, demasiado humano, citado por B.-Ch. HAN, Vita contemplativa, p. 27).

O elogio da contemplação não quer escamotear a necessidade e a virtude do trabalho. Alerta para o facto de que uma vida fixada no trabalho, na produção, no consumo, no desempenho e na eficiência gera um vazio de sentido, retira a sacralidade à vida e profana a actividade humana.

Contemplação, precisa-se, muito particularmente para nos deixarmos envolver pelo sumo mistério da fé cristã, a ressurreição de Jesus, que se pode contemplar mas não filmar: só a contemplação entra nessa super-realidade que tocou por dentro a vida de seguidores e perseguidores de Jesus.