Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro

Vou apenas partilhar consigo algo do que penso acerca dos 2 adjectivos que usou para qualificar aquela que deve ser a atitude fundamental da nossa vida: “Fazei tudo o que Ele vos disser”, “muito difícil e custa muito quando não coincide com a nossa vontade”.

Seria muita ingenuidade da minha parte discordar de si, mas também seria, da minha parte, um grave sintoma de imaturidade na fé e como tal de muita superficialidade não passar da categoria do acidental para a do essencial. Assim, concordando consigo, mas ao mesmo tempo discordando vou tentar mostrar-lhe o que, para mim, esta subjacente a estes adjectivos.

“Fazei tudo o que Ele vos disser” – muito difícil. Se o vimos desde nós mesmos, se o tentamos fazer pelas nossas próprias forças, se o assumimos como algo exterior a nós, como algo que estamos obrigados a fazer, se situamos este “mandamento” no contexto da antiga lei que era necessário observar, damos-lhe o cunho de prescrição obrigatória. Tornando-o para nós um peso insuportável porque entra em conflito com a fragilidade do nosso ser natural. É como se quiséssemos chegar ao céu sem subir o monte. Claro que, sem subir o monte nunca lá chegaremos… Contudo se o transferirmos da ordem da lei para a ordem da Graça ou, se preferir, se o transferirmos da ordem do fazer para a ordem do ser a dificuldade fica anulada em si mesma, porque o fazer tudo o que Ele nos disser, passa a ser, como que naturalmente, a atitude fundamental da nossa existência, enquanto meio mais perfeito e total de realizarmos a nossa vocação última.

Transferida para a ordem da Graça esta prescrição situa-nos no contexto da Nova Aliança, o que significa que não nos é pedido que cumpramos um mandamento como cumprimos uma lei, mas antes que acolhamos o mandamento e o observemos através da Graça. Aqui reside o segredo de fazer a vontade de Deus, na mediação da própria graça. Repare que o que Maria diz ao Anjo aquando da Anunciação não é Faço, mas é Faça-se segundo a tua Palavra. Algo idêntico temos de dizer, quando o Mestre nos pede alguma coisa ou nos manda fazer alguma coisa: “Faça-se”, Faz em mim… Isto implica primeiro o reconhecimento da nossa debilidade na realização da vontade de Deus, aqui todos chegamos, mas depois implica o tirarmo-nos do centro e dar lugar a Deus, isto é, reconhecermos que a Deus nada é impossível e que Ele pode realizar a vontade Dele em nós como quiser, quando quiser e do modo que quiser, desde que livremente o consintamos. Se existe dificuldade é aqui. Porque enquanto não reconhecemos a Deus como o Senhor da nossa vida, o Outro diferente de nós, Aquele por quem vivemos, estamos numa continua batalha, uma batalha connosco, entre a vontade de Deus e as nossas debilidades que a tornam inacessível para nós, e uma batalha com o próprio Deus que se quer dar de todo a nós e que nós inconscientemente recusamos, truncando a dádiva…

Santo Agostinho sintetiza muito bem a realidade da graça ao afirmar: “Senhor dá-me tudo o que me pedes e pede-me tudo o que me dás”. Aqui está patente não só o pedido da vontade de Deus, mas também o pedido do auxílio divino para a realizar, mas ele vai mais longe entrando, analogicamente, na dinâmica da vida intratrinitária querendo como o Filho receber-se inteiramente do Pai e oferecer tudo ao Pai e por isso continua rezando: pede-me tudo o que me dás. Mas o essencial, para nós, neste momento, está em situarmo-nos no contexto da Nova Aliança. Muitas vezes acontece que a vontade de Deus se torna difícil, porque nos esquecemos de que não somos nós que a vamos realizar, quero dizer, somos na medida em que livremente damos o nosso consentimento para que ela se realize em nós e através de nós, mas o “acto em si mesmo” é realizado n’Eles, por Eles e com Eles, porque é n’Eles que “somos, nos movemos e existimos”. Quando somos conscientes disto não podemos afirmar que fazer o que Ele nos disser seja difícil porque é o meio de nos relacionarmos e vivermos já, ainda que muito imperfeitamente, aquilo que é a vida de comunhão com a Trindade, à qual todos estamos chamados.

No Salmo 2 é feita uma afirmação que nos pode ajudar a compreender esta passagem da ordem da lei para a ordem da Graça, que é a seguinte: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.” Nesta frase são feitas duas afirmações. A primeira concernente à revelação da nossa identidade e a segunda concernente ao modo como a vamos adquirindo. Assim, podemos dizer que somos filhos em virtude do “eterno hoje da criação” a que estamos sujeitos. Este “eterno hoje da criação” está em perfeita sintonia com o “fazei tudo o que Ele vos disser”, ambos se referem ao tipo de relação que Deus mantém com as suas criaturas, ou seja, connosco. Ele está constantemente a amar-nos e como amar é a essência e a acção de Deus, ao amar-nos Ele está a “recriar-nos”, a criar-nos de novo. O que significa que para sermos o que estamos chamados a ser temos de situar-nos no “eterno hoje” de Deus e daí abrir-nos à Sua acção amorosa, que de nós espera correspondência. Para compreendermos melhor o “eterno hoje de Deus” podemos recorrer à imagem do Oleiro, apresentada no capítulo 18 de Jeremias: «Palavra que foi dirigida pelo Senhor a Jeremias: 2 “Levanta-te e desce à casa do oleiro, lá te farei ouvir minhas palavras”. 3Desci à casa do oleiro e eis que ele trabalhava no torno. 4Quando se estragava o vaso que estava fazendo, com a argila na sua mão, o oleiro fazia novamente um outro vaso, como lhe parecia melhor. (…) Como a argila na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão…»

Situarmo-nos no “eterno hoje de Deus” exige de nós a liberdade de nós mesmos. Aqui radica um outro ponto de conflito, que cai por terra diante do argumento do Amor. Com frequência criamos uma situação de incompatibilidade entre liberdade e obediência, entre o fazer o que eu quero e o “fazer o que Ele me disser”. Situação fictícia, sem consistência real que revela apenas que não temos bem definida a nossa identidade de Filhos de Deus. Digo-o, não em relação à verdade que acreditamos, mas em relação à verdade que vivemos. Sim, somos Filhos de Deus, mas cada um de nós ao seu jeito, negando muitas vezes, sem nos darmos conta, os fundamentos em que radica a nossa identidade de filhos no Filho. S. Paulo ao dirigir-se a Deus, na sua oração, é muito claro pedindo-Lhe aquilo que podemos considerar como o essencial dum filho de Deus.

«Dobro os joelhos em presença do Pai, 15de quem toda a família no céu e na terra recebe o nome, 16para que vos conceda, segundo seu glorioso tesouro, que sejais poderosamente robustecidos por seu Espírito, com vistas ao crescimento de vosso homem interior. 17Que Cristo habite pela fé em vossos corações, e que sejais arraigados e consolidados no amor, 18a fim de que possais com todos os santos compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, 19e conhecer a caridade de Cristo, que supera todo conhecimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.» (Ef 3,14-19)

Confirmados pelo Espírito no homem interior, Configurados com Cristo que habita pela fé nos nossos corações e, por último, Fundamentados e arreigados no amor, eis as condições necessárias para fazer com que a vontade de Deus se vá tornando natural em nós. Em nenhum momento estas características entram em contradição com “Fazei o que Ele vos disser” pelo contrário pressupõem-no e exigem-no eliminando a dificuldade. A estas condições todos temos acesso pelo dom da Paternidade Divina.
Assim como, o Pai gera o Verbo desde toda a eternidade e num influxo de amor o “faz sair de Si mesmo”, colocando-O diante de Si como Sua imagem, e este, sendo de igual condição do Pai, assume para com Ele uma relação filial, recebendo e recebendo-se do Pai, fazendo com que o Pai exerça a Sua missão divina da Paternidade, assim nós analogamente, temos de nos situar diante do Pai, temos de nos voltar para o Seio do Pai, recebendo e recebendo-nos Dele. Só quando nos situamos diante do Pai, quando reconhecemos que Dele vimos, não no momento pontual do nosso nascimento, mas no quotidiano da vida da fé, é que “fazemos memória da filiação divina”, realizando a nossa própria filiação, e permitindo a Deus Pai que exerça a Sua missão divina da Paternidade. A Paternidade Divina é tanto mais exercida quanto melhor é vivida a filiação. Isto é, quanto mais somos filhos mais Deus é Pai. Não que Ele não seja sempre Pai, Ele é o sempre de igual forma, nós é que O podemos permitir ser mais ou menos nosso Pai, conforme o tipo de relação que estabelecemos com Ele. Desta forma quanto mais nos manifestarmos a Ele como filhos mais ele se manifestará a nós na plenitude da sua Paternidade. Aqui, reside uma das belezas, que me encanta contemplar, das Três Pessoas Divinas, a de se realizarem umas nas outras, na medida em que cada uma vivendo em plena perfeição a relação a que está chamada com a outra permite que a outra o viva em igual grau de suma perfeição, porque mais livre está de si mesma para receber-se da outra e para projectar-se na outra.

Do receber-se do Pai e do projectar-se no Pai, de Jesus, e do dar-se do Pai a Jesus, numa contínua geração, procede o Espírito Santo, vínculo de Amor entre o Pai e o Filho. No receber e recebermo-nos do Pai e no dar e darmo-nos ao Pai “fazemos memória” do vínculo do amor divino, criado pelo Espírito de Amor que habita em nós. Da mesma forma que do Amor do Pai e do Filho procede o Espírito, do amor de Deus por nós, isto é, do deixarmo-nos amar e do amarmos surge acção santificadora do Espírito Divino em nós. Digamos que o espírito Divino se torna presente em nós em “acto”, sendo para nós manifestação do amor de Deus ao mesmo tempo que é manifestação da vontade de Deus, uma vez que Deus é amor e que a sua vontade não é senão amar-nos. O Espírito Divino, enquanto abraço amoroso entre o Pai e o Filho, leva a plena realização as relações de Paternidade e de Filiação. No plano intratrinitário vemo-lo “vazio de si mesmo”, em total liberdade, “como encontro de realização plena” do Pai e do Filho. Ad extra, em nós, Ele completa a sua missão “de encontro, de comunhão, com o Pai e o Filho” e como tal de perfeita realização da Paternidade e da Filiação, levando-nos á vivência perfeita daquela que é a nossa verdadeira identidade: a de filhos no Filho.
«Vede que Amor o Pai nos consagrou ao podermos chamar-nos de filhos de Deus e somo-lo de facto». Podemos considerar este amor, de que fala João, como o próprio Espírito de Amor que em nós leva à perfeição o amor, na medida em que Ele é o Amor do Pai e do Filho. Configurando-nos com o Filho, Ele oferece-nos, no Filho ao Pai, para que o Pai nos reconhecendo como irmãos do Seu Bem-Amado nos assuma como filhos.

É neste vínculo de Amor, que se estabelece entre nós e Deus, que nos é manifestada a Sua vontade. Desta forma, o “fazei tudo o que Ele vos disser” ao mesmo tempo que se torna uma manifestação do amor de Deus por nós, torna-se um convite a deixar-se amar, a despojar-se de si mesmo e a situar-se diante de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, livremente, permitindo-lhes que Eles se recriem plenamente em nós, quero dizer, que se manifestem plenamente em nós enquanto Divindade Criadora, Redentora e Santificadora.

Aqui está o mais puro Amor e o sentido mais profundo da expressão de João: «Amamos porque Ele nos amou primeiro» Sim, amamos, porque ao Amar-nos Eles passam a amar em nós, porque descendo até nós eles elevam-nos até eles, porque esvaziando-nos enchem-nos de Si mesmos, fazendo-nos participar da Sua vida divina.

Em síntese: “Fazei tudo o que Ele vos disser” consiste, apenas, em deixar-se amar para chegar a amar com o mesmo Amor com que se é amado.

2 – “Fazei o que Ele vos disser” custa muito quando não coincide com a nossa vontade. Completou-se há dias aquela que pode ser considerada a 3ª década da minha existência. Que por sinal, quanto a mim, é a mais bonita.
Não estaria demais falarmos da sua beleza a partir do 4 Canto do Servo de Isaías:
«2Ele vegetava na sua presença como um rebento, como raiz em terra seca: Não tinha beleza nem formosura que atraísse os nossos olhares, não tinha apresentação para que desejássemos vê-lo. (…) Mas, se Ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias, e por meio dele o desígnio de Deus há-de triunfar. (Is 53,2.10)»

É esta a beleza de que falo. A beleza nascida da Cruz. A Cruz foi o sinal que deu autenticidade a toda esta década. Daí que nela se encontrem profundos sulcos de dor que “à força do Amor”, isto é, “à força de me deixar amar” converteram-se nos mais puros e luminosos raios de luz, espargindo por todo o lado a Glória de Deus. A beleza da Cruz está precisamente no facto da dor se ter tornado um sacramento visível do Deus invisível, uma manifestação da Glória do próprio Deus.

Quando estava prestes o tempo de se completar esta década, Deus concedeu-me a graça de a rezar comigo, no Espírito, e de me sentir inundada por uma profunda alegria, a de participar “já na Glória de Deus”. Era uma alegria que “me fazia sair de mim mesma e me transferia para Cristo”. Parecia ser demasiado grande para alguém tão pequeno como eu, ser “manifestação da Glória de Deus”.

Esta alegria estava fundada naquelas palavras de S. Paulo: «Tenho para mim que os sofrimentos da vida presente não têm comparação alguma com a glória futura que se manifestará em nós.» (Rom8,18) Que bem as entendia! Que “doces” me sabiam! Que esperança celeste me davam! Se já aqui Deus se pode manifestar tão claramente e com tanto gozo, na fé, não deixando de recompensar com a participação na Sua Glória os nossos pequenos esforços, quanto não será quando cair o véu e virmos o quanto estamos envolvidos pela Glória da Sua graça, com a qual Ele nos amou em Seu Amado Filho, e o quanto Ele a terá enaltecido em nós…

Quando conhecemos o verdadeiro sentido das palavras do Apóstolo, não podemos dizer que a vontade de Deus custa, porque ela é o único meio que temos de participar na Glória de Deus, é o meio mais puro e sublime que Deus tem de se nos revelar, de entrar em diálogo connosco, de nos fazer participar da Sua vida, manifestando em nós a sua Glória.

Não imagina como me sinto feliz de poder dizer com todo o meu ser, todo o meu coração e toda a minha alma: “Que toda a minha glória está na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” , e quanto me sinto privilegiada de ser ela o sinal mais claro da terceira década da minha existência… Não me resta outra coisa senão dar graças a Deus pela Sua infinita misericórdia…e continuar a deixar que seja ela o meu caminho para a união com Deus.

Termino dizendo-lhe que o amor lança fora o temor e tudo o que com ele se relaciona (as dificuldades e os “custos”). Já nada se mede porque o “Fazei tudo o que Ele vos disser” converte-se no meio, ao nosso alcance, mais perfeito, para realizarmos as palavras de João Baptista: «É preciso que ele cresça e eu diminua”.

Sabe, amo a Deus mas quereria consumir toda a minha vida só em amá-LO. A Ele nada é impossível e a mim faz-me bem deseja-LO, porque olhando para a minha pequenez e para a minha miséria corro a procurar refúgio na Sua vontade e no Seu Amor. Confio n’Eles e sei que levarão a bom termo a obra que em mim começaram…