1. Como entender hoje que a «ousadia» é uma chave essencial para compreender a santidade de Santa Teresa de Jesus?

    P. Manuel Reis: O livro A Ousadia da Santidade destina-se aos que querem aprender a arte da santidade na escola de Santa Teresa, que diz: tu «podes, se quiseres, com a graça de Deus; mãos à obra». A coragem da santidade (a «determinada determinação») é a chave essencial da santidade teresiana que consiste «não em pensar muito, mas em amar muito». E porque todos são capazes de amar, todos são chamados à oração, ao «trato de amizade» com Jesus.

    A santidade é um processo em que a graça de Deus e o querer humano se irmanam; foi também esse o maior legado que Santa Teresa deixou à Igreja. Aliás, diz o Papa Francisco: «Teresa é extraordinária, sobretudo, porque é santa». E é santa como nós devemos procurar sê-lo «na fidelidade diária às nossas responsabilidades e obrigações» (como diz o nosso Padre Geral).

    Em vida ela queixava-se de que «dizem que me queria fazer santa e que inventava novidades»; mas não, ela não queria passar por santa, nem enganar o mundo. Antes procurou uma santidade atraente: «quanto mais santas, mais conversáveis com as suas irmãs, para que os outros não se amedrontem da virtude»; procurou uma santidade como fidelidade criativa à tradição dos nossos Santos Padres e com a originalidade e a criatividade atual dos novos santos carmelitas «inflamados no desejo da verdadeira santidade»: «Agora começamos, procuremos ir começando sempre, de bem em melhor», concluía ela.
    Enfim, não deixemos que nos roubem a ousadia de rezar!
  2. Como pode a oração de Santa Teresa iluminar o homem e a mulher de hoje?

    P. Manuel Reis: Quem quiser aprender a «arte da oração» na escola de Santa Teresa encontra nesta «Mestra de oração» a sua doutrina, pedagogia e mistagogia como «trato de amizade», como «o amor recíproco» de Jesus a Teresa e de Teresa a Jesus. Lembremo-nos que a nossa «vocação é o Amor», a sermos amados por Jesus, o verdadeiro Amigo, e a amar Jesus e os irmãos no Coração da Igreja. Teresa defendeu o caminho da Sagrada Humanidade do Senhor para chegar à mais alta contemplação: «olhando a sua vida [temos] o melhor modelo e o melhor amigo». Ela indica-nos o «bom caminho» do «bom Jesus», o Mestre que ensina a orar o Pai-nosso e o amigo presente com quem dialogamos em verdadeira amizade.
    A oração é amizade e orar é amar, é tratar amigavelmente com o Senhor. A consciência de ser amado pelo Senhor suscita e mantem vivo o amor no coração. Atualizemos na consciência que Deus nos está amando e que o nosso amor é resposta ao Seu amor por nós: «À Sua chamada viemos aqui…».
  3. Que aspetos da espiritualidade de Santa Teresa considera mais relevantes para os desafios da Igreja?

    P. Manuel Reis: O desafio maior do nosso tempo é o sentido de se ser Igreja, o «ser-se filha [ou filho] da Igreja». «Ser filha da Igreja é o maior privilégio e título de glória… [é] eco da voz de Teresa e o programa da nossa vida». Enfim, «como é grande, como é única, como é humana, como é atraente esta figura a Mater spiritualium» (Paulo VI)!
    Repare: Teresa propõe uma santidade “útil” para os outros e para «salvar almas»; um «coração missionário», disponível para «ganhar uma alma para o serviço do Senhor»; um denodo pela unidade da Igreja, em sinodalidade ao serviço da missão, porque orar é amar em caridade ao próximo.

e… 4. Que contributo específico quis oferecer ao vasto conjunto de estudos teresianos?

P. Manuel Reis: Este livro é apenas uma revisitação da Santa a partir da do V Centenário do seu nascimento (2015) e do IV Centenário da sua canonização (2022). De facto, o magistério pontifício e o magistério oficial da nossa Ordem realçam a atualidade da sua santidade e do seu caminho de santidade para todos nós. Ela foi Doutora da Igreja Universal, mesmo se, como dizia, «não há virtude de mulher que não tenham por suspeitosa».

«A chama que Jesus acendeu em Teresa continua a brilhar no nosso mundo… Tê-la como amiga, companheira e guia na nossa peregrinação terrena confere segurança e sossego na alma». Aliás, isto permitiu a «conversão da ideia de santidade» como meta inacessível à santidade «na vida quotidiana», de modo que a estrada da santidade é ver Jesus nos outros… Já não fixando-se em alguns gestos heroicos, mas praticando muito amor diário» (Papa Francisco).

Devemos sublinhar que «a santidade da nossa madre Teresa nos orienta no caminho sinodal que a Igreja nos propõe, fazendo andar juntas Marta e Maria» (P. Miguel Márquez, 2022). Trata-se duma «santidade da alegria» fundamentada no ser – «bons amigos» do Senhor – e não no fazer, que é sempre pouquito o que está na minha mão» fazer.

É também uma «santidade da amizade», pelo que a missão do Carmelo Teresiano na Igreja é viver e dar testemunho da relação de amizade com Deus. E é, enfim, uma santidade de missão: a oração é a fonte da missão eclesial, num «mundo que está a arder».
Desejo boas leituras a todos.