Armindo Vaz, OCD
Os salmos foram a essência da oração de um povo, que, confiada ao Alto, elevava a terra até ao céu. Foram compostos para verbalizar um encontro com o divino. Neles, labirinto infinito, tudo é profundo, porque são conversação do ser humano com o divino. Muito lhes devem a glória e a glorificação de Deus: «Seja a minha oração como incenso na tua presença / e as minhas mãos erguidas, como a oferta da tarde» (Sl 141,2). Nessa oração intensa, arte de figurar o invisível com símbolos, metáforas e mais representações, o povo de Israel contemplava o presente e desenhava o futuro, assinalando o desejado e o essencial da vida. Os salmos exprimiram as melhores emoções da humanidade, que, também por via deles, dá a sensação de não ter falido. Serviram – depois de os terem descoberto – aos jovens sábios ou desencontrados, às virgens da vida ou aos ocupados com o relativo, aos perdidos no bosque das distracções ou aos que tinham enterrado a felicidade na perversidade. Servem agora aos que investem no capital das relações humanas, para as humanizarem mais.
Foi por exprimirem de variadas formas os sentimentos da alma humana diante de Deus que eles, depois de terem sido o livro da oração hebraica, se tornaram espontaneamente o livro da oração cristã. A colectânea dos 150 salmos, que une 150 vozes na voz una que identifica um povo, tornou-se o fio condutor orante que une todos os membros das Igrejas cristãs entre si e une a Igreja de Jesus ao povo de Israel que a gerou. Não admira, pois, que os salmos sejam o livro do Antigo Testamento mais comentado na Igreja e “o livro bíblico predilecto da Igreja” (S. TOMÁS DE AQUINO, Super Epistolas S. Pauli, 2, col. 2, e na Introdução do comentário aos Salmos). São “a voz da Esposa que fala ao Esposo” (VATICANO II, Sacrosanctum Concilium, 84). Se bem mais de dois milénios separam os cristãos da composição dos últimos salmos, os cristãos podem continuar a reencontrar-se nos recantos secretos e na melodia infinita das suas vozes plurais. Tão importantes eram para os primeiros cristãos que S. Jerónimo, tradutor de toda a Bíblia para o latim no princípio do séc. V, fez três traduções dos salmos, a última das quais a partir de uma versão na língua original, hebraica. Para os cristãos, o saltério é a resposta ao evangelho e à narração da história da salvação. Já na assembleia judaica sinagogal à leitura de uma narrativa da Torá respondia em sequência a oração de um salmo. Assim faz também agora a primeira parte da liturgia eucarística cristã, em que à primeira leitura responde um salmo alinhado com o tema do trecho lido.
Orações que puseram o tempo em suspenso, os salmos foram voz que manteve desperta a noite com o canto monástico e inflamou o dia sem deixar apagar a chama da vida. A fé que eles reactivam põe em xeque a existência do nada depois da morte: «Tu não me abandonarás no mundo dos mortos, / não deixarás o teu fiel sofrer a corrupção… Deus é a minha herança para sempre» (Sl 16,10; 73,26). Hoje como ontem, a alma orante entrega-se à salmodia, nas noites do mundo, nas noites do espírito, na noite epocal que perpassa a vida da Igreja. E porque os salmos foram a linguagem que Jesus usou na sua oração, como foram a linguagem da oração de todo o povo bíblico, quem quiser conhecer o campo e a qualidade da oração na Bíblia há-de rezá-los. Eles são, depois do próprio Jesus, a melhor escola de oração. Para chegarem a ensinar, querem ser rezados repetidamente, não só porque “é o exercício que faz o mestre”, mas também porque a sua recitação assídua descobre neles conteúdos novos. Repeti-los faz-nos sentir mais e melhor do que aquilo que sentíamos sem eles. Sendo sobretudo oração, adensam a interioridade e enriquecem a comunhão com a humanidade: “Senhor, quero anunciar o teu nome aos meus irmãos…; louvem todos o nome do Senhor” (Sl 22,23; 148,13).
Se todos os salmos nasceram num contexto histórico e social concreto, muitos deles foram escritos e rezados em situações dolorosas e dramáticas da história do povo de Deus e trazem impressas neles as cicatrizes da vida. Por isso, atendendo à situação de aperto em que vivemos hoje, situação aflitiva de guerras absurdas, devastadoras e assassinas, situação em que a fome ameaça pessoas inocentes, situação de angústia em que mais um passo em falso de governantes irresponsáveis nos pode atirar para um abismo sem retorno, as pessoas com menos de 75 anos não terão passado por um momento igual a este para rezar com os salmos de lamentação e de súplica, para exprimir uma dor análoga à dor sentida pelos salmistas. Eles brindaram a tantos orantes as palavras certas para rezarem, a tantos orantes que tinham ficado sem palavras diante de situações de sofrimento e de morte à vista, orantes para quem a recitação dos salmos foi uma forma de sobrevivência. Quando eles se soltaram do salmista pela recitação, aliviaram-no: “Clamei por ti, Senhor, meu Deus, e Tu curaste-me. / Do abismo da morte retiraste a minha alma, Senhor… / Converteste o meu pranto em dança… / Por isso, o meu ser cantar-te-á sem cessar; louvar-te-ei para sempre, Senhor, meu Deus” (Sl 30,3-4.12-13). Aliviaram-no. Agora podem curar outros orantes, como ressonâncias intensas da sua dor, transfigurada pelo amor com que Jesus a aceitou pela humanidade.










