Armindo Vaz, OCD
Como víamos celebrando o Natal de Jesus, por muitas outras razões que procuremos para a encarnação de Deus nele, na Bíblia só o seu amor nos sai ao caminho: fez-se homem em Jesus por amor. A Teologia é que descobriu outra razão no suposto pecado de Adão, inexistente (para compreender essa inexistência, remetemos para o livro Criação divina sem pecado humano, Paulinas Editora 2023). É mesmo significativo – interessante para os carmelitas – constatar que na longa romanza em que S. João da Cruz canta a história da salvação desde “o princípio” até ao nascimento de Jesus, a encarnação está pedida e prevista no âmbito da criação; sente-se e acontece no desenvolvimento da história da salvação e como ponto culminante dela. Para suposta estranheza dos teólogos contemporâneos, o teólogo místico carmelita não diz que a encarnação do Filho de Deus em Jesus foi causada por um pecado do homem. Nem sequer fala de pecado. De que fala então? Em linha com S. Paulo, fala de amor a vários níveis, de amor a Três, amor que “no princípio” concebe o plano de salvação e amor que o executa: “No princípio morava o Verbo, / e o Verbo em Deus vivia… / Assim a glória do Filho / É a que no Pai havia… / Como o amado no amante / Um no outro residia, / E aquele amor que os une / No mesmo coincidia… / Três pessoas e um amado / Entre todos três havia; / Um amor em todas elas / Um só amante os fazia: / O amante é o amado / Em que cada qual vivia… / Pois o amor, quanto mais uno, / Tanto mais amor fazia. / Em aquele amor imenso / Que de ambos procedia / Palavras de grande gozo / O Pai ao Filho dizia: / «Uma esposa que te ame [Humanidade], / Meu Filho, dar-te queria, / Que por teu amor mereça / Ter a nossa companhia» / «Muito te agradeço, Pai, / – O Filho lhe respondia – / À esposa que me deres / A minha luz eu daria…» / «Faça-se, pois, disse o Pai, / Teu amor o merecia». / E neste dito que disse / o mundo criado havia”. E, depois de longa espera da encarnação do Filho [no fim da romanza], o Pai… “chamou então um arcanjo / Que Gabriel se dizia / E enviou-o a uma donzela / Que se chamava Maria…, / Na qual a Suma Trindade / De carne o Verbo vestia. / E, embora de três a obra, / Somente num se fazia; / Ficou o Verbo encarnado / Em o ventre de Maria. / E o que tinha apenas Pai, / Também já Mãe possuía”.
Como se vê, Deus trino não é um dogma estático, nem um deus abstracto. É Deus em acção e em movimento de amor na história humana. Já o Antigo Testamento, a Bíblia hebraica, diz que caminhava no meio do povo e perdoava o seu pecado histórico; era «Deus para nós». No Novo Testamento conjuga-se em três Pessoas, um Deus cujo ser é amar; e no momento em que deixasse de amar deixaria de ser. E o seu amar, chegado até nós em Jesus, é salvação. O seu amor é que nos salva: “Deus não mandou o Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele; quem crê nele não é condenado” (Jo 3,17-18).
E agora podemos arredondar esta reflexão. Costumamos dizer – também porque o Novo Testamento o diz – que Jesus, enviado do Pai, nos veio libertar e nos liberta do nosso pecado pessoal pelo Espírito Santo: “o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Mas este acto de fé poderia entender-se assim: Jesus salvou-nos pelo amor, pelo seu amor, que era amor de Deus; e tanto amor perdoou e cancelou os pecados: “Ele/Deus mesmo nos amou enviando o seu Filho como vítima de perdão dos nossos pecados” (1Jo 4,10), como se o perdão dos pecados fosse uma concretização do amor que salva. De facto S. Agostinho remata a este propósito: “Onde há amor não é preciso o perdão, porque quando amas, amas e basta”. Deus salva com o seu Amor. O amor é o poder mais forte que existe em Deus: é no amor que Ele é omnipotente. E tanto amor anula o pecado, como o fogo purifica as impurezas do madeiro.
Sublime realidade! De graça! Graças a Deus, Pai, Filho e Espírito! E nós, que temos de fazer? Um acto de fé e de adesão a Jesus: “Tanto amou o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê nele não pereça mas tenha a vida definitiva”. Nós só conhecemos bem o excesso do amor de Deus para connosco quando o acolhemos e vivemos à medida e ao estilo do evangelho de Jesus. Foi esse conhecimento que o evangelho deu à vida dos santos. A fé em Jesus já é experiência de vida, enquanto abertura ao Amor, ao Espírito de Deus Pai.










