Armindo Vaz, OCD

“Tanto amou Deus o mundo que lhe deu o seu filho unigénito” (Jo 3,16).

É uma verdade central da fé cristã celebrada na liturgia do Natal. Perante o dom do seu Filho na encarnação, perguntavam acaloradamente os teólogos na Idade Média: porquê Deus se fez homem no Filho? A controvérsia (mais viva entre dominicanos e franciscanos) teve como resposta clássica: Deus fez-se homem em Jesus para nos redimir do pecado original… As perguntas sobre Deus são saudáveis: tornam viva a fé, que, se não for uma fé pensada, é uma fé débil. Mas há perguntas sobre Deus que podem ser estragadas pelas respostas. Esta era uma das respostas que estragava a legítima pergunta posta a partir da afirmação lapidar do evangelho. Porquê Deus nos deu o seu Filho? A resposta correcta está na afirmação: Porque “tanto amou Deus o mundo”… Foi nessa linha que o franciscano escocês Duns Scoto aprofundou a resposta, dizendo que o motivo fundamental da encarnação foi o amor de Deus para connosco. Aliás, teria bastado completar a afirmação do evangelho de João com a espiritualidade de S. Paulo nos hinos cristológicos das cartas aos Colossenses e aos Efésios, sobre o primado de Cristo Jesus no plano da salvação dos humanos por parte de Deus: aí Jesus Cristo é visto por Paulo como o primeiro pensado e o primeiro amado por Deus, o “Primogénito de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas…, tudo foi criado por ele [enquanto Palavra de Deus] e para ele” (Cl 1,15-16).

Para Paulo, a encarnação do Filho de Deus em Jesus, completada na sua ressurreição, estava prevista desde sempre, independentemente do comportamento do ser humano; foi a coroa da criação, que suscitava uma criação nova: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nele nos abençoou… e escolheu antes da fundação do mundo para sermos santos e imaculados na sua presença, no amor, escolhendo-nos de antemão para sermos seus filhos por adopção, por meio de Jesus Cristo…; nele fostes selados com o Espírito Santo prometido” (Ef 1,3-14: aqui está a Trindade em acção no projecto eterno de salvação divina). Paulo não diz que a encarnação foi desencadeada por um pecado mas pelo amor de Deus, aos humanos.

A encarnação não foi uma correcção do rumo, um recurso de emergência para reparar uma avaria do ser humano acidentado por um suposto pecado de Adão no princípio da história humana, pecado que em nenhum texto das Escrituras se diz ter acontecido. Se tivesse sido reacção ou resposta ao suposto pecado de Adão, então o plano divino de salvação que incluía a encarnação teria sido condicionado, activado pelo pecado humano, em vez de querido por iniciativa divina e por puro amor gratuito desde sempre, para em Jesus mostrar ao ser humano quem é Deus e o que Deus quer do ser humano.

Em Jesus, em quem encarnou o Filho, fomos feitos “filhos no Filho”. Ele era a manifestação suprema do amor de Deus pelo homem. E essa manifestação era necessária, independentemente de um pecado humano historicamente cometido. Em Jesus, o amor de Deus tomou forma humana, pôs no tempo um gérmen de eternidade, pelo que, a partir daí, a meta de cada ser humano se pode colocar para além do tempo. Jesus era/é o amor de Deus em forma humana, para poder amar e ser amado dentro da nossa história.

Parafraseando o prólogo do evangelho de João, podemos dizer: no princípio era o Amor e “o Amor fez-se carne” e habitou em nós. Paulo cunha uma expressão à medida, para esta nova modalidade do amor de Deus: aos Romanos exalta “o amor de Deus que é/está em Cristo Jesus” (8,39). Afirmação densa! Como se dissesse: o Amor estava em Deus; mas pôde e pode ser visto, sentido, tocado, provado em Jesus! Só na/pela experiência do amor de Deus podemos acreditar bem n’Ele. 

[continuará]