Frei João Costa, OCD

Sem esgotar o tema, apresenta-se uma breve reflexão sobre os Seminários. Num primeiro momento aborda-se a necessidade, e até urgência, em manter esta inadiável instituição eclesial para o bem de todo o corpo da Igreja; na segunda parte fala-se de uma realidade eclesial concreta onde, afinal, ainda que pareça o contrário, já chegou o inverno. Não se fala aqui da renovação do modelo de Seminário – o que poderá ser tema para uma reflexão ulterior – mas parece-nos que, mais do que nunca, o modelo sacerdotal de que necessitam as comunidades eclesiais é a de um servidor do Evangelho ao estilo de Jesus que sempre manifestou a sua preferência pelos pequeninos e os frágeis, e sempre soube abaixar-se ao nível do seu olhar para melhor os compreender, levantar e servir.

I

Algures ao se iniciarem os frios do outono, os católicos dedicamos uma semana a orar pelos Seminários. Ainda que os lábios mais se nos abram nesses dias, a necessidade é de sempre porque a Igreja não pode dispensar o sacerdócio ministerial a fim de pescar pessoas, retirando-as das águas sujas, fundas ou revoltosas. Provavelmente hoje mais que nunca é preciso quem se atire às frias águas para delas resgatar quem nelas se afunda, livrá-las do perigo de se afogarem e ressuscitá-las de todas as ameaças da morte.

Mas o que significa esse atirar-se às águas frias?

Significa muitas coisas; que onde reinarem laços de morte aí se justifica a presença de um nadador salvador, de um lutador pela vida, de um sacerdote. Veja-se: a sua pregação é a proclamação do anúncio evangélico – e não há palavra mais libertadora; a orientação de comunidades a ele confiadas significa que ele sabe conduzir cada um ao lugar das águas boas e salutares – as que dessedentam, lavam e curam; a acção de acompanhamento espiritual diz que ele sabe assinalar a Estrela Polar que pode orientar os passos de cada um; apresentá-lo como administrador dos sacramentos é dizê-lo portador e difusor dos sinais sensíveis da graça, para que por eles Cristo actue em cada um de nós, nos cure e nos salve; e é animador da caridade – homem de serviço que encoraja os irmãos, de acolhimento e de reconciliação, conselheiro esclarecido e testemunha da esperança; aquele que lava os pés aos outros, e sofre com os doentes e os frágeis, os marginalizados e os que estão caídos à beira do caminho. É de si para esquecer-se de si, e de Deus para dar-se, abandonando-se, tantas vezes isolado, cansado e esquecido… mergulhado em tão profundo stress interior que se alimenta do pão do medo e da angústia.

(Não sou eu que o digo, é um bispo…)

O sacerdote é o sacerdote; cumprir os desígnios acima – que ali só sumariados estão, e nem se elencaram todos!… – é porque ele é outro Cristo. E não o é; ou melhor, em sua fragilidade de espelho baço nem sempre o é. Frequentemente, o sacerdote corre tanto ou mais que os demais, que chega a não ter tempo para se cuidar e cultivar a si mesmo; e cai no desânimo existencial, no cansaço psicológico, no fracasso moral, na desmotivação espiritual, no individualismo, na falta de oração e de compromisso pastoral.

(Do diagnóstico do mesmo bispo…)

Oremos e lutemos contra estes sinais que asfixiam a vida, a beleza e a saúde espiritual dos sacerdotes de hoje.

Falando assim – e não há outra maneira de falar… –, parece que falamos de heróis que não o conseguem ser, mas deveriam sê-lo, tão ousado é o programa de vida; tão ingente é a tarefa para homens tão pequeninos… Aliás, ser-se bem pequenino (e aceitar sê-lo…) é, porém, o ponto de partida para a proveitosa acção do sacerdote de Cristo.

Fazer-se pequenino foi sempre o método do apóstolo São Paulo: «Fizemo-nos pequenos no meio de vós» (1Tessalonicenses, 2:7)! A grandeza do maior missionário cristão foi mesmo essa: quando se apresentou para evangelizar, apresentou-se pequenino. Com modéstia, isso o confirma ele, ao mostrar-nos como fazia quando se achegava para evangelizar.

Sim, na pessoa do Apóstolo, o grande fez-se pequenino, porque ele não se engrandecia como o sol, antes se humilhava como o chão.

O Apóstolo (e Silas) chegou a Tessalónica, hoje, Salónica, actual Grécia, muito provavelmente no ano 50. Àquela data aquela era uma cidade florescente, um importante empório comercial, político e cultural, centro atractivo de vários povos, atraídos pelas oportunidades de comércio, trabalho e prazer. Era uma verdadeira capital gozando de prosperidade, poder sem precedentes nem comparação.

A diversidade da população reflectia-se também no fulgor com que se vivia a religião: além dos cultos locais às divindades do Olimpo grego (Zeus, Apolo, Ares, Afrodite, Dioniso…), a presença de cultos a divindades estrangeiras atestava-se também na presença de templos romanos a Júpiter, Febo, Martes, Vénus; além do culto obrigatório ao imperador (salvador e messias), às divindades egípcias (Serápis, Osíris, Anúbis), asiáticas (Átis e Cibele), também o judaísmo era reconhecido como religião lícita. E não faltavam ali as novas religiões de mistérios vindas do Oriente, cujos pregadores circulavam pelas ruas da cidade vendendo o êxtase espiritual.

À chegada do pequenino Apóstolo, Tessalónica era um grande mercado religioso, num contexto verdadeiramente cosmopolita. Ali confluiam riqueza, grandeza, beleza e glória, farra e prazer a jorros. Porém, cerca de dois terços da população era escrava, vivendo à margem da sociedade. Foi a estes que Paulo mais se dirigiu, pois tudo leva a crer que os primigénios membros daquela comunidade cristã eram pessoas empobrecidas e sofridas que viviam na periferia, em extrema pobreza, trabalhando noite e dia com as próprias mãos, alguns como carregadores no porto. Quem, pois, se admira que ansiassem por liberdade, segurança e vida digna: ter comida, roupa e moradia decente, possuir direito de cidadania e participar das decisões da comunidade?

Paulo chegou ali, e para lhes falar da salvação de Jesus Cristo olhou-os olhos nos olhos; pelo que se eles andavam derreados também ele se derreou – não lhes falou de cima, mas desde o chão a que andavam colados!

Rezemos, pois, pelos nossos seminaristas. Oxalá tenham um futuro brilhante. E oxalá saibam sempre ajoelhar-se, quer diante do Santíssimo Sacramento, quer junto à cama dos doentes, na choupana dos pobres e nos palácios dos ricos.

Precisamos de padres grandes como o sal diluído!

II

Em 1563 a Igreja Universal decidiu-se pela instauração dos Seminários. Assumido o desafio, o primeiro seminário da arquidiocese de Braga – o de São Pedro; ficava no Campo da Vinha – recebeu os primeiros alunos em 1572. Os anos e os séculos foram passando, os edifícios foram-se mudando ou renovando; o Seminário, porém, nunca saiu de moda, é sempre necessário. Nunca é só dos seminaristas ou só dos formadores, ou só dos bispos e dos seus conselheiros – é de todos e para todos. É prova da permanente solicitude do coração de Deus para com o Seu povo. O Seminário Faz Sentido, mas para quem? É que os jovens parecem não conhecê-lo, e se conhecem, não entendê-lo.

Aterremos um pouco mais, porque a realidade é o chão de que não podemos dispensar-nos. Veja-se:

i) Celebrei o Dia dos Seminários numa diocese que se posicionou entre as primeiras do mundo a instituir o seu Seminário – não é coisa de somenos! Ora, se na Igreja, há pouco mais de 450 anos também soubemos enfrentar desafios e rasgar avenidas, hoje não o saberemos?

ii) Os Seminários não passaram de moda, não deixaram de ser indispensáveis. Aliás, hoje, ainda precisamos mais deles. Ouvi dizer que, durante séculos, os Seminários foram verdadeiras mini-cidades. Já não hoje; hoje caberá quase tudo num pequeno prédio! Na verdade, em pouco tempo, passamos de um exército para uma pequena trupe, de ser uma fábrica de pão para um fermento minguado. Então, e vamos assustar-nos?

iii) Li um texto do Pe. Joaquim Félix, de Braga, que me fez pensar. Li que das 20 dioceses portuguesas, só 16 enviam seminaristas para a Faculdade de Teologia da UCP; e que, neste ano de 2023, destas 16 só oito inscreveram seminaristas no primeiro ano; as outras oito, não inscreveram algum. A saber:  Braga inscreveu 2; Bragança1; Coimbra 1; Guarda 2; Lamego 2; Lisboa 2; Porto 4; Viana 1. Anote bem: em 2023, em todo o Portugal, as nossas dioceses só conseguiram inscrever treze seminaristas no primeiro ano de formação! (E todos os Institutos Religiosos, três!)

As outras oito dioceses estão sem algum aluno no primeiro ano de formação; são elas: Aveiro, Leiria, Madeira, Portalegre, Santarém, Setúbal, Vila Real e Viseu!

iv) É ainda de registar serem várias as dioceses portuguesas que só têm um seminarista a frequentar o (longo) percurso de formação! E é muito de esperar que esse persevere, de tão necessário ele é!

v) Ora, ainda o ano não acabou e, só na diocese de Braga, já morreram onze guerreiros, digo, sacerdotes! Repare-se: em todo o Portugal entraram apenas 13 seminaristas – que demorarão quase dez anos a formar-se!… – e, só na de Braga, já morreram onze sacerdotes!

vi) É verdade que a cidade de Braga não tem falha de sacerdotes – mal seria, pensa-se! Mas também é verdade que, muito perto de nós, na margem do lado de lá do Cávado – a escassos seis ou sete quilómetros daqui… – há já bastos anos que cada um daqueles párocos cura seis e sete paróquias!

vii) Numa outra diocese, visitei uma velhinha de 83 anos. Disse-me: – «Chegou uma carta do Senhor Abade, mas não consegui entendê-la. Você que é dos dele, explica-ma?». O pároco é novo, menos de 30 anos, recém-chegado a um grupo de paróquias que, nos últimos 60 ou 70 anos teve, sucessivamente, três párocos, todos falecidos bem entrados nos oitentas e picos…  (uns incansáveis guerreiros, garanto eu!) Ora, acontece que a solicitude do bispo diocesano lhes enviou um pároco jovem e activo, que vê e sente a Igreja de outra maneira. É certo que é pastor como os antecessores; mas o que mais seria de espantar é que, nas práticas, fosse como eles… Por agora, lá vai ajuntando forças, tocando o rebanhinho, e fazendo as mudanças que pode, e mais pronto que tudo apresentou-se ao escasso rebanho depois de recensear as famílias. E, na sequência endereçou-lhes – mesmo às que não entram pela porta da igreja… – uma carta pedindo-lhes os direitos paroquiais que lhe são devidos. E é que são! Porém, a exclamação daquela velhinha que até é santa, foi: «Lá pedir pediu ele! Para escrever cartas teve tempo! Mas para me vir visitar, confessar e trazer Nosso Senhor, isso é que não!…».

(Como sou padre, e o interpelado era eu, saibam que dei razão a ambos!)

A meio daquela semana escutei uma bela homilia de D. José Cordeiro, onde referiu que numa recente visita pastoral fora interpelado por uma menina com quem, prontamente, dialogou. Quando ela percebeu que bispo é quem manda nos padres, e que os padres «fazem ou dão missa», ela fez um «Ahhhh!!!» tão grande e expansivo que o bispo quase se assustou! E aí, terno, interrogou-a ele:

– E tu andas na catequese? Vais à Missa com os teus amigos?

– Não! Nem m’apetece! Nem sei o qu’isso é!

Logo o Senhor Bispo, solícito, mas talvez com alguma dificuldade com a linguagem mais assertiva que o caso exigia, tratou de se lhe explicar. E a miúda ouviu-o para, seca, logo rematar:

– Isso não deve ser lá grande coisa! Não estou mesmo a ver para que sirva! Se servisse para a minha felicidade os meus pais já me teriam levado à Missa, como me levam ao Dragão, aos concertos da Bárbara Tinoco e da Bárbara Bandeira; à exposição dos canitos, às festas, e a tudo que dê para fazer tik-toks.

Olha que dá que pensar: para que (nos) servirá uma missa? E, afinal, para que são precisos os seminaristas para tanto tempo e tantas energias se perder com eles?