Frei João Costa, OCD
Os pais de Santa Teresinha, Zélia e Louis Martin, casaram-se em 1858 e viveram uma vida matrimonial de 19 anos, até à morte da esposa. Inicialmente o projecto do casal era viver a continência no casamento, mas abrindo-se ao projecto de Deus acolheram nove filhos – Zélia, empreendedora, empresária e mãe, será, sobretudo, mãe; escreverá a propósito: «Amo loucamente as crianças; nasci para tê-las», pelo que todas as suas energias eram canalizadas para a educação da prole, tomando sempre por base a confiança.
De 1860 a 1873 nasceram-lhes nove filhos: Maria (1860); Paulina (1861); Leónia (1863); Helena (1864); José Luis (1866); José João Baptista (1867); Celina (1869); Melânia (1870) e Teresinha (1873). Dos nove morrerão os dois meninos – José Luis de cinco meses; e José João Baptista, de oito –; e duas meninas – Helena, aos cinco anos; e Melânia com pouco mais de um mês –.
A abundante correspondência de Zélia revela o profundo afecto existente entre o casal, e as alegrias e sofrimentos brotando ao ritmo dos nascimentos e mortes dos filhos. Publicando-se este texto no dia de Fiéis Defuntos reflectiremos sobre a vivência da morte e do luto, e a relação com os defuntos naquela família abençoada, muito embora a morte a tenha visitado precocemente, por quatro vezes, na pessoa de quatro crianças.
Nenhum pai é para ver ir os filhos à frente. Zélia e Louis, porém, viram. Acompanhemos os sentimentos do casal santo que nunca roçaram nem a histeria nem o desespero, antes a serenidade e a esperança e, por fim, também os de Teresinha.
Zélia e Louis sempre se sentiram profundamente abençoados com o nascimento dos nove filhos. A cada morte precoce correspondeu, naturalmente, um doloroso período de luto. Porém, jamais enfraqueceram a sua confiança na bondade do plano de Deus, antes mais se abandonaram, amorosamente, à Sua vontade. E é assim que o seu exemplo santo representa um modelo de como enfrentar a morte e consequente ausência de familiares e amigos.
Como se verifica no elenco acima, quando Teresinha nasceu já os quatro irmãozinhos haviam morrido; ela, sempre débil de saúde, seria a quinta, aos 24 anos de idade. Tão piedosa quão carinhosa, Zélia, a mãe, soube viver e ler o mistério da morte e a enquadrá-lo no coração das filhas sobreviventes.
Antes de nascer o primeiro menino o casal tinha já quatro filhas; por isso, todas as noites, a pedido da mãe, «as mãos das pequenitas juntavam-se para pedir a São José um irmãozinho que oferecesse a Hóstia Santa e fosse para terras distantes evangelizar os pagãos». Num dos partos mais felizes o menino nasceu mas, seis meses depois, seria o primeiro a falecer. Sem outro arrimo que não a fé, Zélia resignou-se com a vontade de Deus: «Ele no-lo deu. Ele no-lo tirou»!
Tão só nove meses depois, em pós doloroso parto, nasceu José João Baptista. Em palavras da mãe era «muito forte e muito vivo». Contudo morreria oito meses depois, soçobrando a três de bronquite agravados por uma crise intestinal tão aguda que fizeram a mãe suplicar o fim do calvário do filho: o menino «passou uma noite de cruel sofrimento e eu pedia, com lágrimas, que Nosso Senhor o levasse. Foi um alívio quando o vi dar o último suspiro». Deitando-o no seu caixãozinho, banhada em lágrimas, a mãe coroou-o de rosas brancas, e por entre lágrimas e suspiros, confortava-se: «agora semeias em lágrimas, mas hás-de recolher na abundância da alegria do Senhor!».

O golpe mais duro, também o mais inesperado, aconteceu em finais de fevereiro de 1870: Helena, de cinco anos, «a preferida de toda a família», morreria «após uma crise que durou um só dia e sem que o médico pudesse adivinhar a gravidade do mal». Banhada em lágrimas, Zélia assistiu a filha naquelas horas que se prolongaram pela noite dentro até às dez da manhã. Despertando em meio do torpor a menina soergueu-se, rodeou o pescoço da mãe com os dois bracinhos e consolou-a como pôde, dizendo-lhe: «Minha pobre mãezinha, que esteve a chorar!»… E se grande tinha sido o desgosto pela morte dos dois meninos, «a perda desta causou-me um ainda maior. Agora que eu começava a apreciá-la, de tão meiga e desenvolvida…».
E nada mais tendo, nem melhor podendo para debelar a dor familiar, Zélia em conformidade com a sua fé, oferecia para consolo do Coração de Deus «o seu coração esmagado por uma prensa».
Naquele mesmo ano faleceria, Melânia, de pouco mais de um mês de vida. Não tendo leite para a filha, Zélia confiou a bebé a uma ama que «a deixou definhar». Quando a mãe disso se apercebeu, já nada pôde fazer senão o funeral sob terríveis sofrimentos.
Que poderia consolar o coração daqueles pais, ou quem lhes atenuaria o luto pela perda dos quatro meninos? – Fruto dos veios da terra não conhecemos nenhum bálsamo; e um só se lhes impôs: a esperança do Céu! Além disso, algumas testemunhas dizem-nos que Louis e Zélia «conservavam gravadas na retina as feições queridas dos desaparecidos, e consagravam-se aos que lhes ficavam, unindo, em magnífica solidariedade, a família terrena e a família que vivia no mundo melhor, sendo esta que protegia a outra».
Perante a morte, ainda mais se de um bebé ou de uma criança, cessam as palavras até para fazer perguntas. Pela benéfica força da graça de Deus, porém, podem florir pequeninas flores de esperança nos corações que doridos ficam. E a fragância dessas florinhas poderá ajudar a confiar que – adiantando-se os filhos aos pais para as moradas eternas – por desígnio de Deus, eles são constituídos como intercessores dos que restam na peregrinação terrena. Isso confirma Zélia numa carta: «quando fechava os olhos dos meus filhinhos nunca lamentei os trabalhos e preocupações que tinha sofrido por eles. Muitas pessoas diziam-me: “Mais valia não os ter tido”. Mas eu não suportava essa maneira de falar, porque eu não os tinha perdido para sempre: a vida é curta e cheia de misérias e havemos de nos encontrar lá em cima!».
Essa esperança, sem analgésicos, confortou e aliviou o coração de Zélia e Louis, «aqueles pais inigualáveis», e passou admiravelmente para o coração das cinco meninas. Isso se pode ver, por exemplo, na vida e na fé de Teresinha. Certo dia, estando já ela no carmelo, uma irmã perguntou-lhe porque sempre sorria, mesmo diante das grandes tribulações eu sofria. Ao que Florinha respondeu: «A dor é minha. O meu rosto é dos outros. Convém que eu sorria».
E sorria e confiava. Confiava-se também à «comunhão dos santos» que é um artigo da fé cristã pouco recordado. «No início da sua vida espiritual», na volta dos treze para os catorze anos, e na sequência de um retiro, viveu uma terrível crise de escrúpulos que se negava a todo o cuidado. Não lhe advindo solução de quadrante algum – Maria entrara já no carmelo… –, confessa ela, «dirigi-me aos quatro anjinhos do céu, pois pensei […] que teriam compaixão da sua pobre irmãzinha que tanto sofria na terra. Falei-lhes com simplicidade de criança. A sua partida para o céu não me parecia razão suficiente para que me esquecessem. Ao contrário [sentia que] deviam dispor dos tesouros divinos para me conceder a paz. A resposta não se fez esperar. Em pouco tempo a paz inundou a minha alma».
* Publicado no jornal Diário do Minho de 4 novembro 2023










