Armindo Vaz, OCD
Os salmos são bem conhecidos. O essencial, porém, não está no conhecimento ou na informação sobre eles. Está na história que os gerou e nos conteúdos que suscitaram. Até poderiam ser declamados como monumentos literários, como poesia com uma vertente artística notável, de uma cultura pré-clássica. Mas não é esse o principal interesse deles. Mais emocionante é pensar que foram a oração de um povo ao longo de dez séculos e, depois, a oração de Jesus.
Se o espírito e a realidade da oração estão omnipresentes a toda a Bíblia hebraica, os salmos são o seu livro de oração por excelência, onde ela reina soberana, em toda a sua imponência e em todas as formas. Recolhem todos os géneros de oração: hinos de louvor nas festas e em circunstâncias de alegria, súplicas e lamentações individuais e colectivas, orações em situações de perigo e de acção de graças, orações para celebrações régias (de entronização e sagração do rei: Sl 2; 110; 20-21; 61; 72; 18; 28; 63; 101; 132; 144; 45), “cânticos das peregrinações/subidas” (Sl 120-134, porque a peregrinação para o templo de Jerusalém era sempre entendida como subida, quer na geografia física, quer em sentido metafórico), salmos sapienciais ou meditativos… Apesar desta variedade, o judaísmo qualificou o livro inteiro dos salmos com o título Tehillîm–Louvores. Louvor a Deus por tudo o que os orantes viam como obra do seu amor: “O Senhor é grande e digno de todo o louvor” (Sl 96,4). Os responsáveis pela atribuição do título sentiram que o louvor é em tudo uma necessidade premente do amor: nem há nada mais agradável do que louvar o que se ama.
Podemos pensar então que os salmos são a alma hebraica inteira em oração, oração em estado puro: além de formularem pedidos a Deus, às vezes de forma dramática, frequentemente glorificam-no, pela beleza e grandeza contemplada na natureza, pelos feitos divinos realizados na história. “Em nenhuma língua do mundo a glória de Deus foi cantada como nos salmos” – disse o rabino Josué ben Levi no séc. II d.C. (Talmude de Jerusalém, Sukhot III, 12). Eles fizeram cristalizar o melhor da fé do povo de Deus durante um milénio; consubstanciaram a fina flor da sua espiritualidade, expressão da sua real aliança com Deus. São o espelho límpido da sua interioridade. Segundo a expressão de 1Cr 16,42, são a “música de Deus”, executada solenemente no templo. São o livro de Deus e o livro do homem. Brotaram do espírito do homem a dirigir-se ao Espírito de Deus.
Realmente, os salmistas não se cansam de cantar o Deus transcendente e imanente, porventura conscientes de que a referência ao absoluto nos torna mais humanos e nos salva. Quem tem empatia com as pulsações humanas e religiosas dos salmos, quem vibra ao ritmo das «subidas» para Deus que neles palpitam, detecta um vivo sentido de Deus. Estão, de facto, cheios de Deus: na sua grande intensidade de pensamento sinfónico, falam a Deus, louvando e lamentando-se, suplicando e protestando, agradecendo e adorando. É por Ele que eles clamam. É a Ele que eles se queixam. É a Ele que eles celebram. A própria pergunta pelo ser de Deus tornava-se objecto de pura oração: «Quem mais tenho nos céus [senão a ti]? E, tendo-te a ti, não desejo nada sobre a terra…; para mim, felicidade é estar perto de Deus» (Sl 73,25.28). É sobretudo nos salmos que se nota que o Deus de Israel é um Deus em relação dialogal com o ser humano. Os salmos foram surgindo, não da busca de verdades, mas da busca de Deus: «Diz de ti o meu coração: “busca o seu rosto”; sim, Senhor, o teu rosto eu procuro; não me escondas o teu rosto» (Sl 27,8-9). Não são doutrina sobre Deus. Falam a Deus, coisa que também supõe deixarem falar Deus. Aprofundam a verdade de que Deus é alguém que se pode escutar e invocar. Pouco a pouco, em Israel o importante foi-se deslocando dos dons de Deus para o próprio Deus. Ele é que se tornou o ponto final de todas as petições: «O meu ser anseia por ti, ó Deus, / como terra resseca e cansada, sem água» (Sl 63,2). Não fora por Deus, pela necessidade de o puxar para a vida quotidiana, e não teríamos o saltério. Deus é que fez brotar os salmos. E a recitação persistente inculca o sentimento da sua presença, que tudo enche: afina o gosto do diálogo com o Deus vivo. Só uma recitação rotineira, arrastada ou martelada pode ‘perdê-lo de vista’, como o hábito de não respirar fundo pode esquecer o ar que se respira.
Os salmos dão testemunho de um património espiritual que impregnava a vida social em Israel; e são multiplicadores dessa espiritualidade. Mas dão testemunho sobretudo de que Deus pode ser ‘alcançado’ pela fé, ao ser chamado e pensado na oração: «Ó Deus, Tu és o meu Deus! / É por ti que eu madrugo! / A minha alma tem sede de ti» (Sl 63,2). Os salmos têm consciência de que o Deus em que acreditam é o Deus a quem podem falar com um Tu pessoal: «Ó Deus…, os nossos pais contaram-nos a obra que Tu realizaste nos seus dias…; levanta-te, pois, vem em nossa ajuda, / liberta-nos por causa da tua misericórdia!» (Sl 44,2.27).










