Frei João Costa, OCD
1. Na segunda sexta-feira após o Corpo de Deus, nós, católicos, celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. No perfume desta solenidade nos encontramos, pois, bem imersos também nos dias do mês do mais terno Coração.
2. Dizer devoção é o mesmo que dizer beleza de relação e conhecimento, dedicação e entrega a…; no caso, ao Coração de Jesus.
O melhor uso de palavra tão densa e tão intensa só o aceitamos referir a Deus, por antonomásia, dizemos. Afinal, só Deus merece de nós uma relação que se apelide de devoção, porque só Deus é digno de receber o que é apropriado dizer-se que só Dele é.
Que uma pessoa tenha devoção ao Coração de Jesus quer, pois, dizer, simplesmente, que se dedica a co-responder amorosamente a Jesus — pois é isso que o coração significa: a sede e a fonte do amor! Sim, um coração pede um coração, uma amor sonha com outro que se lhe corresponda, tal como um abismo sempre convoca um outro. Assim, dizer «Coração de Jesus» é o mesmo que dizer Jesus, Jesus autêntico, o Jesus histórico, do Evangelho. Logo, portanto, dizer: «Coração de Jesus, eu tenho confiança em vós!», é dizer, com doce firmeza e terna determinação, que é em Jesus que confiamos, só em Jesus confiamos, tudo Lhe confiamos! É dizer-lhe em bom português: por que te amo, em ti espero e em ti confio, Coração do meu coração!
3. A raiz primeira da devoção ao Coração de Jesus tem, pois, a ver com a Santa Incarnação, mormente com o que a confissão de fé da Igreja considera ser o intenso amor do Filho que, incarnado, primeiro, nos amou, bem antes de nós Lhe co-respondermos; desde sempre tanto nos amou que nasceu para nos amar, para nos beijar, e se se revestiu de carne da nossa carne foi para que não nos assustássemos quando nos dissesse que nos amava. E ama-nos (e amou-nos) sempre primeiro, sempre antes de sermos capazes de balbuciar uma resposta à altura de tão imenso, tão original e tão puro amor.
Quem poderia imaginar ou prever que Deus (nos) amasse até à loucura, dando-nos, gratuito, um amor de entrega total, de braços sempre abertos, de valente coração rasgado? Quem poderia imaginar um tal martírio de amor? Um amor que ama cada um e cada uma de nós – correspondamos-Lhe ou não –, sem lamentar o corpo retalhado, o peito sem fôlego, o coração ferido?
Em boa verdade, nós acreditamos que Jesus era e amava verdadeiramente como homem, verdadeiramente como Deus; e que só podendo dispor de Si, como, inteiro, só Deus e mais ninguém o pode fazer, e sendo e sentindo, inteiramente e ao mesmo tempo, como humano, e como divino, só assim nos pôde amar para nos salvar. Amando-nos, ficou com o corpo desfeado, irreconhecível e rasgado? Ficou; porque tal é o custo de amar as rebeldes e mordazes formiguitas que somos!
E, pois, Jesus Cristo tinha coração; o mais gentil, o mais terno e mais nobre de todos e que, como todos, batia, amava, sentia, se alegrava, rejubilava e sofria, como humano que era. E como Deus que era; que se Deus não tem coração, que amar devíamos, uma pedra? Pode um seixo despertar a amar?
4. De todos os discípulos o que mais atento e mais próximo esteve do coração do Mestre foi João, o adolescente, depois Apóstolo e Evangelista. João e Jesus eram, de facto, muito amigos, amigos íntimos mesmo. Aliás, a amizade de Jesus por João ia bem além da típica de um mestre — era a de um amigo maior. Sabemos que, durante a Última Ceia, na Hora, a mais álgida da nossa fé — é o próprio João quem o conta —, o discípulo, que era pouco mais que menino, adormilou-se e tombou a cabeça no peito de Jesus e… E naquele confiado sono ouviu maravilhas e confidências únicas do coração do Amigo! O que ali ele ouviu, ele o sabe; o certo, porém, é que jamais alguém, como João, sondou o coração divino de Jesus, nem jamais alguém aprendeu mais ou melhor do que o discípulo ali bebeu!
5. Celebrar a festa do Coração de Jesus é, pois, celebrar a Sua vida e ternura por nós, por cada um e cada uma de nós, seus (ingratos) amigos! Amigos sim, mas bem distantes da dedicação e confiança de João…
Se os primeiros mil anos da nossa fé estiveram bem longe de se encantar com a devoção ao Coração de Jesus, já, porém, em finais do século XIII, São Boaventura (+1274) exclamava: «Quem existe que não amaria aquele coração ferido? Quem não amaria em troca Dele, que tanto ama?». Este movimento, por ser quase só individual, está, porém, muito longe da devoção multitudinária que brotará por todos os poros das sociedades do séc. XVIII.
6. Nas últimas centúrias, a divulgação desta devoção – apesar de tudo, algo antiga… – muito deve a duas religiosas, uma das quais dedicou a sua vida e apostolado à cidade do Porto.
Durante dezassete anos e até ao dia da sua morte, na e depois da festa de São João Evangelista de 1673, Jesus apareceu diversas vezes a Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa visitandina de Paray-le-Monial, França. Tinha ela, à data, 26 anos e acabara de entrar como monja, na Visitação, quando, durante a exposição do Santíssimo Sacramento, Jesus lhe expôs pela primeira vez o seu Coração Dilacerado. Numa das aparições seguintes disse-lhe: «Eis o coração que tanto amou a humanidade. E em vez de gratidão, recebo da maior parte da humanidade apenas ingratidão!». Foi este o rastilho para que, por todo o mundo, se viesse a impor a devoção ao Sagrado Coração de Jesus alavancada num maior amor e devoção à Eucaristia.
A segunda apóstola da devoção foi a Irmã Maria do Divino Coração, Maria Droste zu Vischering, originária da mais elevada nobreza alemã, e que foi superiora no Convento do Bom Pastor, no Porto. Escrevendo sobre a sua vocação, disse: «Esperei nesse dia [o da Primeira Comunhão] a graça da vocação religiosa, mas em vão…»; tal sucederia quando aos 15 anos escutou uma pregação sobre a passagem bíblica que diz: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma». Atraída desde a infância pelo Sagrado Coração de Jesus, Maria Droste sempre uniu a devoção ao Coração de Jesus com a devoção ao Santíssimo Sacramento, conforme ela própria declarou: «Nunca pude separar a devoção ao Coração de Jesus da devoção ao Santíssimo Sacramento; e nunca serei capaz de explicar como e quanto o Sagrado Coração de Jesus se dignou favorecer-me no Santíssimo Sacramento da Eucaristia». Depois de outras diligências, no dia 6 de Janeiro de 1899, ela enviou uma carta ao Papa pedindo-lhe que o mundo fosse consagrado ao Coração de Jesus – tal como Jesus lhe sugerira – e se observassem as primeiras sextas-feiras do mês em sua homenagem e agradecimento.
A Irmã Maria do Divino Coração morreu, por fim, quando a Igreja entoava as primeiras vésperas do Sagrado Coração de Jesus, a 8 de Junho de 1899. No dia seguinte, o Papa Leão XIII consagrou o mundo ao Coração de Jesus!
7. Em 2018 o Papa Francisco declarou ser esta devoção «não é um santinho para os devotos, mas o coração da revelação [cristã], o coração da nossa fé porque Cristo se fez pequeno, escolhendo humilhar-se a si próprio e aniquilar-se até à morte na cruz». O Papa Leão XIII, por sua vez, resumira já a devoção ao Coração de Jesus em dois actos ou movimentos devidos à nossa vontade: consagração e reparação.
O acto de consagração brota do reconhecimento de Jesus como o Senhor que nos outorga toda a ternura do seu amor e nos pede que só nele confiemos, fazendo tudo por amor a Ele e rejeitando tudo que Lhe entristece e magoa.
Por sua vez, o acto de reparação é o reconhecimento de que aquele Coração que tanto nos ama e que, em paga do seu amor por nós, ainda hoje recebe repetidas ingratidões, indiferenças e ultrajes, mormente dos seus maiores amigos, deve suscitar-nos um redobrado amor e dedicada ternura expressos na proximidade e amizade a Jesus, na participação da Eucaristia, na intensificação da oração e na visita a Jesus Solitário no sacrário. Assim seja.
8. Eis, pois, a mais bela devoção entre as devoções, porque Jesus, o mais belo dos amigos, faz do amor por nós o seu mais belo atributo e sinal.










