Armindo Vaz, OCD

Há duas grandezas que uma vida não dispensa, para ser humana e realizada: um amor a quem dar-se e uma casa onde acolher e recolher os que desse amor florescerem. Casa e amor não se deixam dissociar, tão íntima é a sua relação: o amor que pede intimidade e o espaço onde sentir-se amado. De facto, a própria casa é o refúgio seguro e confortável, onde a pessoa se sente bem, como se fosse o seu castelo. Podemos visitar casas de amigos ou alugadas, umas mais bonitas que outras. Mas viver mesmo é na nossa própria casa. Ela é o espaço mais frequentado e assiste ao melhor da nossa vida. Atesta que o amor materno e paterno, filial e fraterno e as relações humanas, com o mistério para que apontam, são o melhor da vida. É o espaço onde a vida se sente como bem supremo, mesmo – e porventura mais então – quando lá a vida é vilipendiada. A casa é a primeira estrutura de acolhimento da pessoa ao nascer. É o espaço onde se vive e se morre, o santuário do crescimento amparado, aconchegado no seio de uma família.

Também na Bíblia, dizer casa é dizer comunhão de vida, vida em comunhão, vida familiar, onde o existir traduzia em gozo indelével o repouso restaurador, os gestos de maior amizade, o encontro com os outros à mesa posta, festiva: “um fariseu pediu-lhe que comesse com ele; entrando na casa do fariseu, pôs-se à mesa” (Lc 7,36; cf. Jo 12,2). A casa era um apelo a desfrutar da polifonia da vida, a construir relações humanas e a inventar o futuro juntos. Os que lá viviam e lá se juntavam ‘faziam casa’, isto é, esboçavam afectos e emoções, partiam e repartiam o pão da vida, o pão da ternura e da amizade, o pão que quase fala ao dar-se e ao ser comido: “partiam o pão nas casas e tomavam a refeição com alegria” (Act 4,46). Na casa, o centro estava na relação das pessoas, na procura e no encontro, nos nós e nos laços que vinculam as vidas sem as prenderem. Lá, as pessoas aprendiam a ensopar a vida de sentido e de alegria partilhada e contagiante (Lc 15,8-10: mulher varre a casa, encontra a dracma: “alegrai-vos comigo”). Nela celebravam as alegrias necessárias e a tristeza contingente. Sendo espaço interior, era lugar de maturidade. Além de habitação, era também o lugar onde mais livremente se vivia a dimensão emocional da pessoa, onde mais provavelmente aconteciam as coisas importantes e se escreviam as histórias decisivas de uma vida à escuta: “[Jesus] entrou numa aldeia; uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa” (Lc 10,38). A casa era o clima onde a vida humana vivia de amor, educando para a afectividade em cada dia que passava. Era o lugar onde a vida era gerada, cuidada e protegida em todas as fases, desde a infância à fase crepuscular (Lc 2,51-52). Era sacrário das relações familiares e mais íntimas, uma cerca de amada solidão e privacidade, a zona de conforto do coração, que não abandona a casa onde pulsou de amores. Espaço privilegiado para os encontros pessoais e para tecer relações sólidas em rede espontânea, a casa punha em acção o recomendado e desejado amor fraterno. Nela, a família podia não ser perfeita, mas vivia unida pelo travejamento da voz do sangue e pelo entrançado das raízes profundas: “Vida dura é andar de casa em casa” sem ter uma própria (Si 29,24). A casa cristã construía o amor que podia ser sincero sem ser agressivo, que podia pedir sem reivindicar, escutar antes de falar, compreender mesmo quem errava: “Revesti-vos… de sentimentos de bondade, mansidão… perdoando-vos mutuamente se alguém tem razão de queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, perdoai também vós. Por cima de tudo isto, porém, cingi-vos com o amor mútuo, que é o cinto perfeito” (Cl 3,12-15).

A casa também sossega os medos e a insegurança. É sítio certo para estar. Proporciona um calmo porto de abrigo para quebrar a pressão do cansaço, da agitação e do barulho. Na Bíblia sugeria o desejo corpóreo da segurança salvífica a que somos devolvidos depois de termos estado perdidos: “Levanta-te, toma a tua enxerga e vai para tua casa” (Lc 5,24-25). Era sobretudo na casa – onde as pessoas eram próximo, onde as vidas se fundiam e se tornavam mais afectuosas – que se instaurava a presença reinante e salvífica de Deus no meio das pessoas que se abriam a ela. E onde se dava lugar ao reino de Deus sentia-se vontade de fazer o bem a todos.

Não nos fixando só na fachada da casa, sabemos que ela não é só chão de virtudes humanas. Nos rincões escuros também pode despertar o desejo da posse e a vontade de parecermos grandes, a cultura do prazer, do ter e do ‘útil’ da casa que facilmente conduz ao consumismo, a tentação de viver a história em primeira pessoa e de não olhar para lá dos limites da própria casa. Até é o lugar onde facilmente discutimos, ultrapassando as paredes e os limites do decoro familiar. Mas as casas bíblicas estavam destinadas a ser casas de paz: “Em qualquer casa em que entrardes dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!’. E se lá houver alguém de paz, repousará sobre ele a vossa paz” (Lc 10,5-6). O bem-estar em casa favorecia uma existência de harmonia e de ordem interior dentro dela, cultivada também com a paz que vinha de fora.