Frei João Costa, OCD
1. Depois que de nossos lábios se escoam os hinos de louvor ao Menino das palhinhas, logo Jesus, grande de trinta anos, desce às águas lamosas do Jordão e aí, com a celebração litúrgica do mergulho baptismal, a Igreja clausura o tempo de Natal e inicia o Comum.
Aberto que foi o Tempo Comum, eis-nos já no seu segundo domingo; ou até um pouco mais além…. Curiosamente para nós, Carmelitas Descalços, o segundo domingo comum prolonga o sabor e cheiro ao Infante Suavíssimo, visto que de acordo com uma antiga tradição espiritual, o segundo domingo após a Epifania é do Menino Jesus de Praga. Por tal razão, na nossa jornada litúrgica deste domingo centramos de novo a ternura do nosso olhar e o afecto do nosso coração em Jesus, menino e rei e Deus, que entre nós, carmelitanos, recebe tal título, de Praga, por ter sido no Carmo daquela cidade que se manifestou poderosamente atento, miraculosamente próximo dos que O adoram e a Ele se confiam.
2. Não se pode ser cristão sem referência a Jesus, à vida de Jesus, aos sentimentos, gestos e palavras de Jesus. Tanto grande como pequenino. Como, porém, os Santos Evangelhos quase O ignoram infante e quase só relatam as andanças do seu anúncio da Boa Nova, o processo da sua condenação, a sua morte e ressurreição, então mais nós O contemplamos adulto e menos infante. Acresce que toda a catequese no-lo impele a seguir, desde pequeninos, caminho adiante e encosta acima; e então lá vamos nós seguindo o Mestre, e ignorando o acerto de que, já desde a infância, podemos ajustar os nossos pelos Seus passos infantes. Seguir-Lhe os passos pequeninos é também fonte de salvação. Seguir é verbo tão forte que talvez seja mais apropriado dizer ser Ele quem mais procura ou, vá lá, nos sai ao caminho e se faz encontradiço dos nossos passos. Aliás, qual pastor bom — além Dele não há nenhum bom, é bom que o entendamos — pronto abandona o rebanho para sair em busca de ovelha perdida ou de cabrito arrevesado.
Buscar é ofício de pastor cabal, que ao urgir-se se impõe como incessável, a horas e a desoras, sem respeitar nem cansaços nem canseiras, augurando mais a rendição desvalida que a conquista por força de razões. Assim nos busca o Senhor, de facto. Que Ele nos busca, não haja dúvidas; que a toda a hora nos saibamos buscados já não será tão certo. Que a Ele queiramos render-nos tão-pouco será certo. Mas se Ele nos busca, é por andar atento e por perto, rondando e sondando-nos o coração. Afinal, ninguém como Ele conhece o emaranhado dos nossos desvarios. Azar nosso e lamento de Deus é não sentirmos — ou disso ignobilmente nos mostrarmos desapercebidos — o calor da Sua presença buscadora e o sofrido palpitar do Seu coração pelos nossos passos perdidos. Tudo isso porque só ama…
— Que outra razão para ter Ele nascido, descido à lama do Jordão ou subido à Cruz? —
Os melhores dos melhores da nossa fé sempre nos ensinaram que não pode haver fé sem relação a Jesus Cristo: Ele é o cume do nosso caminho e o zénite do nosso horizonte, o mais fundo abismo em que nos revemos, o centro em torno do qual tudo gravita. A Cristo nosso tudo, nós, Carmelitas, vemo-lO, honrámo-lO e amámo-l’O como senhor, mestre e companheiro e, sobretudo, como amigo verdadeiro. E menino Deus, também!
3. E bem vemos que Ele nos vê.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos percorrendo sem parar os pobres caminhos da Galileia, como peregrino do reino e arauto da Boa Nova. Jamais as suas palavras foram dirigidas apenas a uma classe, a uma elite ou só aos deserdados da sorte; falando falou a todos, e abençoando abençoou a todos, por isso, em seus dias, os seus passos semearam a Boa Nova no maior número de corações possível.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos lutando infatigável contra o mal, devolvendo dia à noite, esperança aos mirrados do povo, saúde aos leprosos, cura aos loucos, impondo ou abrindo as mãos para recolher e afagar lágrimas, e no coração lavar beijos traídos.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos temperado de solitude, olhos cheios de céu, irmanado de estrelas e anjos, formigas e lacraus, coração posto no do Pai, jamais isentado dos sofridos da terra, recolhido, mas não absorto, unido, mas não diluído.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos na dádiva central da Última Ceia, reunido com os amigos mais amigos e mais íntimos, abençoando, partindo e repartindo-lhes o pão do seu corpo e a copa do seu sangue de eterna aliança.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos desungido por um beijo; preso, manietado, torturado, amaldiçoado e abandonado na sua horrível Paixão.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos sofredor ao extremo e exangue redentor, na cruz. No corpo desnudo e no peito rasgado — quebrado foi o frasco da mais bela e suave fragância! — todo dado para a todos salvar. Pendente dos braços da cruz, vemo-lO, olhámo-lO e lembramo-nos de que, sem protesto, passo a passo, Ele a carrejou monte acima, e depois a ela se abraçou e por ela se deixou afagar, a fim de que, para sempre, nos fale de um amor doado por inteiro.
Nós O vemos, olhamos e contemplamos num lençol de linho amortalhado, e poisado um lenço suave como um suspiro lhe cobre o rosto. Partindo em busca de Adão, o corpo cansado desceu à morada mais profunda; e dormido o silêncio ignominioso da noite despertou para o esplendor do dia glorioso da ressurreição, quando o amor O resgatou e O devolveu à luz do dia inaugural da nova criação.
Tal como candeeiro nocturno seduz as cativas borboletas, nós, cristãos, olhamos e amamos Jesus no redondo seio da Mãe. E vemo-lO e adorámo-lO ao seu colo, ora dormindo, ora amamentando-se dos seus seios. E vemo-lO e adorámo-lO ao colo de José, ou subido às patriarcais cavalitas. E vemo-lO e adorámo-lO brincando com as fitas da madeira, ou carpinteirando um barquito ou um pássaro. E vemo-lO, amámo-lO e adorámo-lO jogando ao pião e à cabra-cega, e a caminho da sinagoga, e peregrino de Jerusalém, e atento e obediente, crescendo em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens.
Nada de Jesus, infante ou profeta, nos é alheio, nem a bênção do suor nem a unção das palavras, nem a força da oração, a firmeza do trabalho e dos sinais.
4. O cristão é de Cristo, para ser outro Cristo como Cristo. Não há como ser de outra modo, que jamais é de outro ou de si mesmo. Não tem, aliás, outro modo de ser, nem pode ser de outra maneira, que só assim pode ser: Cristo no centro, Cristo no alto, Cristo em baixo, Cristo por todos os lados.
Ao longos dos séculos, muitos santos — e não apenas os do Carmo — se enterneceram com a Divina Infância, olhando para Jesus com pequeninos lacinhos de ternura. Por exemplo, olhar Jesus menino dormindo mansinho ao colo da Mãe, pacifica-nos, acalma-nos e diz-nos que, mesmo dormindo, Ele nos dá a Sua graça, a Sua luz e a Sua paz. Sim, se ronrona sossegado no colo da adormecida Mãe, nós, Carmelitas, também dali nos saciamos. Olhando enternecidos a serenidade da Mãe que O tem nos braços, serena comungando da gozosa intimidade com o Filho, compreendemos que também nós O devemos acolher no nosso colo, deitá-lO sobre o nosso peito e adormecer ouvindo o seu coraçãozito bater baixinho, chamando pelo nosso.
5. Quão doce é pedir ao Menino Jesus que venha ao nosso colo e ali adormeça. E se adormecer é certo que também nós adormeceremos embalados pela graça de O ter respirando sossego ao nosso ouvido.
6. Decorria o ano de 1628. Havia em Praga, hoje capital da República Checa, um empobrecido e enfriolado convento do Carmo. No auge do frio veio uma princesa e ofereceu uma imagenzinha do Menino Jesus. A imagem era de um frágil menino de doze anos revestido das insígnias de sacerdote e de rei, que logo se mostrou prodigamente miraculosa, não apenas para os frades Carmelitas, mas também para as gentes da cidade. Da pequenina imagem pronto se manifestou uma mensagem: «Quanto mais Me honrardes, mais Eu vos favorecerei». E assim foi, que Deus promete e cumpre; e foi de tal maneira que a sua fama pulou para fora dos muros do Carmo praguense, passou fronteiras, e chegou a todo o mundo. Literalmente. Até hoje. Até nós.
Mundo fora e pelos séculos adiante, muitíssimas igrejas, e não apenas as do Carmo, e muitíssimos altares em tantos lares, resguardam hoje belíssimas imagens do Menino Jesus de Praga. Tais imagens são mensagens de esperança e confiança. É como se o Rei Pequenino nos garantindo nos dissera: Leva-Me contigo, Leva-Me pela mão. Leva-Me pelos teus caminhos, pelas tuas preocupações, pelos teus medos, pelos teus pesadelos, pelos teus sonhos, correrias e êxitos, trabalhos e derrotas, para a tua família. Sim, dá-me o teu coração e jamais caminhes só! Leva-Me contigo e aperta-Me docemente contra o teu coração! E Eu te abençoarei!










