Armindo Vaz, OCD
Pelo que até aqui descobrimos da linguagem do Cântico dos Cânticos, concluímos que ele é supremo elogio e consagração do amor humano puro e total. Parece ser esse o maior valor e o sentido original emergente deste poema, o sentido que o autor/compilador terá querido passar aos seus leitores imediatos. Esse parece ser o registo que torna mais convincente a presença do Cântico dos Cânticos no cânone bíblico. Terá sido considerado canónico (normativo para a fé e para a vida) e introduzido no cânone (regra de fé) na medida em que fala do amor humano, fonte comum onde beberam os poetas do antigo Próximo Oriente e os profetas bíblicos, que o trataram como símbolo da aliança entre o divino e o humano, em que o amor humano reflecte o amor divino; nessa experiência humana também beberam o apóstolo Paulo e o evangelista João para sugerirem as melhores intuições sobre o ser e o agir de Deus. Terá entrado para o cânone porque canta e decanta o que principalmente dá sentido à vida: porque o amor humano é tudo na vida, como é tudo nos profetas de Israel e no evangelho de Jesus. Entrou no cânone, porque exalta vigorosamente a maior maravilha da vida humana, maravilha da humanidade e de humanidade. Entrou, não por ser religioso (pois, como vimos, não o é), mas por ser excessivamente belo, por ser «bel canto», «a mais bela canção», «a ‘Cançoníssima’», «o Cântico por excelência» (como também se poderia traduzir esse superlativo hebraico que é o título dado ao livro). É de tal maneira belo que se tornou sagrado, também por o amor ser sagrado e pela inquestionável potencialidade que o símbolo «amor humano» tem para evocar o amor de Deus. A incorporação do Cântico dos Cânticos no cânone bíblico, por falar daquilo que é o mais distintivamente humano, sugeria, à tradição que o fechou, que não podemos prescindir daquilo que nos é essencial, o amor. Os que o incorporaram no cânone talvez tenham querido apresentá-lo como o máximo (comprimido) do amor humano, também o que Deus quer da humanidade. É a esse nível que o Cântico é inspirado pelo Espírito de Deus ao autor/compilador.
Depois, a sua interpretação simbólica – que revalorizava o divino do humano e lia o poema como concentrada expressão do amor esponsal de Deus pelo seu povo – redobrou a consideração pela sua inspiração divina, que já tinha acontecido ao nível do autor/redactor. Porque o encontro amoroso entre um homem e uma mulher é dado de graça, efusivo e criativo…; e porque tem muito de misterioso, transbordante, generoso…, tornou-se símbolo fundante do mais sublime na vida humana e até sacramento do amor divino para com os humanos. Porque o símbolo abre para uma realidade superior, pode abrir também para o amor divino. Não fica ao lado do amor a Deus: potencia-o.
E, a partir do seu significado mais imediato, as palavras do Cântico dos Cânticos abrem para a possibilidade de segundas leituras na situação existencial de cada leitor, hoje. Nestas leituras que actualizam o Cântico (como as que fizeram os místicos), ele adquire intensidade quase infinita: ao falar de um amor encarnado no corpo, abre uma janela para o amor inefável além do corpo (que não está explícito no Cântico). Na aventura do amor, na busca e na entrega, na liberdade e na graça desse encontro humano até pode revelar-se Deus entre os humanos que O procuram. O amor mútuo inter-humano do Cântico não é só amor físico. Porque na sua plenitude transcende o amante e o amado, pode revelar um imenso amor, vivido como fragmento de infinito e de indizível. Ao exaltá-lo sobremaneira, o Cântico põe um pedacinho de céu ao alcance de quem ama: sugere que quem ama em pleno saboreia a imortalidade no momento fugaz de amar. Mas então não se pode prescindir da realidade simbólica (amor humano) sob pena de se perder a realidade simbolizada, amor elevado ao infinito. A interpretação simbólica não oculta a força do amor físico: precisamente por ser simbólica, exalta o amor físico em si próprio e para além de si próprio. Nem se prescinde do homem para encontrar Deus, porque, depois da Incarnação, o amor humano é a realidade privilegiada para acontecer amor de Deus.
O Cântico dos Cânticos é um rio caudaloso que nasce na fonte que é o amor, se alimenta dos afluentes do amor e desagua no mar do Amor. É a mais alta antecipação da suprema manifestação do amor em Jesus. Mas, ainda antes, é a imagem bíblica fundamental do amor humano, onde se fundam e se enriquecem todos os amores humanos. Ele sugere que é nas relações humanas que decido, em definitivo, a minha existência, investindo no amor. É diante de alguém que precisa de mim que decido a verdade e a salvação da minha vida. O Cântico é o espelho em que posso descobrir o melhor a fazer com a minha vida. Foi talvez por isso que o rabino Aqiba dizia no Talmude (Tratado Yadaim 3,5): “o mundo inteiro vale menos do que o dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel, porque todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é a mais santa de todas”. Este elogio desmesurado dá-nos a medida e a grandeza do dom. Sem o Cântico dos Cânticos, a Bíblia hebraica não seria o que é: faltar-lhe-ia o melhor de si própria, o canto a um só amor, que é humano e que abre para o divino. Valeria a pena nascer nem que fosse só para ler o Cântico dos Cânticos.
Leia-o agora sem comentários, com todas as peças no seu sítio, para que funcione! A sua melhor leitura tem potencialidade para mudar a vida a fundo, continuando a mesma à superfície.










