Armindo Vaz, OCD
Há setenta anos, a formação dos futuros sacerdotes, religiosos e religiosas das Ordens e Congregações insistia na exortação à penitência, à renúncia, à mortificação do corpo, ao sacrifício (que se entendia como um ato essencialmente custoso, de privação do agradável, doce e saboroso). As práticas de penitência estavam na ordem do dia: mortificar os sentidos, o ouvido, a vista, o gosto. Recomendava-se ao noviço usar instrumentos penitenciais (o cilício de corda ou de arame), para domar o corpo. Três vezes à semana havia autoflagelação comunitária (alguns sangravam). Há cem anos os frades ainda pulverizavam a comida com absinto ou com sumo amargo de aloés. O corpóreo, físico, material deveria ser afastado, recusado.
Essa desconsideração pelo corpo ainda não morreu. Anda por aí, camuflada. Tem lastro antigo. Já na Igreja primitiva algumas correntes espirituais falsearam a pureza da mensagem cristã. A heresia dos gnósticos entendeu que só o melhor do humano (a alma) gozaria da eterna Plenitude junto de Deus. É dualista. Vê o mundo originado de dois Princípios: um Princípio das realidades espirituais (alma…), que seria o Deus bom; e um Princípio das realidades materiais (mundo, corpo…), que seria o Deus mau. Sempre foi condenada pela Igreja. Mas ainda não foi vencida! Seduziu muitos cristãos, que, com boa intenção e para exaltar os valores do espírito, maltrataram o corpo humano, lidaram mal com o matrimónio, com a sexualidade…
Neste contexto, a 1.11.1950 Pio XII deu corpo à fé tradicional da Igreja, numa liturgia da fé que proclamava a Assunção de Maria ao céu: “Definimos como dogma revelado por Deus que a Imaculada sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, ao fim do curso da vida terrena foi elevada em corpo e alma à glória celeste”. Pouco depois da carnificina da II Guerra Mundial, com esta festa o Papa valorizava de novo a dimensão corporal do humano. A desvalorização do corpo já não encontrava fundamento na mensagem bíblica de Jesus e dos apóstolos. Mesmo quando a filosofia grega influenciou a Bíblia contrapondo o corpo à alma (“o corpo corruptível deprime a alma e a tenda terrestre oprime a mente que pensa muito”: Sab 9,15), só oferecia uma imagem à condição humana precária e indicava as dificuldades no caminho espiritual. Nunca Jesus disse que Deus só se interessa pela alma e que só ela foi redimida. A Igreja sempre afirmou que quem ressuscita (como Jesus assegurou) é o ser humano total. E, quando professa a Assunção de Maria em corpo e alma ao céu, não nega a decomposição do seu cadáver no túmulo. Quer significar a glorificação, não só da alma mas da sua pessoa toda, na total comunhão com Deus. De facto, para a antropologia bíblica, corpo significa o eu da pessoa. Maria não é uma semideusa, por ter dado à luz o Filho de Deus. É humana. E é enquanto tal que ela foi totalmente acolhida por Deus. A sua Assunção ao céu é a sua Páscoa. Com a morte corrompeu-se o físico; pela ressurreição permaneceu a pessoa.
Para a fé judeo-cristã, esta sua festa significa que em Deus há espaço para o ser humano: que Ele não nos abandona na morte, pois o simbólico céu corresponde na realidade ao Amor eterno de Deus que por Jesus nos envolve para sempre. Significa que Ele tem um lugar para nós: indo ao encontro do Amor eterno, ao fim da viagem não ficaremos sem estacionamento. E significa que Maria, entrando definitivamente em comunhão com Deus, não se afasta dos humanos: glorificada em Deus e no Filho, está em comunhão connosco. Temos uma Mãe à espera. Quando morremos, sabemos pela fé que somos esperados: não caímos no vazio, pois “Cristo em vós é a esperança da glória” (Cl 1,27). Conforta-nos pensar que em Deus e em Jesus os nossos familiares e amigos estão à nossa espera e que nós vamos juntar-nos a eles, seja qual for a sua condição. Ora, quando se juntam os que se amam, tudo de bom pode acontecer, mesmo o fisicamente impossível (mas crível): é a festa da comunhão dos santos, que causa alegria por ser a sinfonia da esperança. Maria assumida por Deus simboliza o esplendor definitivo de uma Igreja a caminho.
Deus não reduz a sua salvação, não deixa perder nada de nós e do que nos é querido. Ama a totalidade de cada um e quer ter-nos consigo eternamente. A sua fidelidade abraçou Maria toda e abraça-nos com tudo o que somos: não uma soma de corpo e alma, mas um todo inseparável de um corpo vivificado pelo espírito. Então não nos assiste o direito de torturar o corpo ou de depreciar a sua beleza, a sua debilidade e as suas limitações: enquanto parte integrante da pessoa, está destinado à glorificação, com a alma. Isto não fomenta o culto do corpo mas a cultura do corpo, também no trabalho e no desporto: fazer vivificações em vez de mortificações. Quem quiser, no espírito do evangelho, «tomar a sua cruz todos os dias» e seguir Jesus, faça o bem ao próximo, dê-se de corpo e alma à causa do evangelho, à promoção dos valores da família e do bem comum, amando amigos e perdoando a inimigos, mesmo que isso custe e custe muito. Essa é a “oferta dos vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12,1). Se falamos de «salvação das almas», não esquecemos o corpo: entendemos dar sentido último à pessoa toda que somos.










