Armindo Vaz, OCD

Há mais de cem anos que o mundo vai ajoelhar-se aos pés da Virgem Maria em Fátima no mês de maio. Realmente, para os portugueses, maio rima com Primavera. Mas também com Fátima. É particularmente em maio que lá vão em peregrinação elevar até ao céu o que lhes vai na alma. Vão ter com a Mãe, a do Filho de Deus. E à mãe conta-se tudo. Vão ‘dizer’ a alegria que não são capazes de conter por terem beneficiado da cura ou da libertação de um grande mal, humanamente irrealizáveis. Vão contar a angústia de «querer e não poder», causada pela ditadura trituradora e mortífera de tantos males e inevitáveis estragos que o sofrimento traz à vida quotidiana. Vão à procura de sentido para as dores, penas e trabalhos, pensando que os suportarão se lhes encontrarem sentido final, já que as alegrias são fáceis de ‘integrar’ na vida. Enquanto F. Pessoa terá pensado que “a vida é um mal, digno de ser vivido”, quem acorre a Fátima com fé e com o pensamento na Mãe de Jesus pode meditar: a vida é um bem inestimável; e o mal que contém também é digno de ser vivido.

Levar “os espinhos e abrolhos” da vida diante do altar da Mãe – na recitação sussurrada, murmurada, arrastada ou ajoelhada de preces, rogações e ladainhas insistentes – dá alguma dominação sobre os duros embates da fragilidade humana. O peregrino de Fátima sabe bem que continuará a embrulhar os valiosos presentes da sua vida num papel que afinal se rasgará, porque as suas histórias são retalhos da vida de alguém que está a caminho. Mas a sua oração humilde e fervorosa, procurando ‘solução’ para o mistério do humano, realiza o prodígio de tornar possível o impossível e de evitar o trágico na aceitação da vulnerável condição humana. Através da fragilidade da oração, vai-se reconciliando consigo próprio e com as suas limitações, com os que a ele se unem em peregrinação, com a natureza que vai contemplando e com Deus, sentido radical de todas as coisas. Com isto, a oração em Fátima deixa ver o seu carácter sapiencial, fator essencial de humanização da vida e dos seus aspectos sombrios. Tem o poder lenitivo de conforto ou de cura contra a natureza humana necessariamente sofredora, mortal. O peregrino orante sente necessidade de uma Mãe intercessora, para lhe dizer com súplicas silenciosas, cânticos polifónicos, lamentações de medo e louvores de gozo, a sua impotência perante o mal: a epidemia, a doença, as desventuras, os insucessos, as opressões e violências…; precisa da Mãe do Filho de Deus, sumamente compreensiva, a quem ‘gritar’ o excesso do sofrimento humano. Ele sabe que o sofrimento é surdo: para não ser absurdo só uma Mãe ligada a Deus o pode escutar, compreender e transfigurar. A oração, dando voz à sua dor, revela-lhe e brinda-lhe uma experiência de Deus como salvador, que aceita o impertinente sofrimento por amor.

Mas, por causa da pandemia demoníaca que a História recordará irrefragavelmente, o maio deste ano veta a experiência gozosa de peregrinar a Fátima. Ora, essa contingência viral, em vez de suscitar tristeza, pode ser explorada para sondar outros recantos da oração peregrina. De facto, orar é sempre pôr-se a caminho em direção à bondade, à beleza e à transcendência, aneladas pela própria oração. É percorrer, entre o desespero e a esperança, entre o medo e a confiança, os sinuosos caminhos da vida. Se este mês de maio está a sofrer o choque assustador de um inimigo invisível, sempre poderemos rezar partindo do nosso meio. E continuaremos a sentir a oração como constitutiva do ser humano, que faz caminho ao andar. A oração retrata o verdadeiro rosto espiritual de quem reza, sobretudo quando se exprime na escuta. O Deus Pai e a Mãe a quem reza e a quem escuta estão aquém do lugar em que os invoca e escuta.

Escuta! O orante só saberá que Deus e a Virgem celeste podem falar com os humanos se ele próprio se sentir interpelado. Foi a experiência que, pelo visto, os pastorinhos de Fátima fizeram. Uma oração que tenha como sujeito um observador neutral passa ao lado daquilo que é a mais autêntica prece cristã. De facto, esta tem o carimbo da oração incarnada de Jesus. Não é a um deus qualquer. Dirige-se ao Deus de Jesus. É um ato cheio de sentido, vá o orante a Fátima ou não: leva até Deus a história e as histórias de um “irmão” de Jesus, precisamente pela mediação dele: “Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus” (Jo 20,17). Que o Filho de Deus tenha incarnado em Jesus e na história dos humanos significa que o Pai aceitou mostrar no Filho a sua paixão por eles, também em luta com o mal físico e moral. E foi aí, na luta com a morte, que Jesus encomendou todos os seus “irmãos” ao cuidado da mãe: “Disse à mãe: Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis a tua mãe”.

Os que vão a Fátima e os que lá não vão têm uma Mãe. Em qualquer lugar, podem invocá-la como Senhora de Fátima e esperar ser atendidos: “Do seio da Virgem a esperança brilhou para nós” (S. Efrém).