Jeremias Carlos Vechina, OCD (1938-2016)

Também o consumismo se está a apoderar da Espiritualidade. As publicações, livros e artigos sucedem-se a um ritmo difícil de acompanhar. Congressos e seminários sobre espiritualidade estão na ordem do dia. Há uma incontinência verbal doentia. Perante esta situação é hora de parar e fazer silêncio para realizarmos uma leitura repousada e profunda dos acontecimentos.

Torna-se necessário um olhar contemplativo sobre os movimentos espirituais que estão aí na praça pública. Eis aqui o profetismo de Isabel da Trindade: a sua vida e palavra de mulher crente são uma orientação clara e simples no dealbar deste novo milénio.

Os místicos estão de volta

Esta é uma realidade fácil de constatar: os místicos estão de volta. Mas quando falamos de místicos não estamos a pensar em fenómenos estranhos, como podem ser os êxtases e levitações, chagas e estigmas, revelações e visões. Existiram grandes místicos que não tiveram estas coisas.

Falar de fenómeno místico, a meu modo de entender, é falar duma profunda experiência de Deus. E esta experiência de Deus é conatural a todo o batizado. Se a semente da graça nascida em nós no dia do nosso batismo, pela palavra viva e eterna, se desenvolver conforme o seu dinamismo interno levará consigo a experiência de Deus. O batizado possui uma semente mística posta por Deus no dia do seu batismo. Esta graça inicial, com a ajuda de Deus, principalmente, e com a nossa colaboração, abrir-nos-á à experiência de Deus.

O místico, pessoa de experiência de Deus, é um irmão entre irmãos, é como um profeta que fala de Deus e do seu mistério com palavras de fogo, postas por Deus na sua boca, como dom precioso para a Igreja e a humanidade.

A crise do racionalismo e do pensamento débil suscitaram um grande apreço pelos místicos. Eles falam com palavras verdadeiras e convincentes. O seu discurso não é fruto dum raciocínio, mas nasce da fonte da sua experiência religiosa. O seu argumento sobre Deus é que eles O encontraram e saborearam na sua vida. Viveram com Deus como companheiro, amigo, esposo enamorado e irmão.

Surpreendem e impressionam as palavras que escreve Fernando Sebastián Aguilar, acerca do falar e dar testemunho de Deus na Igreja e no mundo. Os místicos falam-nos de Deus de forma “descarada”, sem respeitos humanos, abertamente, e é disto que nós precisamos.

“Neste momento o testemunho da Igreja sobre Deus resulta especialmente necessário e urgente já que nenhuma instituição faz brilhar a presença de Deus. Ninguém fala d’Ele, ninguém O aponta e muito poucos se interrogam verdadeiramente acerca d’Ele. Por mais que Deus esteja ao nosso lado e nunca nos abandone, se ninguém O nomeia e ninguém O recorda, pouco a pouco se irá afastando de nós, ou melhor dito, nós nos afastaremos d’Ele, e iremos aprendendo a viver pacificamente como se não existisse, entregues aos bens do nosso mundo e suportando como algo normal as angústias e as perturbações que nos produz esta ausência fundamental”[1].

Na nossa Irmã Isabel da Trindade brilha a presença de Deus. Se nós nos abeiramos dela é porque nos contagia a sua fé e nos acompanha no nosso caminho para Deus e para o mundo. Ela não só nos situa perante Deus mas também perante as realidades deste mundo. Os seus escritos ressumam experiência simples de Deus. Aquilo que ela viveu contagia e é esta realidade que ela quer transmitir ao leitor. Isabel envolve-nos na sua mesma atmosfera.

Esta tarefa exerceu-a Isabel com tantas gerações de Carmelitas que através de um século se abeiraram da sua figura. A sua influência estendeu-se para fora do mundo carmelitano: religiosos, religiosas e sacerdotes sentiram a brisa do Espírito quando se aproximaram dos seus escritos. É pena que a figura de Isabel não tenha calado mais profundamente no mundo laical. A maior parte da sua vida transcorreu como leiga na cidade de Dijon. De vinte e seis anos de existência vinte foram passados no mundo. Até mesmo os seus escritos, a maior parte, estão dirigidos a leigos.

Nos tempos que correm em que os leigos se afirmam no campo da teologia e da pastoral, os escritos da Irmã Isabel podem ser um farol luminoso para descobrir Deus no concreto da vida e desta maneira serem uma “humanidade de acréscimo” no mundo e na sociedade dos nossos dias.

A sociedade em que vivemos está em sintonia com outras realidades do mundo que não são as do Evangelho. A indiferença e o agnosticismo estão presentes por todas as partes, até mesmo no coração dos crentes. A Igreja, consciente da situação, está a responder com uma Nova Evangelização. Neste contexto a Irmã Isabel é palavra oportuna porque nos anuncia o encontro que teve com Deus, encontro este que constituiu a alegria maior da sua vida.

A sua espiritualidade é a medicina certa para todos, mas principalmente para aqueles que voltam à religião, mas a uma religião, muitas vezes, sem Deus. Chamam a atenção estas palavras do teólogo J. B. Metz:

“De certa maneira vivemos numa era da religião sem Deus. Portanto, a frase chave poderia ser esta: «religião, sim, Deus não», mas sem que esse «não» se entenda categoricamente, como o entendem os grandes ateísmos. Já não há grandes ateísmos. A polémica sobre a transcendência parece estar já fora de lugar. Apagou-se definitivamente o rescaldo do mais além. Se nos anos 60 foi trasladado, polemicamente, para o futuro, vemos que agora, em sentido terapêutico, traslada-se para a psique. Desta maneira, hoje, torna-se a pronunciar o nome de Deus – distraída ou serenamente – nas conversas das tertúlias ou sobre o sofá do psicanalista, no discurso estético ou de qualquer outra maneira, mas sem se referirem a Ele realmente, entendendo-O como uma simples metáfora. A religião como nome do sonho duma felicidade sem sofrimentos, como feitiço mítico da alma, como jogo postmoderno de missangas: sim! Mas, onde está o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, o Deus de Jesus?”[2].

Não é difícil encontrar pessoas que se consideram crentes e ao mesmo tempo profundamente críticas com as instituições religiosas. Contudo este grupo nutre simpatia pelos místicos.

“A mística suscita atualmente uma grande curiosidade, inversamente proporcional à alergia provocada pelas instituições eclesiásticas. Muitos julgam essas instituições arcaicas pela incapacidade de responder à fome espiritual que marca o fim do século. O desejo visa o imediato de Deus. Nesta perspetiva, muitos acham que as Igrejas são fontes de violência por causa da sua intransigência dogmática ou prática, e porque não favorecem a experiência espiritual. Se todos concordam que as instituições eclesiásticas estão em crise, poucos explicam o interesse voltado para a mística recusando as Igrejas… Deus só pode ser encontrado onde se vive em liberdade”[3].

O místico coloca a experiência do mistério no centro da religião e, por conseguinte, situa quem a vive na melhor disposição para valorizar a vida religiosa, seja qual for o lugar em que se possa encontrar.

Isabel da Trindade leva-nos a experimentar a Deus no quotidiano da vida. É perigoso falar e encontrar Deus unicamente e exclusivamente na Igreja, ao fumo das velas, como se o resto da vida não tivesse nada a ver com o divino. Se assim fosse chegaríamos a considerar a Deus num espaço muito determinado, deixando o resto da jornada vazia de Deus e da experiência religiosa.

Isabel da Trindade é nossa contemporânea. A nossa fé debate-se na dúvida e na noite. Muitos crentes poderão viver perturbados pelas dúvidas que os assaltam e pelas trevas que deles se apoderam nos momentos mais religiosos e sagrados. Este foi o pão quotidiano de muitos místicos e concretamente de Isabel. Eles recordam-nos que a nossa maturidade espiritual se mede pela quantidade de dúvidas que somos capazes de suportar. Cristo crucificado e abandonado é o modelo de toda a mística cristã, contudo, Ele sente-se nos últimos momentos da sua vida abandonado do Pai e dos seus. N’Ele, Isabel da Trindade encontrou a forma mais profunda de confiança e abandono em Deus.

A espiritualidade de Isabel está imbuída dum sentimento de plenitude experimentada na contemplação da natureza. A experiência vive-se como totalizadora no sentido de viver na presença da natureza como um todo e sentir o próprio sujeito feito essa totalidade, totalmente integrado nela.

O despertador dessa consciência pode ser qualquer sentido: a visão duma paisagem, a escuta de uma música, etc. mas o resultado transcende o captado pelo sentido e pela sensação que procura: é toda a pessoa que vê, ouve e gosta; e vê, ouve e gosta tudo ao mesmo tempo[4].

Esta experiência é totalizante no sentido, em que engloba toda a pessoa. O místico, nesta relação profunda com Deus, joga tudo por tudo, põe toda a carne no assador. Não se dá a meias. É interessante observar as vezes que a palavra “tudo” aparece na linguagem dos místicos para exprimir o que ele está a viver.

Esta experiência é uma realidade que vem do alto, não é provocada pelo sujeito., embora a isso se prepare e disponha, mas é uma realidade de graça que acontece na pessoa e esta recebe como dom gratuito. A iniciativa é sempre de Deus. Por isso São João da Cruz é capaz de afirmar: “se a alma procura …..”.

Isabel vive para além de todo o moralismo. Ela sente-se inundada por um abismo de amor que a acolhe com a simplicidade de uma criança. Ela, levada pela mão de São João e São Paulo, descobre que a vida do cristão tem que estar fundamentada numa invasão de amor que nos persegue e seduz. Numa época em que Deus era apresentado com frequência como juiz severo, ela proclama com a força dum profeta que experimentou a realidade do amor.

“Se não tivesses sido por Ele… mas, já vedes, não se pode resistir à sua chamada. Ele cativa, prende. Uma pessoa já não se pertence mais, é a presa do seu amor. Pode haver desgarramento no coração, mas na alma reina uma paz inefável, uma felicidade que não se parece à deste mundo” (C 171.

“É tão belo dar quando se ama, e eu amo muito a este Deus que está cioso de me possuir toda para Si, sinto tanto amor sobre a minha alma. É como um oceano em que me submerjo  e me perco: é a minha visão na terra, enquanto espero o face a face na luz. Ele está em mim, eu estou n’Ele. Não tenho outra coisa a fazer senão amá-l’O, deixar-me amar sempre, através de todas as coisas: acordar no Amor, mover-se no Amor, dormir no amor, a alma na sua Alma, o coração no seu Coração, os olhos nos seus olhos, para que pelo seu contacto Ele me purifique e me liberte da minha miséria” (C 177).

Não há dúvida, que esta é a primeira e a mais fundamental experiência de todo o crente: sentir-se acolhido por um amor maior na sua realidade de criatura. Quem confia nas suas próprias obras, sempre se encontrará com a amargura da debilidade e da limitação humana. Mas aquele que colocou o seu olhar no amor que Deus nos tem e que se manifestou em Jesus Cristo, construiu a sua casa sobre uma rocha firme. Imbuída desta perspetiva de amor, Isabel vai contemplar a Encarnação, o batismo, a Eucaristia, a sua própria vida… Tudo é amor, manifestação de amor e uma ocasião para amar.

Por ter acreditado no amor, aparece nos seus escritos algo que é preciso realçar: permanecer no amor, até mesmo nos momentos de debilidade e abandono como uma criança nos braços de sua mãe.  Daqui ela deduz conclusões práticas para que a vida do cristão não fique paralisada por uma visão pessimista. Há situações em que se experimenta profundamente a miséria e a pobreza, então, a palavra profética de Isabel dá-nos alento para continuar a esperar e confiar no amor de Deus.

Originalidade de Isabel da Trindade

1.   Temos o seu carisma particular de sã interioridade e atenção amorosa a Deus, carisma complexo, que encerra muitos aspetos.

A alta estima que ela tem de Deus leva-a a não só construir uma hierarquia de valores que culmina em Deus, primeiro valor, mas também a impele a deixar tudo, enquanto é possível, para dar-se a uma existência de adoração gratuita. A vida contemplativa, vivida com intensidade e fé, remete à realidade de Deus. A autenticidade do amor de Isabel reforça a credibilidade de quanto precede.

O generoso recolhimento de Isabel impressiona pela sua qualidade, até no Carmelo, onde a procura de Deus (que é ao mesmo tempo oração eclesial) está recomendada com tanta insistência por Santa Teresa.

Teoricamente nós podemos perguntar: o que é que pertence a uma natureza muito dotada para a contemplação e a admiração e a graça de Deus que faz com que ela O escolha a Ele antes que as expressões egoístas do eu?

Na realidade todos estes componentes fundem-se harmonicamente na vida desta jovem. Isabel é a fidelidade a um carisma desenvolvido através de todos os dons da sua natureza e da graça. Por isso é profeta, mas convertida em Santa é fiel ao Evangelho até às fibras mais finas da existência concreta, mediante o desenvolvimento de um dom existente em cada um de nós que é o amor.

Estamos convencidos que Isabel ainda apresenta outro aspeto profético na doçura e suavidade com que vive este surpreendente recolhimento. Nela não existe nenhuma aspereza, dureza, crispação, a não ser nalguns breves períodos de transição, porque também ela teve de lutar.

Há no seu silêncio uma liberdade que já tinha adquirido quando vivia no mundo. O próximo não se sente rejeitado, pelo contrário, é atraído para o Mistério. Descobre-se nela uma excecional aliança entre mística e humanismo, atenção a Deus e sentido profundo da amizade, cujo exemplo mais claro é a maneira de comportar-se com a sua Prioresa, Madre Germana de Jesus.

Certamente Isabel aprendeu na escola de Jesus, talvez, sobretudo, nas visitas do Mestre a Betânia, algo que ela gostava de contemplar com particular amor. Isabel vislumbrou no coração de Deus: “no céu, a unidade”, disse pouco antes da sua morte (R 254). Se as testemunhas repetem em coro o epíteto “recolhida”, juntam a ele outros adjetivos: simples, alegre, amável, serviçal. Para compreender a fundo este profeta da presença de Deus, não podemos separar os seus escritos, onde inculca a proximidade de Deus, da sua vida fraterna de cada dia. Escritos, palavras, ações formam um todo na sua vida.

Como contemplativa, o seu papel não é o de falar, trabalhar, aparecer ao exterior. A sua tarefa é a de “estar junto à fonte”:

“há duas palavras que para mim resumem toda a santidade, todo o apostolado: União, Amor” (C 191).

Embora Isabel sinta menos necessidade de reafirmar a utilidade apostólica da sua vida que a irmã Teresa de Lisieux – espírito mais inquieto, temperamento mais conquistador – também ela é consciente que se encontra “no grande campo da Igreja” (C 191). Fazendo profissão de vida contemplativa, ela continua a ser aquela que, nos tempos do seu Diário de juventude, se consumia pelas “almas” e orava com tanto ardor pela conversão de M. Chapuis como Teresa por Pranzini.

 Isabel está convencida que uma filha de Santa Teresa de Jesus

“deve ser apostólica: todas as suas orações, todos os seus sacrifícios tendem a isto” (C 136).

Isabel moribunda, enunciará os dois fins da sua vida(“Glória de Deus” e “Igreja”) num mesmo impulso do coração:

“Oh Amor! (…). Esgota toda a minha substância na tua glorificação; que se destile gota a gota pela tua Igreja” (R 256-257).

2.   Isabel ultrapassa também a espiritualidade do seu tempo ao aproximar-se com tanto entusiasmo como amorosamente da Trindade. Isabel é deslumbrada por Deus, que, por elevado e imenso que seja, não é solitário na sua grandeza, mas Comunhão de Amor, Três numa união que ultrapassa toda a inteligência, criando o homem e convidando-o a viver e a atuar n’Ele, o Amor. Para ela a santidade de Deus deslumbra com um amor infinito. Aproximar-se d’Ele é libertar-se do mal que há em nós, incendiando-se no fogo do Espírito.

A sua tarefa não consistirá em raciocinar teologicamente sobre o mistério da vida intratrinitária. A sua vocação consistirá na ação de graças pelo amor dos “Três”, a admiração da sua beleza, o dom irrevogável de si à menor manifestação do seu desejo. Aquilo que Isabel tem que valorizar é, antes de mais nada, a misericórdia da Trindade, a sua “filantropia”, como diz São Paulo (Tt 3, 4), “o seu amor pelos homens”. Isabel gosta de falar de Deus “todo Amor”, inclinado sem cessar sobre a obra das suas mãos, Ele que jamais nos abandona: habita em nós, quer que o amemos, quer dar-nos a vida – para sempre –, quer transformar-nos n’Ele, deificar-nos. É o céu, “que o Espírito cria em ti”, exclama! (C 239).

Com os olhos do coração, Isabel segue o duplo movimento descendente e ascendente da dinâmica do amor de Deus ao homem. O Pai envia o seu Filho para viver entre nós. Jesus perpetua a sua obra, a sua presença, o seu amor humano na Igreja, particularmente por meio da Eucaristia. O Pai e o Filho enviam-nos o Espírito, habilitando-nos deste modo para que a vida de Jesus se manifeste na nossa vida e irradie nos outros através de cada um de nós. Se vivem em nós, não é só para nos fazer felizes na fé do seu amor e na sua proximidade, mas, sobretudo, para que pacientemente e em livre colaboração, a nossa existência se transfigure numa vida “esquecida e livre de si mesma”, como a de Maria (EU 40), e para bem dos demais. Então o Espírito cantará nos nossos corações cada vez mais intensamente “o louvor” do Deus Amor (Ef 1, 12).

Na sua relação trinitária, Isabel é sempre cristocêntrica. Desde a sua infância esteve profundamente tocada pelo dom total que Jesus nos manifesta na cruz e na eucaristia. A sua oração como carmelita será, sobretudo, escutar o “Mestre”. E no entardecer da sua vida, a mística Isabel pronunciará esta palavra emocionada, enquanto aperta o crucifixo da sua profissão contra o seu peito: “amámo-nos tanto” (R 246). A transformação em Deus far-se-á pela conformação ao crucificado.

3.   Isabel à sua maneira, foi também uma pioneira na redescoberta da Sagrada Escritura como carta de vida cristã. Nós, hoje, temos certa dificuldade em compreender quão diferente era a situação a princípios do século XX, no que diz respeito ao uso da Sagrada Escritura. Então a Bíblia era muito menos conhecida e lida pelos católicos.

O P. Conrad Meester († 2019) conta que ouvia dizer com muita frequência aos sacerdotes: “era muito pouco o que recebíamos, noutro tempo, no nosso curso de Sagrada Escritura… Foi Isabel que me abriu as portas de S. Paulo”.

É evidente que S. Paulo não era desconhecido. Mas o Espírito desenvolveu no coração de Isabel, pouco culta, neste campo, um carisma particular para compreender desde dentro, gostar, viver os admiráveis desígnios do amor divino que Paulo e João desvelaram ante os seus maravilhosos olhos. Sem ter lido livros de exegese, pobres e raros no seu tempo, penetrou nos textos por simpatia interior e traduziu-os na vida. Fundamentou a sua contemplação e a sua doutrina na palavra revelada, vivificada pelo contacto com o Verbo de Deus.

É isto que dá aos seus escritos vigor e vida, profundidade e horizonte. Com toda a simplicidade e clareza, os seus escritos inscrevem-se nas perspetivas fundamentais do cristianismo. Se tivéssemos de qualificar a sua pessoa e mística com uma só palavra, diríamos que Isabel é essencialmente “cristã”. Situa-se, como diz Von Balthasar, na objetividade da mensagem e na universalidade do mistério de Cristo. Isto não quer dizer que Isabel se pronuncie sobre todos os aspetos do cristianismo. Não era esta a sua finalidade. Toda a sua obra é um facho de luz, que salta espontâneo por ocasião de circunstâncias concretas. Deixa falar o seu coração sobre aquilo que lhe parece o mais belo na existência: a loucura por Cristo e a resposta ao amor que Deus nos manifesta.

Isabel nunca intentou fazer uma síntese, embora tivesse uma profunda intuição do essencial. Por isso, para entendermos a sua mensagem temos que ter em conta a vida dela. A sua mensagem é inseparável do conhecimento da sua vida. Os seus escritos nunca teriam tido esta força, este acento de autenticidade, esta ressonância, se não fosse pelo clima “vital” que emana deles. O testemunho por excelência de Isabel da Trindade é a sua forma de viver.

4.   Isabel, freira carmelita até à medula, por utilizar uma expressão comum, tem também, paradoxalmente, uma palavra a dizer sobre a espiritualidade laical, tarefa que terá que prosseguir, hoje, mais do que nunca.

Confessando a sorte de ser Carmelita, Isabel sobrepassa as formas exteriores e fixa-se naquilo que é a riqueza comum de todo o cristão, já seja no convento, já seja na constante atividade de quem vive em pleno mundo:

      –    o desejo que Deus tem de dar-se,

      –    o nosso batismo,

      –    a Eucaristia,

      –    o nosso destino para além da morte,

      –    a presença universal de Deus,

      –    a realidade dos “três”,

      –    a alegria de sermos filhos queridos e amados de Deus amor,

      –    e esta alegria que nos impele a dar-nos aos outros.

Daqui podemos concluir que a sua mensagem tem um alcance universal.

Além disto, não esqueçamos que muitos dos seus escritos estão dirigidos a leigos. Entre os 59 destinatários dos mesmos, contam-se seis sacerdotes ou seminaristas e 13 religiosas contra 40 leigos (31 nas suas cartas escritas desde o Carmelo). Dirige-se a uma viúva, a mães de família, a um jovem amigo, ao seu doutor, a suas amigas … E todos compreendiam perfeitamente o que Isabel lhes queria dizer. As diferenças são simplesmente exteriores.

Não esqueçamos também – é importante referi-lo – que Isabel viveu como jovem leiga o que mais tarde escreve como Carmelita. Antes de entrar no Carmelo, simples jovem, viajando, em grupo, em casa, ao piano, vivia já “no interior”. Sentia-se conduzida e atraída pela presença de Deus e correspondia a ela com uma generosidade sem limites.

Uma parte considerável dos seus escritos data precisamente deste período da sua juventude. Eles revelam-nos uma jovem santa no mundo, atenta aos outros e que vive já a sua “paixão por Deus” (C 136) no pequeno “quarto” do seu coração.

Como Teresa do Menino Jesus, e em parte influenciada por ela, Isabel descarta uma certa conceção exótica da “santidade” e repete-nos que para viver o Evangelho a fundo não se requerem condições especiais e manifestações extraordinárias.

Quando no umbral do Carmelo, lhe perguntam: “Qual lhe parece ser o ideal da santidade”, ela responde: “viver de amor”. E qual “o meio mais rápido para chegar a Ela?”. “Fazer-se pequenina, entregar-se para sempre” (NI 12).


[1]      FERNANDO SEBASTIÁN AGUILAR, Hablar de Dios en la Iglesia del futuro, em “La Iglesia en España 1950-2000”, PPC, Madrid, 1999, 253.

[2]      Citado por T. CATALÁ, Oración y experiencia de Dios hoy. Aspetos cristológicos y socioculturales, em “Sal Terrae” 86/11 (1998) 870.

[3]      Concilium, 254/1994/4.

[4]      Cf. MARTIN VELASCO, El fenómeno místico, p. 322.