Armindo Vaz, OCD
O curso dos acontecimentos de Setembro vai convocando alunos de todos os cursos para a Escola Básica, para o Liceu, para os Colégios e para a Universidade. Espontaneamente ocorre-nos a realidade da educação pela palavra; ocorre-nos o tema da formação das crianças e dos jovens para aprenderem a enfrentar a vida e a triunfar dela.
Uma ideia que perpassa a obra de Platão está explícita neste seu trecho: Os “que fazem a totalidade da educação… modelam à sua vontade homens e mulheres, jovens e velhos” (A República, livro VI, 492a-493a). Fazendo-lhe eco, o pensador Ortega y Gasset, numa conferência sobre «A pedagogia social…» em 1910, interpelava os pais desta forma: “Reparai nos vossos filhos que entregais a um educador: estais a colocar o vosso ouro nas mãos de um ourives, cuja arte desconheceis. Que ideia acerca do homem terá a pessoa que vai humanizar os vossos filhos? Qualquer que seja essa ideia, será indelével a marca que deixará neles” (I, 510). De facto, ensinar a sério é lidar com o que de mais vital existe num ser humano. É aceder ao âmago da integridade de uma criança. É invadir a sua intimidade. O acto de ensinar é essa assustadora interferência na alma, no desenvolvimento de outro ser humano: molda-o, se ele escuta e aceita. O bom ensino pode construir e purificar a sua vida. O mau ensino, a rotina pedagógica pode ser ruinosa e arrancar a esperança pela raiz: pode ser o coveiro de uma flor a desabrochar. Para milhões de pessoas, a Matemática, a Física, a Filosofia, a poesia e o pensamento lógico foram destruídos por um ensino vazio, pela mediocridade de pedagogos frustrados. Os professores que alimentam a chama nascente na alma do aluno são porventura mais raros do que os músicos virtuosos ou os sábios. Mas os que o são despertam o talento de uma criança ou de um adolescente; com a palavra põem em marcha uma ideia mobilizadora.
De facto, desde os tempos romanos educar (de eductio, educatio) consiste em tirar do educando o que ele já tem ou já é como potencialidade; consiste em converter algo menos bom em algo melhor. Assim, os educadores obtêm de um indivíduo imperfeito um homem cheio de irradiações virtuosas. De um indivíduo que congenitamente não é sábio nem enérgico, o educador por meio da sua bondade, de sabedoria e de alguma técnica pedagógica pode conseguir levar um indivíduo a ser o que deve ser, não a partir de qualquer ideia moralista, mas a partir do imperativo de autenticidade a que cada um tem de ser fiel. No melhor sentido, educar é humanizar, é tornar sempre mais humano.
Entendidos assim, o ensino e a educação («a ensinar somos chamados algumas horas; a educar, sempre»: Miguel de Unamuno) têm profundas raízes bíblicas, desde a transmissão da Tōrá escrita e oral por Moisés ao povo de Israel (entenda-se a metáfora!), passando pela instrução ministrada pelos profetas (instrução é o mais genuíno significado de Tōrá), até ao ensino de Jesus e de Paulo. Não é possível pensar o povo bíblico desligado do ensino. Ele é inflexivelmente didáctico. O ensino é inerente à fé bíblica. O diálogo contínuo entre Deus e o seu povo tem, na Bíblia, a marca de uma relação de magistério. A Tōrá atribuída a Moisés, os anúncios e as denúncias dos profetas, os Salmos inspirados no génio de David e os tesouros da sabedoria de Israel são um autêntico programa de estudo, um manual para a instrução, um viático para a vida, uma palavra para a acção.
Os sábios bíblicos projectavam jorros de luz sobre o lugar a dar a Deus na história humana. Com a sua palavra sobre a vida, as suas sentenças são concentrados de vida vivida, que se oferece e se dá gratuitamente para iluminar outras vidas. A sabedoria bíblica era educação do olhar para a vida. Mas simultaneamente estava permeada de fé em Deus. Uma espiritualidade subliminar impregnava todo o viver e a reflexão sobre a experiência. Os sábios tinham em comum com os profetas o seu olhar atento à história humana. Tiravam lições da história passada para traçarem os caminhos da história presente e futura. Sobretudo, ensinavam que as pequenas e grandes escolhas, as acções e atitudes humanas não são indiferentes: têm consequências na vida, determinando-a para o bem ou para ao mal. Isso nota-se ainda hoje na forte ideia de tradição que inspira o povo judeu e lhe dá o sentido de equilíbrio na diversidade social e na unidade familiar: é decantada no delicioso filme Fiddler on the roof, com o constante escrutínio das opções fundamentais.
O ‘homem bíblico’ está permanentemente a ser examinado, na fidelidade e no amor, tomando assiduamente consciência da fidelidade da sua rota ao mapa dos desígnios de Deus. A sua formação dura a vida inteira. Esta relação didáctica é um diálogo variado, desde a adoração e a obediência, como nas pessoas de Isaías e de Jeremias, até à oração confiante e à interrogação dramática, como nalguns salmos e no Qohélet, e até ao protesto vivo que quer entender mais, como na figura de Job. Israel define-se a si próprio pela relação de discípulo de Deus. O Deus de Israel é o reitor da escola que é a vida.










