Armindo Vaz, OCD
“Entre nós e as palavras há… portas por abrir” – disse o poeta Mário Cesariny. E nós parafraseamos: Entre nós e palavras há laços por dar. Muitas palavras estão a pedir que lhes abramos mais o sentido e as re-lacionemos, para que respirem melhor, em vez de as apertarmos com um nó-cego.
Ora, na Quaresma sai-nos ao caminho a palavra «renúncia». Está tradicionalmente conotada com conteúdos negativos: privar-se, recusar, abdicar, resignar, desistir daquilo a que se tem direito. Mas etimologicamente, do latim renuntiare, também tem a ver com «anunciar em resposta, expor, proclamar». Jesus, convidando à radicalidade do seguimento dele, usa a palavra que sempre deixou muita gente perplexa ou a encolher os ombros: “Aquele que não renunciar aos seus bens não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). O receptor desta mensagem mais facilmente vê em Jesus o rival dos seus bens terrenos do que um atractivo convincente. Mas então não está a gerar um mal-entendido? O arauto das bem-aventuranças não pode querer o mal de ninguém! Logo, seja bem entendido.
O que está em causa no pedido de renúncia às coisas é, no fundo, a essência do ser humano: a liberdade. É o que Jesus pede. Sem ela, não há dignidade humana. Ser humano e ser livre identificam-se. Como é que a pessoa demonstra ser livre? Sendo capaz de se erguer acima do simplesmente agradável ou útil, para se colocar no seu bem superior e no bem do outro, transcendendo os interesses particulares e tratando-se a si própria e ao outro como fim e nunca como meio. Renunciar aos bens – ser livre – é ser senhor de si e dos seus actos e escolher entre várias coisas boas. Tendencialmente, o ser humano quer tudo o que agrada. Mas tem de escolher um caminho só de cada vez, tendo de renunciar a outros, como nos afectos mais caros: não se podem amar dois senhores do mesmo modo.
Tocando as fibras humanas mais fundas, a proposta evangélica da renúncia é subtil. De facto, deixar cair o secundário, despojar-se do relativo para se enriquecer com o absoluto é relativamente fácil. Mais difícil é ter de optar entre dois bens igualmente importantes e queridos para ficar só com um. Tal opção exige saber perder. Mas quando a proposta provém de Jesus, trata-se de perder algo para ganhar tudo! O que porventura mais custa é acreditar que na renúncia o ganho será maior do que a perda. Custa acreditar que a renúncia vale a pena: que, afinal, é positiva, não negativa. As resistências para renunciar, para dar, podem dever-se ao receio de que quem dá perde o que dá. Mas Jesus não tem dúvidas quanto ao ganho escondido na aparente perda. Sugere que tudo o que tem valor, ao dar-se, multiplica-se. Ao dar de um lado, ganha-se de outro: “Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me. Pois quem quiser salvar [não dar] a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder/der a sua vida por mim salvá-la-á. Pois, de que serve ao homem ter ganhado o mundo inteiro, se ele próprio se perde ou se arruína?” (Lc 9,23-25 e 17,32-33). É o paradoxo que consiste em libertar-se de peias que prendem, para ser livre, impulsionado pela energia de um amor real: isso é seguir Jesus. O dom da vida é símbolo da liberdade, mais do que condição para ela.
Os bens, as riquezas não são más. O seu problema está em serem boas, podendo instituir-se por isso em rivais de Deus, também bom, e da liberdade, o maior dom do ser humano. Aos ricos Jesus propõe a opção fundamental: “Não podeis servir Deus e o dinheiro” (Lc 16,13). Não condena a riqueza: sugere que seja serva e não senhora, ao serviço do amor aos outros. Outro problema seu é poder ocupar com tal fartura a essência do humano que não deixa espaço para o essencial, para o sentido definitivo da vida: “Olhai bem…, mesmo que uma pessoa viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens” (Lc 12,15). Só Deus é capaz de transformar o coração, para que, com abertura, transcenda a relação erótica com os bens materiais:
Dado que, para procurar Deus, é preciso possuir um coração desprendido e forte, livre de todos os males e bens que puramente não são Deus, a alma apresenta… a liberdade e a fortaleza que há-de ter para o procurar… Repare-se que não são só os bens temporais e os prazeres corporais que impedem e contrariam o caminho de Deus. Também as consolações e os prazeres espirituais… impedem o caminho da cruz do Esposo Cristo (S. João da Cruz, Cântico espiritual, canção 3,5).
A renúncia aos bens da terra não supõe fugir para o deserto; propõe tornar-se e sentir-se livre no lidar com eles. Estar preso a eles é fonte de angústia, especialmente ao não haver oportunidade ou tempo para os gastar. Importante é não tornarem a pessoa autocentrada, fechada em si própria pelas muitas posses.
A cena de Zaqueu a querer seguir Jesus repartindo os seus bens (Lc 19,8) sugere que o seguimos sendo solidários com os outros. A renúncia que Jesus pede é relacionamento novo com ele e com os bens materiais: o amor a ele e à sua causa, abraçar o seu estilo de vida, fecunda toda a vida e dá o sentido último a todos os outros amores.










