Armindo Vaz, OCD

Aurélio Agostinho, filósofo, bispo cristão, teólogo, Doutor da Igreja. Nasceu berbere, no norte da África, Império romano, em 354; morreu em 430. Filho de mãe cristã, de pai pagão. Grande intérprete da Palavra. Gigante em inteligência, génio do Ocidente. A sua palavra escrita influenciou o pensamento, a sociedade, a cultura, a política, a catequese, a moral. Nunca se contentou com a superficialidade. Se algo caracteriza a sua existência, isso foi a sede da Verdade que dá sentido ao Caminho e à Vida, da Verdade que é a morada onde o coração encontra paz e alegria. Não teve caminho fácil. Em jovem pensou encontrar a verdade no prestígio, na carreira, na posse de coisas, em vozes blandiciosas que lhe prometiam felicidade imediata. Cometeu erros; mas disse: “se erro, existo” (A Cidade de Deus, 11, 26). Afrontou insucessos mas não parou enquanto não encontrou Deus no Jesus dos evangelhos. Foi um dos primeiros pensadores a conjugar a existência na primeira pessoa.

Teve a sabedoria de olhar para dentro de si próprio e então apercebeu-se de que aquela Verdade, aquele Deus que procurava com as suas forças era mais íntimo a si do que ele próprio: “Debatia-me e inquietava-me com a falta de verdade, embora te procurasse, meu Deus…, não segundo o entendimento da mente…, mas segundo o sentir da carne. Mas tu estavas mais interior do que o íntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo” (Confissões III, 6,11). A inquietação é companheira inseparável do ser humano nesta vida mortal: “Senhor…, tu fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti” (Conf., I, 1,1). “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora e aí eu te procurava… Tu estavas comigo e eu não estava contigo… Chamaste e clamaste e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu aspirei e suspiro por ti; saboreei-te e tenho fome e sede” (Conf., X, 27,38).

Para quem tiver medo do silêncio, do recolhimento, de se pôr à escuta de si próprio e do mundo de hoje, com receio de que a Verdade o encontre, S. Agostinho tem uma palavra a dizer, uma palavra declamada com gracilidade. Certas passagens das Confissões e da Cidade de Deus ombreiam com a fluência de Cícero em complexidade e eloquência. É célebre pela concentração do pensamento em poucas palavras, explorando a densidade do latim: “Não procures compreender para acreditar, mas acredita para poderes compreender” (Trat. 29 in Jo. 7,14-18, §6).

A sua palavra parava com particular deleite no amor e nas maravilhas que ele realiza: “A pessoa que tem caridade no coração tem sempre qualquer coisa para dar”. Por isso, sublinhava: “Ama e o que queres faz” (In Io. Ep. tr. 7, 8). Tudo é permitido, desde que seja amor. “A Beleza cresce em ti à medida que cresce o amor, porque a própria caridade é a beleza da alma” (Homil. in 1Jo., homilia 9, §9). “A verdadeira medida do amor é não ter medida”. “O meu peso é o meu amor [peso tanto quanto amo, o meu verdadeiro valor está no meu amor]. Sou levado por ele para onde quer que eu vá” (Conf., XIII, 9,10).

“O Espírito Santo faz-nos habitar em Deus e faz habitar Deus em nós. Mas é o amor que causa isto. Portanto, o Espírito é Deus como amor” (De Trinitate). “[Deus] não nos prescreve mais nada senão que nos amemos uns aos outros… Não é porventura evidente que a obra do Espírito Santo no homem é pôr nele o amor de caridade, segundo as palavras do Apóstolo Paulo ‘a caridade de Deus [com a qual Deus nos ama] foi derramada nos nossos corações por meio do Espírito Santo que nos foi dado’ (Rm 5,5)?… Se encontras em ti a caridade, é porque tens em ti o Espírito Santo… Interroga o teu coração; se nele encontras o amor pelo teu irmão, fica em paz: tal amor não pode estar lá sem lá estar o Espírito Santo” (In 1Jo, tr. 6,9-10 e 9,10).

“Tu, com o teu amor, tinhas trespassado o nosso coração e trazíamos as tuas palavras cravadas nas nossas entranhas; e os exemplos dos teus santos…, acumulados no íntimo do nosso pensamento, queimavam e consumiam o nosso pesado torpor, para não nos inclinarmos para as coisas inferiores, e abrasavam-nos intensamente” (Conf., IX, 2,3). “Oh! Profundidade admirável das tuas palavras [da Escritura]…: profundidade admirável, meu Deus, profundidade admirável! Voltar-me para ela infunde-me horror, horror de honor e tremor de amor” (Conf., XII, 14,17).

Agostinho teve a pacificadora certeza de quem finalmente compreendeu; mas sobretudo teve a felicidade de quem sabe que o amor é tudo e que isso nos basta (cf. Bento XVI, 25.8.2010). Compreendeu que, encontrando a Verdade, foi a própria Verdade, que é Deus, a encontrá-lo a ele. Ele teve o mérito de procurar e de se deixar encontrar. Nas Confissões rezou e nós rezamos com ele: Senhor, “dá-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres” (X, 29,40); “diante de ti está a minha força e a minha debilidade: conserva aquela, cura esta… Faz que eu me recorde de ti, que te escute, que te ame. Amen!” (De Trinitate, 15, 28,51).