Armindo Vaz, OCD

A nossa vida é uma narrativa entretecida com o fio do tempo. E Demóstenes disse que dispomos de dois meios para as boas relações entre as pessoas: a palavra e o tempo. O tempo, sempre desigual, é a música que tonifica a palavra das nossas relações. Esse grande construtor de vidas humanas, corre implacável nos dias e noites da nossa carreira terrestre. Mas o tempo que nos leva de férias faz correr mais devagar os ponteiros do relógio, entre as palavras cruzadas descontraidamente com os amigos. Passámos o ano sob a pressão do cronómetro, em que a palavra de ordem foi o trabalho frenético. Agora fazemos uma paragem, em que a palavra de ordem pode ser a da leitura pausada e da palavra meditada. Durante o ano, vivemos mais o tempo da profissão. Agora ocupamos o tempo mais naquilo para o qual sentimos vocação.

Os gregos usavam duas palavras para entender e dizer o tempo: kairós e krónos.

Krónos dizia o tempo cronológico do calendário, contado pelos astros. Segundo a mitologia grega, o deus Krónos mutilou o pai e engolia os filhos apenas nascidos, a fim de não ser por eles destronado. Essa sugestiva concepção mítica significava que o tempo cronológico nos devora. Ovídio definiu-o nas suas Metamorfoses (XV, 234) como “tempus edax rerum: ó tempo que tudo devoras”. É o tempo do relógio que nos deteriora, nos envelhece e nos mata, o tempo em que o urgente se sobrepõe teimosamente ao importante, o tempo indolor e incolor, atomizado, esboroado em múltiplos fragmentos. É o tempo que a humanidade desde sempre mediu: com clepsidras ou relógios de água, de sol e de areia, com relógios de diamante, de pulso, de mesa ou de parede, com relógios atómicos, despertadores, cronómetros e calendários, almanaques e anuários, foi cadenciando esse fugitivo que não se deixa agarrar e que é expressão inexorável da limitação radical e da finitude humana.

Mas, se a luta contra o tempo cronológico é contra-relógio em que fisicamente somos destruídos e vencidos, esta luta suscita em nós uma reacção renovadora, em busca de um tempo diferente, aquele que os gregos chamavam kairós, um tempo salvífico que nos pode salvar: é o tempo definido e marcante, que nos lança para o futuro pelos caminhos do amor, da verdade e da bondade, da lealdade e da felicidade. É o tempo purificador, o tempo livre e fecundo da festa e da celebração, do descanso e das férias: feriae, em latim, ‘diz’ precisamente «cessação de trabalho, descanso em honra dos deuses, dias festivos». É o tempo com sentido, que dá sentido ao tempo de trabalho e à vida, vivida com responsabilidade e densidade. É o tempo ‘perdido’ gratuitamente a gerar amizade, passado com as pessoas queridas e que não tem a mesma duração que o tempo cronológico. É o tempo para dizer e fazer aquilo de que mais gostamos, para viver o melhor que sabemos, usando palavras positivas.

Ora, porque no tempo dos computadores, telemóveis e smartphones, o tempo nos escorre por entre os dedos a baterem teclas, tornando-se um tempo líquido em que quase nada persiste como verdadeiramente necessário…, um tempo em que tudo é temporário, transitório, sem espaço para a palavra pausada sobre o que experimentamos, fotografamos, compramos e comparamos…, é imperioso aprender a conjugar esses dois tempos. A vida cumpre-se no tempo todo de cada um de nós e não só no tempo de férias. Não é vivida só no tempo da bonança e ao sol da Primavera, ao calor da praia de cada um ou à espera de que a chuva passe. Também convém aprender a «cantar e a dançar à chuva» do Inverno (singing and dancing in the rain), em sintonia com relâmpagos cintilantes e trovões dissonantes dos melhores desejos. É que as esquinas do tempo surpreendem-nos com a dor e o afecto, com o absinto e o bálsamo. Nos desertos e cidades do mundo, o tempo cronológico vai abrindo feridas sem fim, ao mesmo tempo que o tempo salvífico vai curando mágoas indizíveis.

A Filosofia, a Literatura e a Espiritualidade pairam frequentemente sobre o tempo. É porque ele remete para a pergunta sobre Deus, como aconteceu ao filósofo S. Agostinho. O tempo é uma concretização pontual da eternidade: fixa-a no momento que estou a viver e que já passou. Ora, Deus é «O sem tempo»: só pode ser eterno. Puxamo-lo por meio da fé para o tempo, imaginando o inimaginável ‘momento’ da criação do mundo e da humanidade. E assim falamos do ‘tempo’ de Deus, o tempo kairós e meta-histórico que dá sentido ao nosso tempo histórico.

Aqui adquire significação intensa a invocação bíblica do Salmo 90:

Sob o olhar de Deus “declinam os nossos dias,

Como um suspiro gastamos os nossos anos…:

Passam depressa e nós voamos…

Ensina-nos [, Senhor,] a contar os nossos dias,

para entrarmos no pórtico da sabedoria.

Que a tua misericórdia nos sacie pela manhã,

para exultarmos e nos alegrarmos todos os nossos dias”.

O descanso contemplativo nas férias gera um coração sábio e alegre, que nos lança na aventura de aproximar o céu da terra. O tempo kairós das férias rejuvenesce o que o tempo Krónos envelheceu: dá frescura e alegria para «cantar à chuva» do ano inteiro.